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Poeta iletrado do sertão pernambucano é personagem central de documentário

Pedro Tenório de Lima em cena do documentário "Pedro Tenório de Lima e a enxada de um poeta iletrado" - Divulgação
Pedro Tenório de Lima em cena do documentário "Pedro Tenório de Lima e a enxada de um poeta iletrado" Imagem: Divulgação

Eduardo Silva

Colaboração para Ecoa, de São Paulo (SP)

08/10/2021 06h00

"Quando uma pandemia atinge o mundo, o melhor lugar para se estar é fora do mundo." São com essas palavras que o documentário "Pedro Tenório de Lima e a enxada de um poeta iletrado", de 2021, começa. O filme se passa em Itapetim, município no sertão de Pernambuco, e foi roteirizado, dirigido e editado pelo jornalista e cineasta Jefferson Sousa, 27.

"Há centenas de poetas como Pedro Tenório por Itapetim, mas poucos se reconhecem como artistas, já que fazer poesia por lá é algo totalmente comum e está presente em todos os espaços", conta Sousa, destacando a geografia cultural da região. "A poesia é parnasiana, toda metrificada, uma oralidade herdada pela cantoria de viola", diz.

Por ter começado a trabalhar desde a infância, o agricultor Tenório, hoje com 75 anos, não se alfabetizou, mas compôs uma lista de poesias autorais que são recitadas ao longo de 22 minutos de filme. Os versos também abordam a pandemia do novo coronavírus, a morte e a esperança pela cura.

Eu vejo uma doença brava queimando a língua e os dentes. Quando nasce uma criança, seu corpo já é doente. E o cemitério é pequeno para enterrar muita gente. / Tá morrendo muita gente, vá vendo, Frei Damião. Morre sem levar tapa, sem levar um empurrão. Quem quiser ganhar dinheiro, aprenda a fazer caixão

Pedro Tenório narra no documentário

Pedro Tenório e sua enxada no documentário "Pedro Tenório de Lima e a enxada de um poeta iletrado" - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

As gravações foram feitas entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, e contaram com o apoio financeiro da Lei Aldir Blanc, em Pernambuco, como comenta o documentarista. "O mês seguinte foi dedicado à edição. O apoio financeiro que consegui deu para pagar a equipe e os custos de produção, mas a edição, a montagem e inscrições em festivais, além de outros detalhes de pós-produção, saíram do meu bolso", diz Sousa.

Este é o terceiro documentário sobre poetas iletrados que o cineasta produz. O primeiro, "Poetas analfabetos do sertão do Pajeú", foi lançado em 2017, e o segundo, "Leonardo Bastião, o poeta analfabeto", de 2019, estreou em festivais de 11 países, sendo premiado em seis deles. Ambos podem ser vistos gratuitamente no YouTube.

O mais recente, o documentário "Pedro Tenório de Lima e a enxada de um poeta iletrado", teve a sua estreia no One People Film Festival 2021, na África do Sul, e também foi exibido no International Ecological Film Festival To Save And Preserve 2021, na Rússia.
"Nos dois documentários anteriores, visitei seis países diferentes para participar de festivais de cinema, mas, infelizmente, não pude estar presente nos [festivais] que o filme sobre Pedro foi selecionado. Por mais que os motivos sejam óbvios, o atraso da vacinação no nosso país enfatizou essa limitação de divulgação", explica Sousa.

Jefferson Sousa - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jefferson Sousa dirigiu o documentário "Pedro Tenório de Lima e a enxada de um poeta iletrado"
Imagem: Arquivo pessoal

"O festival da África do Sul convidou todos os diretores e diretoras que tiveram os filmes selecionados para estar presentes no evento, destacando, em nota, que o convite não se estendia ao cineasta brasileiro - eu - e ao cineasta indiano, pelos respectivos países estarem em descontroles pandêmicos", complementa.

Cenários com plantações, animais e um pequeno açude formam o ambiente de Itapetim - que, até o mês passado, registrou 1.466 casos confirmados de coronavírus e 9.833 pessoas imunizadas com, pelo menos, uma dose da vacina. O filme também traz informações sobre números de casos e mortes por covid-19 a cada nova cena.

Ao final, o diretor explica que o filme é dedicado a todos os infectados e mortos pela covid-19 no mundo. "A ideia inicial foi acompanhar a poesia de Pedro, já que achei curioso o fato de ele já viver em isolamento antes mesmo de ser uma orientação da OMS [Organização Mundial da Saúde]. Uma triste coincidência foi o fato de que um dos maiores picos de mortes no Brasil aconteceu durante as gravações", explica Souza.

"Decidi marcar o tempo dos dias e semanas que a narrativa se passava através dos números de infectados e mortos. Uma homenagem com uma pitada de reflexão."

No Brasil, o filme foi transmitido pela plataforma de streaming Mubi e também está disponível no YouTube.

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