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Google escolhe empresa brasileira para criar tecnologia para surdos

Os fundadores da Hand Talk, Carlos Wanderlan (à esq.,), Ronaldo Tenório e Thadeu Luz (à dir.); empresa foi financiada para novo projeto "high tech" para Libras - Divulgação
Os fundadores da Hand Talk, Carlos Wanderlan (à esq.,), Ronaldo Tenório e Thadeu Luz (à dir.); empresa foi financiada para novo projeto "high tech" para Libras Imagem: Divulgação

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

20/09/2021 06h00

Em 2008, o publicitário Ronaldo Tenório teve uma ideia durante um trabalho da faculdade: criar um produto para ajudar a sociedade. Assim, ele começou a elaborar uma ferramenta para ajudar surdos e intérpretes de línguas de sinais. Anos depois, a iniciativa deu certo. Hoje, ele é fundador e CEO da Hand Talk, empresa que desenvolve um tradutor de Libras e promove acesso à rede para milhares de surdos.

Funciona assim: a plataforma oferece tradutores digitais para Libras (língua brasileira de sinais) e ASL, a língua estadunidense de sinais em smartphones e computadores. Em agosto, a Hand Talk apresentou um terceiro conceito: o Hand Talk Motion, para traduzir Libras ou ASL para ouvintes, apenas apontando a tela do celular. O projeto foi financiado pelo Google e deve ser lançado nos próximos anos.

Aplicativo e botão acessível

Por enquanto, a empresa possui dois serviços. Em um aplicativo chamado Hand Talk para smartphones é possível escrever, falar ou acessar um dicionário de palavras, e ter o conteúdo traduzido por um assistente virtual. Assim, quem escuta pode se comunicar com um surdo, apenas com a tela do celular. Mais de 4,5 milhões já instalaram o aplicativo.

Outra criação da empresa é um botão para sites e lojas virtuais. Ao acessá-las, o surdo pode clicar, selecionar um trecho e ter o texto traduzido para Libras ou ASL. Como no aplicativo, um assistente virtual aparecerá no canto da tela para sinalizar na língua de sinal escolhida. O recurso está presente em grandes plataformas de vendas, como Magazine Luiza, Claro, Samsung e em mais de 600 sites. O app e o botão são gratuitos para surdos e intérpretes.

Os intérpretes digitais são chamados Hugo e Maya. São eles que sinalizam em línguas de sinais. "Eles têm as mãos grandes e são bem expressivos para interpretar com eficácia as línguas", diz.

Aplicativo Hand Talk gera intérprete digital para conectar surdos a ouvintes - Divulgação - Divulgação
Aplicativo Hand Talk gera intérprete digital para conectar surdos a ouvintes
Imagem: Divulgação

Ir além

A empresa, hoje com 70 pessoas, foi escolhida para um financiamento do Google no Vale do Silício para desenvolver a nova tecnologia Hand Talk Motion. Como em um filme de Hollywood, o aplicativo capta os movimentos de línguas de sinais e traduz em texto e som para ouvintes. Ou seja, faz o caminho contrário do tradutor.

A Língua Brasileira de Sinais é o idioma para milhares de surdos no país e muitos a têm como o primeiro idioma, sem serem alfabetizados em português. "Por falta de acessibilidade, elas se sentem estrangeiras no próprio país", diz o CEO.

De acordo com IBGE, 9 milhões de brasileiros têm algum grau de surdez. Cerca de 2 milhões não escutam sons. Os dados são do último Censo, de 2010, e podem ser muito maiores. A Lei 13,146, de 2015, obriga que sites hospedados no Brasil sejam acessíveis para pessoas com deficiência.

Apesar disso, não há penalidades claras para páginas virtuais sem acessibilidade. Por isso, as organizações em prol de pessoas com deficiência precisaram convencer o mercado.

"O mercado foi se educando para entender que acessibilidade não é filantropia, é uma porta de entrada e de respeito com consumidores", diz.

A empresa também criou o Hand Talk Community, uma plataforma aberta para a coleta de dados que poderá ampliar o número de línguas traduzidas por Hugo e Maya. O intérprete fluente em língua de sinais pode ser voluntário na página da plataforma.

A Curadoria de Ecoa

Flora Bitancourt - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Flora Bitancourt, empreendedora social, consultora e curadora de Ecoa
Imagem: Fernando Moraes/UOL

As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à prática jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta reportagem, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por Flora Bitancourt, curadora de Ecoa.

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