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Ao virar servidora pública, ela descobriu que fazia política desde infância

Ana Muza com a bandeira do arco-íris - Arquivo pessoal
Ana Muza com a bandeira do arco-íris Imagem: Arquivo pessoal

Danilo Casaletti

Da República.org

27/10/2021 06h00

Quando tinha apenas 10 anos de idade, Ana Muza Cipriano liderou uma pequena revolução dentro da escola em que estudava, na comunidade do Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, na zona sul do Rio de Janeiro. O feijão servido na merenda estava estragado, mas a diretora não queria admitir o problema. Ana tomou a frente da questão e, acompanhada por um grupo de alunos, convidou a gestora a experimentar o alimento. Feita a prova, o debate se encerrou.

Na adolescência, fez parte do programa Mulheres da Paz, do governo do estado do Rio de Janeiro, que dava apoio para mulheres que sofriam violência doméstica. Com forte capacidade de liderança, ficou responsável por mapear e trazer quem precisava de ajuda na comunidade para dentro do projeto. Acabou se tornando uma líder comunitária.

Essas primeiras experiências, que nasceram de seu temperamento inquieto e da vontade de melhorar a vida de quem está à sua volta, servem de inspiração para seu trabalho hoje, aos 33 anos de idade, na Secretaria Especial de Políticas e Promoção da Mulher do Município do Rio de Janeiro. No cargo de articuladora territorial, atua no centro e na zona sul da cidade. Sua missão é ir para as ruas e mobilizar as mulheres mais vulneráveis a qualquer tipo de violência para que elas participem de projetos oferecidos pela secretaria.

Entre eles estão as oficinas do programa Mulheres Cidadãs - que ensinam redação, artesanato, expressão corporal, depilação, entre outras atividades. As aulas têm dois objetivos: a capacitação profissional e o empoderamento. A independência, emocional ou financeira, estão entre os principais desafios enfrentados pelas mulheres que são vítimas de violência doméstica ou que sofrem com relacionamentos abusivos.

"Há esse obstáculo quando elas entendem que estão em uma relação imprópria, o que também, muitas vezes, não é um caminho fácil, e que precisam sair para que nada de mais grave aconteça", afirma. No centro da cidade, as aulas acontecem dentro do Museu do Amanhã. Só neste ano, mais de 600 mulheres já foram atendidas.

Ana relata que é preciso fazer um trabalho em especial com mulheres acima dos 45 anos, que são mais resistentes a abandonar um relacionamento ou um lar nos quais são vítimas de violência. Soma-se a isso o fato de ela e outra colega de secretaria, que tem 27 anos, se tornarem uma espécie de conselheiras dessas mulheres. "Elas pensam: como assim? Vão indicar o que tenho que fazer na minha vida?".

Para lidar com esse tipo de situação, além de muito entendimento e acolhimento, é preciso seguir todos os treinamentos oferecidos pelo órgão para o qual elas trabalham. E o mais importante: dar ferramentas para que essas mulheres percebam por si só que estão em um relacionamento destrutivo. Quando isso acontece, elas são encaminhadas para psicólogos e são acomapnhadas pelas duas servidoras nas consultas.

Ana afirma que ouvir os relatos e saber que uma mulher precisa de ajuda não é tarefa das mais fáceis. Acostumada a dar atenção para os problemas da comunidade desde muito cedo, ela tem consciência que agora, em cargo público, precisa seguir o caminho das políticas estabelecidas pela secretaria. "A vontade que dá é dizer: saia da sua casa e venha para a minha. Mas não posso fazer isso. Ter esse entendimento foi difícil e desafiador."

Ana está envolvida também em outro projeto da Secretaria Especial de Políticas e Promoção da Mulher, comandada por Joyce Trindade. O objetivo é fazer um mapa da mulher carioca. Na condição de articuladora, sua função é ir para as ruas e conhecer a moradora da cidade. Levantamento semelhante foi feito há alguns anos, mas de forma distorcida. As entrevistadas eram, em sua maioria, brancas e heterossexuais. Para que o resultado reflita as realidades de uma população diversa, o estudo precisa ouvir também mulheres negras, lésbicas e trans. E, para isso, ela procura conhecidas e pede para que avisem outras três mulheres sobre a pesquisa. Dessa forma, uma rede de mobilização se forma.

"Se a gente não buscar, a prefeitura não vai ter esses dados. Ficaremos sempre apagadas nesses levantamentos", afirma. Ela sabe o quanto é importante se sentir representada: "Sou mulher, preta, lésbica, gorda e candomblecista. É muito muro para eu quebrar", diz.

Além de seu trabalho na secretaria, Ana toca o jornal comunitário e virtual PPG Informativo, com notícias do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Criado por ela em 2014, traz notícias importantes para a comunidade e que são ignoradas pela grande mídia, como o problema frequente da falta de água. Com a ajuda de uma colega, ela cobra dos órgãos responsáveis a solução dos problemas enfrentados pelos moradores.

Ana Muza - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A servidora pública Ana Muza (centro) ao lado da vereadora do RJ Tainá de Paula (esq.)
Imagem: Arquivo pessoal

Durante a pandemia, o jornal deu dicas sobre como fazer e higienizar máscaras de pano e participou ativamente de campanhas para arrecadar e distribuir alimentos. O resultado foi bom no num primeiro momento. Agora, em meio à grave crise econômica, as doações caíram.

Ana também criou o PPG Mulheres, destinado a doar absorventes para as mulheres da comunidade e fraldas para as mães de filhos pequenos. O desafio é mantê-lo ativo. A última ação aconteceu em setembro, quando fãs da cantora Maria Rita se mobilizaram, na data do aniversário da artista, e doaram uma soma em dinheiro para o jornal. Mesmo assim, a capacidade de atendimento, que já foi de mil famílias por mês, caiu para apenas dez.

Mãe solo de uma menina de 15 anos e um menino de 13, ela mora hoje em Marechal Hermes, na zona norte do Rio. Mesmo ligada ao Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, achou que seria importante para os filhos conhecer outra realidade. "Sou um monte de coisa, mas não sou bagunça. Tudo que fiz ao longo da vida me capacitou para hoje estar aqui, atuante."

Do serviço público, no qual entrou há menos de um ano, já tirou uma lição. Ou melhor, tomou consciência de algo que praticava desde a infância. "Pensei que não fazia política. Mas quando entrei no serviço público, descobri que a comunicação, a mobilização e o cuidar do outro é uma forma, sim, de fazer política", afirma Ana, que largou a faculdade de marketing no sétimo período ao perceber que não queria trabalhar com as coisas que aprendia no curso.

Seu sonho é transformar o PPG em uma ONG na qual possa desenvolver ações voltadas para mulheres, crianças e idosos. Filha de Xangô, que, segundo ela, substituiu a figura ausente do pai na infância, ela se agarra ao orixá, tido no candomblé como um guerreiro, para ter força e, como diz, fazer mais do que seus dois braços possam alcançar. "Xangô é energia, imenso. O amor da minha vida."

Esta reportagem foi desenvolvida em parceria com a República.org, organização social apartidária e não corporativa que se dedica a contribuir para a melhoria do serviço público no Brasil, em todas as esferas de governo.

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