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Artistas se unem em coletivo para resgatar artes da 'quebrada' na pandemia

O "Um Verso de Mim" promove discussões de diversas temáticas, como gênero, raça e classe - Divulgação
O 'Um Verso de Mim' promove discussões de diversas temáticas, como gênero, raça e classe Imagem: Divulgação

Glória Maria

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

24/09/2021 06h00

Aos 13 anos, Fernanda Borges participou de uma atividade na escola que falava sobre poesia. Ela que já escrevia poemas e desenhos em um diário, percebeu que naquele momento aquilo significava fazer arte.

Com a chegada da vida adulta, e com a correria, Fernanda parou de produzir suas artes. Aos 22 anos e em março de 2020, foi demitida do emprego por conta da pandemia de covid-19, o que a fez trancar o curso de enfermagem que havia começado recentemente.

A demissão e mais o isolamento social imposto pela pandemia impactaram a sua saúde mental, gerando ansiedade e até um começo de depressão. Quando viu-se encurralada, decidiu voltar a fazer os seus desenhos e poesias.

A sua arte se tornou um instrumento de refúgio. Fernanda começou a compartilhar com amigos, que a incentivaram a publicar nas redes sociais. Foi quando ela teve a ideia de criar a página Um Verso de Mim, que foi fundada em junho de 2020 e está ligada à reviravolta na vida de Fernanda e de muitos jovens que se viram perdidos com o isolamento social.

"Fundei a Um Verso de Mim para que os artistas criassem forças para continuar e para que outros encontrassem suas forças na arte também. O projeto foi pensado para que as pessoas da periferia pudessem mostrar sua arte e ser reconhecidas, para que as pessoas aprendessem mais sobre o que é a arte, dando local de fala para que contem sua história e trajetória de vida como um artista e morador de periferia." relata Fernanda.

O coletivo, que hoje é formado por seis jovens, tem trabalhado com a criação de redes em outras periferias, também realiza publicações de conteúdo sobre a diversidade na arte, entrevistas com artistas, e agora está tocando o festival Quebrada Conectada, que acontece de forma online em parceria com o projeto Rap Vida Rap Voz e o Céu Caminho do Mar. O festival promove entrevistas e apresentações ao vivo com artistas.

O coletivo Um Verso de Mim traz à tona discussões de diversas temáticas, como gênero, raça e classe. Fernanda diz que a arte da quebrada não é vista com respeito, não tem apoio, e que o olhar marginalizado sobre a arte de periferia dificulta os jovens a se autoconhecerem como um poeta, mc, grafiteiro entre outras maneiras de se expressar.

"Tive dificuldade de falar que sou poeta, porque somos vistos como vagabundos, desocupados e a arte é necessária no mundo! Ela foi uma das coisas que mais me manteve incentivada, ser artista é ser corajoso. Com todas essas barreiras é preciso ter muita fé, fé em tudo, em você mesma, e no coletivo", diz.

Fernanda diz que encontra sentido em fazer parte desse projeto por ter muitas devolutivas positivas de artistas que estavam desacreditados em seus trabalhos, "Fico muito contente de poder me movimentar com algo tão significante. Recebemos muitas mensagens de agradecimento. A arte é uma projeção do que sentimos."

O projeto Um Verso de Mim será homenageado com o Prêmio Jovens em Destaque 2021, no dia 26 de setembro, pela sua atuação nas periferias. Para publicar a sua arte e saber dos próximos passos do projeto, entre em contato pelo perfil do projeto no Instagram. As inscrições para o festival Quebrada Conectada podem ser feitas por este formulário.