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Professora de Uberlândia (MG) usa a arte contra o preconceito e o bullying

Divulgação
Imagem: Divulgação

Danilo Casaletti

Da Republica.org

20/10/2021 06h00

Quando cursava a graduação em artes plásticas, Flaviane Malaquias, 37, ouviu a seguinte recomendação de um professor: "Não confunda arte com arteterapia". Até hoje, vez ou outra, ela escuta alguém repetir essa sentença. Professora de arte em duas escolas públicas de Uberlândia, em Minas Gerais, diz ter aprendido na prática que quebrar esse paradigma ajuda a mudar e salvar vidas.

"Se meus alunos precisam, eu abro, sim, esse espaço. Na aula de artes, eles se sentem mais à vontade para falar de seus problemas e de suas angústias. Eles não têm muitas oportunidades para isso em outras disciplinas", afirma Flaviane. "Infelizmente, não temos políticas públicas que coloquem psicólogos em todas as escolas."

Com uma aula semanal de 50 minutos para cada turma, o jeito que ela encontrou, para, além de desenvolver as competências exigidas no currículo, trabalhar questões sociais e emocionais de seus alunos foi criar projetos mais longos, que chegam a durar meses ou o semestre todo.

A professora Flaviane Malaquias - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A professora Flaviane Malaquias
Imagem: Arquivo pessoal

O primeiro deles ocorreu entre 2017 e 2018 e foi batizado de Direitos Humanos - Uma questão do mundo, uma questão do Brasil, na escola municipal Professor Otávio Batista Coelho Filho. Inspirada pelo mestrado que fazia à época em arte-educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), focado na interculturalidade, Flaviane estabeleceu um intercâmbio com professores dos Estados Unidos, do Canadá, de Camarões, da Síria, da Colômbia e da Eslovênia para que os alunos pudessem trocar desenhos que refletissem a importância de se garantir o respeito aos direitos humanos. A ação também mostrou que eles podem e devem ser os multiplicadores de ações em defesa da paz e da liberdade.

Os desenhos foram discutidos nas aulas do 7º e 8º ano da professora. Ao todo, cerca de 400 alunos brasileiros foram impactados pelo projeto. "Registrei as falas dos alunos. Foi um momento de muita sensibilidade e uma oportunidade de eles entenderem os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e quais, ao redor do mundo, estavam sendo infringidos, bem como de conhecer diferentes culturas."

Para Flaviane, os relatos dos estudantes foram surpreendentes e mostraram a transformação de cada um depois de se aprofundarem na discussão dos direitos humanos. Muitos vislumbraram aquilo que poderiam se tornar dali para frente. "Quis mostrar o que era uma pessoa etnocêntrica, cheia de preconceitos em alguns pontos, e buscar essa adaptação de entender o outro. Mas isso só acontece com um trabalho contínuo."

Entre os professores dos países que participaram do projeto - reunidos por meio da Sociedade Internacional de Educação pela Arte (InSEA) — , apenas o educador de Camarões Ngha Beng Kwokom Linu, que adota o pseudônimo Bobo Leennox, não conseguiu enviar os desenhos de seus alunos pelas dificuldades criadas pela guerra civil que assola o país africano desde 2016. Mas eles foram exibidos virtualmente.

Desenho feito por um dos alunos - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Apesar do contratempo, Leennox aponta os benefícios da iniciativa: "Foi um projeto genuíno e uma oportunidade de troca e esperança para as futuras gerações. Compartilhar experiências, culturas e ideias com nossos filhos e jovens, tanto em Camarões quanto no Brasil, é uma boa ferramenta para empoderá-los, ensinando sobre sustentabilidade econômica, física e social."

Os desenhos dos alunos de Leennox denunciaram as violações que ocorrem no país, como a violência doméstica, o abuso infantil, o trabalho forçado, casamentos prematuros e prisões arbitrárias. "O projeto ajudou a criar consciência sobre as violações dos direitos humanos não apenas em nossa comunidade, mas para um público mais amplo." Os desenhos já foram exibidos em várias exposições no Brasil e no exterior — entre elas uma no Sesc Uberlândia em 2018.

