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Encontrar emprego para pessoas em situação de rua é objetivo do Trampolink

Participantes do TrampoLink em busca de oportunidades de emprego - Divulgação
Participantes do TrampoLink em busca de oportunidades de emprego Imagem: Divulgação

Sibele Oliveira

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

17/08/2021 06h00

Até a pandemia do novo coronavírus, Vivi Torrico, 49, tinha o hábito de entregar para pessoas em situação de rua a comida que sobrava em seu restaurante. Até que um dia a argentina formada em educação especial viu que o que fazia não era mais suficiente. Levou umas sete ou oito coxinhas para as pessoas de costume, mas se deparou com 70. "Eles não sabiam o que estava acontecendo. O olhar deles era de desespero. Eu, que sempre fui de guardar o choro, tive um surto de choro doído. Rolou uma conexão com o desespero deles, com a desinformação, a fome, a sede. Aquilo me tocou de um jeito que nunca antes tinha tocado", lembra.

Ela contou o ocorrido para o artivista Mundano, para o músico João Gordo, seu marido, e para os filhos do casal. Numa reunião com a família, teve a ideia de criar o Solidariedade Vegan, projeto que tem por objetivo distribuir marmitas veganas para pessoas em situação de rua, e o colocou em prática rapidamente. Na cozinha, passou a produzir até 500 refeições por dia, entregues pela equipe da ONG Pimp My Carroça, que trabalha com catadores de materiais recicláveis. Convivendo mais de perto com a população de rua e de ocupações, Vivi conheceu pessoas inteligentes e profissionalmente qualificadas.

Uma delas é Júlio César Alves, que morava numa praça, em baixo de uma árvore. Sem computador ou celular para acompanhar as aulas online, o torneiro mecânico não podia continuar o curso de mecatrônica. Ele confessou a Vivi o desejo de, pelo menos, trabalhar. Sensibilizada, a voluntária mobilizou pessoas próximas para conseguir um celular e um emprego para Júlio. Foi assim que ele voltou a estudar e, em menos de um mês, estava empregado, com a carteira assinada e ganhando um salário de mais de R$ 3 mil. Também passou a morar num abrigo.

Se há empresas interessadas em praticar marketing compassivo, Vivi pensou, elas podem oferecer vagas para quem mora nas ruas. Também se lembrou de amigos com cargos influentes que poderiam fazer essa ponte. Procurou, então, o sociólogo Paulo Escobar e a publicitária Paula Luna, e pediu orientação ao padre Julio Lancellotti. Todos concordaram que a ideia tinha potencial. Assim nasceu o Trampolink, em 29 de abril. "Sabíamos que havia pessoas com qualificações diversas nas ruas. E que se a gente desse uma oportunidade, eles iam abraçar, como uma mão quando a gente está se afogando", conta.

Preparo para trabalhar

Como acontece com quem tem casa, pessoas acima de 45 anos também encontram dificuldade para conseguir emprego, mesmo que falem outros idiomas ou tenham experiência em cargos importantes. Quando se está em situação de rua há ainda outras barreiras, como a falta de um endereço fixo. Para dar o exemplo, Vivi foi a primeira a contratá-las para trabalhar na Central Panelaço, restaurante vegano que tem com o marido. Ela acreditava que, em seguida, haveria um efeito manada de cozinhas veganas e foi o que aconteceu. Pouco depois, uma fábrica de panetones ofereceu 100 vagas exclusivas para eles, que ainda estão sendo preenchidas.

Em um mês de projeto, dos 30 cadastrados, 29 já estavam trabalhando. No momento, cerca de 105 estão esperando uma oportunidade, enquanto 73 conseguiram uma colocação profissional. O processo de adaptação nem sempre é fácil. "Quando a gente tira férias, tem o processo de adaptação para voltar à rotina. Agora imagina uma pessoa que nunca trabalhou, trabalhou pouco ou que está há mais de 10 anos desempregada. Fora isso, tem as que estão nas ruas, que passaram frio a noite inteira, não dormiram bem, que pegaram no sono atrasado. São diversas situações que levam elas a desistir. Às vezes, é uma desistência momentânea", diz Vivi.

Para essas, o Trampolink, oferece trabalhos temporários, para que se acostumem aos poucos ao novo cotidiano, e encontros com uma psicóloga. Na conversa, revelam o cargo que desejam, recebem ajuda para fazer o currículo, ouvem dicas de como se comportar na entrevista, ganham kits de roupa e de higiene e, quando necessário, o dinheiro para o transporte. Para quebrar o gelo, o projeto entrega para as empresas um manual sobre como tratar os futuros funcionários. Por enquanto, a maior parte das vagas é na área da gastronomia, mas já há empresas de outros segmentos disponibilizando vagas e cursos de capacitação profissional.

Os contemplados são pessoas em situação de rua e moradores de ocupações de São Paulo, com presença significativa de mulheres transgênero e homens cis. A previsão do TrampoLink é chegar ao fim do ano com mais de 300 contratados e levar a iniciativa para outros estados, como Rio de Janeiro e Porto Alegre, além de investir em cursos de capacitação dentro de comunidades. "Queremos também criar a sala de inclusão social, com 20 computadores, internet e ter o nosso espaço físico, que hoje a gente não tem", acrescenta Vivi. Para isso, estão em busca de um financiamento.

É muito mágico o que acontece. É um dos trabalhos que maior impacto causa porque realmente muda a vida de uma pessoa. Falo isso com propriedade porque entrego alimentos todos os dias. A pessoa fica agradecida por ter o que comer, mas uma hora depois, isso acabou. Com o trabalho é diferente.

Vivi Torrico, criadora do TrampoLink

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