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Aos 73, idoso faz faculdade para realizar sonho de 'plantar floresta' no RS

Formado em agronomia, seu Danilo realiza sonho antigo aos 73 anos - Camila Guedes/Divulgação/Universidade de Passo Fundo
Formado em agronomia, seu Danilo realiza sonho antigo aos 73 anos Imagem: Camila Guedes/Divulgação/Universidade de Passo Fundo

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo (SP)

15/09/2021 06h02

Aos 73 anos, Danilo Savariz se formou na faculdade de agronomia. Ele era o mais velho da turma de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e nas carteiras ao lado estavam jovens entre 18 e 20 anos.

A retomada dos estudos era um sonho antigo, daqueles que mantemos em segundo plano na vida, que não o largou com o passar dos anos. Na verdade, o desejo foi só crescendo.

Seu Danilo sempre quis cultivar uma plantação sustentável de erva-mate, e a preocupação com o meio ambiente vem de anos.

Na juventude, nos anos 60, ele ouviu pela primeira vez o termo "ecologia". Junto com essa nova palavra, uma porção de outras também surgia. Mas não era preciso de cientistas para explicar as mudanças, especialmente aquelas a ver com meio ambiente. Seu Danilo via esse novo mundo na prática.

Nascido em uma família pobre com 9 irmãos entre Catuípe e Santo Ângelo, Danilo ouvia por um radinho de pilha o lançamento da nave Apollo até a Lua, transmitido pela BBC de Londres. A locução o deixava maravilhado com as invenções que existiam por aí e assim ele se fascinou por máquinas. Estudou mecânica e foi selecionado para receber uma bolsa de estudos para se formar engenheiro mecânico.

Na época, o estado carecia de mão de obra qualificada para trabalhar nas grandes indústrias que ali se instalavam. Durante 35 anos, seu Danilo trabalhou como engenheiro mecânico na companhia estadual de energia elétrica e por mais 20 deu aulas de mecânica.

Com o tempo, notou que as grandes máquinas chegavam não só na Lua, mas à roça onde cresceu. As grandes plantações de soja e milho substituíram as plantações artesanais do passado.

Seu Danilo, agachado à dir., em trabalho de campo com futuros agronômos  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Seu Danilo, agachado à dir., em trabalho de campo com futuros agronômos
Imagem: Arquivo pessoal

A terra saiu de pequenas famílias para mão de poucos donos. Os jovens foram estudar na capital e em grandes cidades gaúchas. "Quando eu voltava para Santo Ângelo, era de chorar o que fizeram com meio ambiente", diz para Ecoa.

Em 1979, seu Danilo cursou um ano de agronomia, mas trancou para trabalhar. Na cabeça, mantinha o sonho. Quando o pai era ainda vivo, vendeu um carro para comprar hectares em Erechim. Com a carreira como engenheiro, formou os irmãos mais novos no colégio e a filha como arquiteta.

Quando se aposentou e a família já estava encaminhada, teve um estalo. "Por que não voltar para a faculdade e estudar um jeito melhor de plantar erva-mate?", disse.

Aula e estágio aos 70

Seu Danilo era sensação em sala de aula e também fora dela, quando partia para trabalhos de campo com os colegas. Havia apreensão. "Eu pensei se meus neurônios ainda conseguiriam aprender alguma coisa", brinca.

Os professores insistiram e os colegas o chamavam para tomar uma cerveja depois (ou antes) das aulas. Se orgulha, em seu sotaque gaúcho, que teve as melhores notas da sala.

"Você não imagina o respeito que os professores e a gurizada tinham comigo", lembra.

E foi preciso fazer um estágio.

Com máscara e distanciamento social, seu Danilo estudou o plantio de soja em uma fazenda em Erechim, e lá também foi o estagiário mais velho nas imediações. Dali em diante, começou a elaborar o TCC, o aguardado trabalho de conclusão de curso.

Agroecologia

No estudo, seu Danilo analisou as características biológicas e cultivo da erva-mate. Em seu terreno em Erechim, aplicou a técnica da agrofloresta. Nesse tipo de plantio, o objetivo é criar uma floresta de verdade para extrair frutos, legumes, raízes e até mesmo madeira de forma sustentável.

Diferentemente daquela imagem comum da monocultura, com longos campos apenas com soja ou milho, a agrofloresta mistura árvores diferentes no mesmo espaço, refloresta, vitamina o solo e produz orgânicos (sem agrotóxicos). As formigas, os pássaros e o vento são responsáveis por gerar material orgânico, "adubar" e espalhar sementes.

A erva-mate pode ser usada no chimarrão característico dos gaúchos e para bolos, chás, doces e cosméticos. O Brasil exporta para Uruguai, Argentina e Chile.

A colheita da erva é feita de maneira manual, o que diminui a atração de grandes fazendeiros. Mas seu Danilo não pretende ser um grande fazendeiro. Ele deseja apenas que os hectares recebam mais pássaros, insetos, árvores e fortaleçam os rios e melhore o ar da região.

Formatura

Neste ano, quando estava em casa, recebeu um telefonema da Universidade de Passo Fundo com esclarecimentos sobre a formatura, cancelada pela pandemia. A direção o orientou a ir até o campus.

Seu Danilo recebe chapéu de formando na Universidade de Passo Fundo; formado, não descarta fazer uma pós-graduação - Camila Guedes/Divulgação/Universidade de Passo Fundo - Camila Guedes/Divulgação/Universidade de Passo Fundo
Seu Danilo recebe chapéu de formando na Universidade de Passo Fundo; formado, não descarta fazer uma pós-graduação
Imagem: Camila Guedes/Divulgação/Universidade de Passo Fundo

Quando chegou, foi surpreendido. Recebeu o canudo, o quepe, e posou como o mais novo formado em agronomia. A história rodou o Brasil. "Me chamaram até para participar de um desses negócios de áudio, o tal do podcast em Mato Grosso", diz.

Os coordenadores deram a ideia de uma pós-graduação. Ele não descarta.

"Se eu começar agora, com 76 já posso ter mais uma formação. Tá em aberto", diz. "O que eu vivi com os estudos, eu não vivi em meus 20 anos. Foram os melhores dias da minha vida", conclui.