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Empresas que mudam

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"Fazer moda é achar soluções para pessoas e mundo", diz estilista vegana

A estilista Romina Cardillo - Divulgação
A estilista Romina Cardillo Imagem: Divulgação

Fernanda Ezabella

Colaboração para Ecoa, de Los Angeles (EUA)

21/10/2021 06h00

A estilista argentina Romina Cardillo vem de uma família com longa tradição na moda, mas ela resolveu seguir seu próprio caminho e criar uma nova marca, a primeira de roupas veganas no país, fundada há 14 anos. Antes, no entanto, ela fez a mãe, a estilista María Vázquez, parar de trabalhar com pele animal e ainda a introduziu ao veganismo, no qual segue forte faz dez anos.

Com criações sustentáveis, sem gênero e peças monocromáticas de silhuetas largas, Cardillo vem conquistando o mundo fashion internacional. Em 2020, foi selecionada pelo prestigiado prêmio francês LVMH Prize e, em 2019, criou uma coleção cápsula vegana para a Nike.

A estilista de 40 anos esteve em Los Angeles para a 3ª edição da Vegan Fashion Week, a primeira semana de moda vegana do mundo, com sua grife Nous Étudions. Ela conversou com Ecoa sobre os desafios da carreira, novos materiais veganos e de como o futuro da moda sustentável está nas mãos dos consumidores.

Ecoa - Você vem de uma família tradicional da indústria da moda na Argentina. Por que resolveu seguir seu próprio caminho?

Romina Cardillo - Minha mãe é estilista e tinha uma grande empresa na Argentina, bem famosa. Mas nunca foi meu estilo. Queria buscar meu próprio caminho, tinha minha própria visão e minha família foi OK. Eles entenderam que era meu sonho e sempre me apoiaram. Minha mãe é vegana hoje, faz uns dez anos.

Como foi abrir uma marca de roupa vegana no país em 2007?

Foi difícil na primeira vez. Minha primeira marca foi a Grupo 134, a primeira vegana e sustentável da Argentina. Muita gente não entendia o conceito porque era muito novo. As pessoas perguntavam por que eu não usava couro. Elas diziam: "Tudo bem não usar coelhos, mas por que não couro?" Hoje em dia é mais fácil de entender, ainda mais com a pandemia e tudo o que está acontecendo no mundo.

Quais foram outras dificuldades do começo?

As pessoas acham que não tem qualidade porque não tem couro. Acham que não é bom para o meio ambiente porque tem poliéster. Mas eu trabalho com "eco leather" que é biodegradável, não tem poliéster. Então não tem mais desculpa. A indústria está mudando e este é o caminho.

Desfile da coleção de Romina Cardillo na Vegan Fashion Week - AlexxMayes/Divulgação - AlexxMayes/Divulgação
Desfile da coleção de Romina Cardillo na Vegan Fashion Week
Imagem: AlexxMayes/Divulgação

Há vários tipos de couro que não usam pele de animal. Por que continuamos a chamá-lo de couro?

Eu nunca chamo de "couro vegano", mas é um termo que as pessoas gostam, se acostumaram. Para mim, é um novo material, uma nova visão, uma nova textura. É um jeito diferente de ver fashion. Para mim, moda hoje é achar soluções para as pessoas, para o mundo, e não mais fazer roupas apenas pelos negócios ou porque eu gosto. Os estilistas de hoje estão mais comprometidos com o fazer das roupas.

Como foi a sua transição para o veganismo?

Eu era muito jovem, tinha uns 18 anos e o termo vegano nem existia. Quando comecei a trabalhar com minha mãe, disse que ela teria que parar de trabalhar com pele de animais, então ela mudou toda a marca. Eu tento colocar minha filosofia na minha marca, e não o contrário. Sou vegana e preciso fazer roupas que são boas para minha filosofia. Vegano é um termo, uma proposta para o futuro.

Como é ser vegana na Argentina, um país famoso pela carne?

Isso mudou muito. A Argentina é um lugar muito bom para veganos porque há muitas opções. As pessoas mudaram a ideia de que somos o país da carne. Talvez esse conceito seja válido ainda para a geração mais velha, mas para a nova geração do povo argentino, há comida muito interessante, boa e saudável. Muitos estilistas são veganos e sustentáveis na Argentina. Muita coisa mudou.

Desfile da coleção de Romina Cardillo na Vegan Fashion Week - AlexxMayes/Divulgação - AlexxMayes/Divulgação
Desfile da coleção de Romina Cardillo na Vegan Fashion Week
Imagem: AlexxMayes/Divulgação

O que acha das grandes marcas fazendo roupas veganas, mesmo quando continuam usando couro e pele em outros produtos?

Acho que estão mudando, pode ser um começo para elas. Recebi um prêmio de uma marca [LVMH ] que não é vegana, que trabalha muito com couro. As marcas precisam de mais tempo porque os consumidores precisam de mais tempo para entender esse novo processo. Mas, para mim, tudo que é vegano, é bom. As pessoas estão mudando, e eu acredito mais nas pessoas. Quando as marcas perceberem que os millennials e a nova geração não querem couro, não querem animais, ou isso e aquilo, elas vão mudar. A resposta virá dos consumidores.

Qual a inspiração para o nome da marca, Nous Étudions ("nós estudamos")?

O nome é porque estamos sempre de olho em novos estudos, novas técnicas, novos estúdios, e queríamos um nome cosmopolita. A família do meu namorado é francesa, e eu sou descendente de italianos. Temos cinco pessoas na empresa, mas trabalhamos com muitos colaboradores. Vendemos no site e em algumas lojas pelo mundo. Faço o que faço para ter a vida que quero, e não para ser milionária. Faço o que gosto e vivo como quero.

O que tem de novidades veganas na sua nova coleção?

É uma coleção bem experimental. Sempre tento achar novos jeitos de fazer roupas. Usei novas técnicas, como um couro que não usa pele animal e é biodegradável, de uma firma chamada Vinylife. E fiz uma linha com ajuda de uma comunidade na Argentina chamada Wichí. Eles têm uma técnica chamada "punto yika", única no mundo, e usam material que tiram da árvore. Mas usamos no lugar um fio bio vegano tricotado. Não precisa usar animal ou árvore. É uma técnica ancestral feita com uma tecnologia nova.

Quais foram descobertas recentes na indústria da moda boas para o movimento vegano?

As colaborações são muito importantes para conhecer novas pessoas, novos estilistas, novos materiais. Para mim, o novo negócio da moda é uma colaboração entre todos, especialmente na América Latina. É uma nova visão. Não é você e sua marca ali, e eu e minha marca aqui, sem me importar com o que você precisa. Sempre nas minhas coleções digo quais são meus tecidos, meus fornecedores. É muito importante porque os estilistas mais jovens podem não ter ideia de como começar, então gosto de mostrar que tenho muito com o que trabalhar. Toda coleção quero mandar uma mensagem de que é possível fazer uma marca sem matar animais.

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