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COP26 tem mobilização de governadores e apelo por demarcação de terras

Governadores e lideranças após o lançamento do Consórcio Brasil Verde, na COP26 - UOL
Governadores e lideranças após o lançamento do Consórcio Brasil Verde, na COP26 Imagem: UOL

Flora Bitancourt e Kamila Camilo

Colaboração para Ecoa, de Glasgow (Escócia)

05/11/2021 06h00

Em um dia marcado pelo compromisso de nações em acabar com a produção de carvão e em parar de investir em energias fósseis fora de seus territórios, ativistas e grupos subnacionais presentes na COP26 seguiram frisando a importância de pressionar os governos a cumprir essas e outras metas para combater o colapso do clima.

Governantes locais também fizeram a sua parte. O início do dia de ontem (4) em Glasgow teve o lançamento do Consórcio Brasil Verde, iniciativa da coalizão Governadores pelo Clima que já conta com a assinatura de 22 estados. O grupo foi representado na Escócia por 10 governadores brasileiros, que viajaram com o intuito de fortalecer a agenda climática no país sem precisar depender tanto do governo federal.

A proposta do Brasil Verde prevê a atuação dos estados em três pilares: investimento em energia renovável, reflorestamento e desenvolvimento das comunidades locais, indígenas e quilombolas com o fortalecimento da bioeconomia.

O governador Renato Casagrande, do Espírito Santo, explica que, embora não substituam o papel do governo federal, os governantes estaduais estão se valendo da sua autonomia, capacidade de articulação e apoio das instituições para conseguir firmar compromissos e trazer investimentos internacionais em benefício do meio ambiente.

"O consórcio está aqui fazendo os contatos, construindo os caminhos e criando relações para tornar isso possível. Ainda assim, qualquer financiamento internacional depende da aprovação do Ministério da Economia — a nossa legislação exige isso. Mas acredito que o movimento que nós e outras entidades estamos fazendo aqui na COP ajudou a convencer o governo federal a adotar posições mais avançadas", afirma.

Os esforços, ele acredita, também estão contribuindo para melhorar a imagem do Brasil. "Nós estamos dando uma mãozinha para a diplomacia do Itamaraty. Os desafios deles ainda são grandes, mas certamente estamos dando uma ajuda", completa.

A importância da atuação local

O historiador Douglas Belchior, uma das principais lideranças do movimento negro, participou do evento e destacou aos governantes a importância da justiça climática e de olhar para as comunidades locais.

Em conversa com Ecoa, ele afirmou que é preciso cobrar que essas promessas se tornem ações. "A gente sabe que entre o discurso e a prática tem uma distância enorme, e o papel dos movimentos é pressionar pelo direito à vida das populações originárias e cobrar políticas nos estados. Porque é ali que as regras incidem diretamente sobre a vida das pessoas, e o que a gente percebe é o sucateamento das políticas ambientais e o não cuidado com o meio ambiente", diz.

Demarcação de terras

Célia Xakriabá, professora e ativista indígena do povo Xakriabá, de Minas Gerais - UOL - UOL
Célia Xakriabá, professora e ativista indígena do povo Xakriabá, de Minas Gerais
Imagem: UOL

Diosmar Marcelino de Santana Filho, pesquisador da IYALETA - Pesquisa, Ciência e Humanidades, também esteve com os governadores e defendeu a demarcação de territórios para populações indígenas e quilombolas. "Se tivermos regularização fundiária, titulação para territórios quilombolas, titulação de terras indígenas e sua demarcação, aí sim teremos um Brasil que vai poder discutir crédito de carbono com o mundo inteiro - porque só então será uma política para a proteção da vida da sua população", disse.

Célia Xakriabá, professora e ativista indígena do povo Xakriabá, de Minas Gerais, endossa essa posição. "Nós, mulheres indígenas e lideranças indígenas, estamos trazendo uma mensagem forte para o mundo. Não é uma mensagem nova, é uma mensagem velha para salvar o novo futuro: não é possível pensar em barrar as mudanças climáticas sem reconhecer a potência da demarcação dos territórios indígenas. Não é possível falar em floresta de pé com o etnocídio e o ecocídio em curso no Brasil, com sangue indígena no chão", afirma.

Desigualdade

Renata Koch Alvarenga, fundadora e diretora do EmpoderaClima, uma plataforma educacional sobre gênero e mudança climática focada no Brasil e no sul global, fez um balanço do que já aconteceu na COP e apontou a necessidade de discutir mais as questões ligadas à desigualdade no evento.

"Estamos terminando a primeira semana de COP e acredito que já vimos algum progresso em termos de comprometimento e financiamento em relação à justiça climática. Mas falta a perspectiva das pessoas mais afetadas, principalmente as jovens mulheres, na mesa de decisão", comenta.

Renata afirma que a COP ainda está um pouco atrasada quando se fala em igualdade de gênero e aponta problemas de acesso no evento: "A gente começou a discutir igualdade de gênero há poucos anos, então as expectativas ainda são baixas em relação a isso. Mas esta COP tem muitos fatores de desigualdade, principalmente pela questão da pandemia, pois muitas pessoas ativistas não puderam estar aqui pela falta de distribuição de vacinas. E há falta de acesso às negociações mesmo para quem está aqui", conclui.