Em 2019, com as mesmas turmas, Flaviane mudou o foco do projeto para debater uma questão que a escola conheceu de perto: o suicídio. Naquele ano, um estudante que havia acabado de concluir o ensino médio tirou a própria vida. Nada em seu comportamento indicava essa possibilidade. A professora relata que o caso foi um trauma para os alunos. "Criou um sentimento geral de 'como eu não cuidei mais dele?'." Três anos antes, um jovem de 14 anos, aluno de uma escola municipal na periferia de Uberlândia, também havia se matado, caso que teve grande repercussão na cidade por ter ocorrido na época do jogo virtual chamado Baleia Azul, no qual os participantes são instigados a cumprir desafios.

"Eu achei que essa questão [suicídio] poderia ser um problema de vários outros estudantes. Por isso, abri um canal para que eles pudessem falar e pelo qual pudéssemos descobrir quais intervenções a escola deveria fazer", afirma.

Desenho feito por um dos alunos - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Para atender a esses objetivos, Flaviane criou o projeto Setembro com Van Gogh - sim à vida, não ao suicídio, inspirado na vida e na arte do pintor holandês, que sofreu com transtornos mentais e tirou a própria vida aos 37 anos. Ao sentir a dificuldade dos alunos com o tema, Flaviane buscou a beleza na obra do artista e apresentou a eles os famosos girassóis pintados por Van Gogh — ele fez uma série de quadros sobre o tema.

Flaviane pediu que cada aluno escrevesse em pétalas de papel quais eram os motivos pelos quais as pessoas decidem dar fim à própria vida. As respostas estavam ligadas ao cotidiano de muitos deles: a ausência do pai, separação dos pais, a indiferença de um amigo, entre outras.

Em outra dinâmica, a professora perguntou aos alunos em quem eles confiavam. O objetivo era levantar questões sobre convivência e fazer com que superassem rusgas com os colegas. O bullying, cuja prática de violência física e psicológica pode desencadear desejos suicidas, também foi abordado. Os poucos casos que aconteceram na escola, segundo a professora, foram contra alunos vindos da periferia - a Otávio Batista Coelho Filho fica em uma região central de Uberlândia.

Desenho feito por um dos alunos - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Flaviane viveu na infância em Uberaba a realidade dos alunos da periferia. Aluna aplicada, cogitou fazer matemática ou jornalismo, mas acabou decidindo por artes plásticas. Tendo crescido em uma família evangélica, ela conheceu outras realidades ao fazer pós-graduação. No curso de história e cultura afrobrasileira e africana, conviveu com uma grande maioria de alunos praticantes de religiões de matrizes africanas e aprendeu como a tolerância é imprescindível. Sua formação foi ainda enriquecida ao passar um ano em Melbourne, na Austrália, após ganhar uma bolsa para estudar no museu e galeria de arte The Duldig Studio.

Flaviane não pensa em abandonar os alunos das escolas públicas em que leciona. Além da Coelho Filho, dá aula na Escola Estadual Professor Inácio Castilho. O magistério e a busca da cura por meio da arte são suas vocações. "É minha missão de vida. Não me vejo longe das salas de aula. Também não posso deixar de usar a arte para salvar vidas. Se não houver a transformação, o esforço é em vão."

Para 2022, ela pensa em levantar questões trazidas pela pandemia - sentiu os alunos muito inseguros com a volta às aulas. De certo mesmo, Flaviane tem um projeto de iniciação científica para o ensino médio recém-aprovado na Inácio Castilho. Vai trabalhar o tema Arte e Manifestações Culturais Afro-brasileiras com um grupo de dez alunos.

Esta reportagem foi desenvolvida em parceria com a Republica.org, organização social apartidária e não corporativa que se dedica a contribuir para a melhoria do serviço público no Brasil, em todas as esferas de governo.

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