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Cida Bento sobre diversidade nas empresas: "Bom caminho é estipular metas"

Carmen Lúcia

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

11/08/2021 06h00

"A sociedade é educada em várias estruturas sociais. A gente aprende que meninos e meninas são diferentes. O que é permitido para os meninos, não é visto como correto para as meninas. Então, existem estudos que mostram que já na escola, as meninas acreditam menos nelas mesmas. Principalmente quando o assunto envolve aprender algo na área de exatas. Estas questões começam a definir as mulheres desde cedo", explicou a professora Gina Vieira Ponte, que há 30 anos atua na educação básica, no início do segundo debate Como Ela Faz?, transmitido na noite de ontem (10) no Canal UOL.

Gina esteve acompanhada da também professora Cida Bento, psicóloga, ativista e diretora do CEERT, organização não-governamental que produz conhecimento, desenvolve e executa projetos voltados para a promoção da igualdade de raça e de gênero, de Cristina Palmaka, presidente na América Latina da empresa alemã de softwares corporativos SAP, e Silvio Silva, diretor comercial da Johnson & Johnson. A mediação foi de Ítala Herta, fundadora da Diver.Ssa, da aceleradora Vale do Dendê e curadora de Ecoa.

Parceria entre Ecoa, Rede Brasil do Pacto Global da ONU e Tocha Filmes, o encontro abordou a importância de um olhar transversal para discutir o espaço da mulher no mercado de trabalho — temas abordados na série documental "Como Ela Faz?", transmitida gratuitamente no UOL. O projeto apresenta 12 mulheres com diferentes vivências, culturas e profissões, driblando o machismo para brilhar na carreira.

De acordo com Gina, é preciso repensar a forma como a mulher é tratada na sociedade, deixando de excluí-la da história. Ela também reforçou a importância das políticas públicas neste cenário. "A educação sozinha não dá conta, é preciso políticas públicas. Muitos dos problemas educacionais que nós temos são antes de tudo problemas de desigualdade social. Um exemplo seria o fato de o Brasil ser campeão em famílias lideradas por mulheres. Elas precisam de escolas em tempo integral para que consigam trabalhar e também se qualificar mais. Outra questão é a geração de meninas pretas que foram impactadas pela pandemia. Aquelas que não conseguiam acessar o ensino remoto, que tinham que cuidar do irmão, cuidar da casa e não tinham como estudar. Elas vão precisar de políticas públicas para acessar o mercado de trabalho muito em breve."

Cida Bento fez coro e reforçou a necessidade de se atentar para as desigualdades que dificultam ainda mais a presença mulheres negras no mercado de trabalho. "Quando a empresa diz que a questão de gênero melhorou no ambiente corporativo, eu digo que as mulheres brancas estão empregadas. Um estudo recente mostrou que as mulheres negras são seis vezes menos empregadas do que as brancas. Um dos gargalos neste sentido é o conceito de meritocracia. Tem muita gente boa que merece e está lá dentro, mas tem muita gente boa que está aqui fora. Felizmente, hoje temos um alto percentual de mulheres negras que correm atrás e estão conseguindo ocupar boas faculdades, mas não conseguem ter a chance de chegar até as grandes corporações. É preciso que esta mulher seja vista como possível liderança", avaliou.

Cristina Palmaka, que iniciou sua carreira no mercado corporativo ainda com 16 anos, disse que sua maior força para buscar seus objetivos veio dentro de casa. "Minha grande inspiração foram meus pais. Nunca me trataram diferente dos meus irmãos. Eles e meu pai ajudavam em casa. Fui para o mundo achando que era igual a minha casa. Cheguei com a visão de que se eu trabalhasse, eu conquistaria o meu espaço. Demorou um tempo para eu entender que não era bem assim,"

Ao longo de sua trajetória, a executiva percebeu que em muitas situações, ela era a única mulher no local, pois atuava em um mercado predominantemente masculino. Mas este fator acabou se tornando sua ferramenta de luta. "Não tinham mulheres para me inspirar, mas agarrei as oportunidades e trouxe outras mulheres e meninas para tornar o ambiente mais diverso. Fiz desta a minha missão. Quero usar o poder da minha cadeira para trazer a pauta da diversidade e da inclusão. Tanto que o meu time de trabalho é composto por 50% mulheres. Está mais do que na hora de trazer esta discussão para o mundo corporativo", afirmou.

Já Silvio Silva falou sobre o deslocamento de investimento de empresas que entenderam que é importante abrir espaço para a diversidade. "Existem três pontos principais para a inclusão de pessoas negras e LGBTQIA+ neste mercado. O primeiro é que o público, aquele que consome o produto, ele é diverso. Como você vai entregar um produto para um público que é diverso se você não tem isso do lado de dentro? O segundo ponto é que é muito importante o funcionário estar em um espaço onde ele pode se expressar, sem precisar se enquadrar em um modelo pré-determinado. E terceiro, é preciso ter ações afirmativas nas lideranças, investimento em educação, na cultura e na carreira deste funcionário. Ter uma linha de desenvolvimento".

Silvio compartilhou sua trajetória pessoal e afirmou que quando as barreiras são tiradas e as oportunidades, dadas, muitos talentos afloram. "Sempre penso que, se aquela pessoa que não teve ajuda, acesso fácil à educação, nenhum privilégio, tinha que pegar quatro ônibus, conseguiu se formar, como alguém pode limitá-la? Com uma chance, essa pessoa pode ir muito longe", finaliza.

Para Cida, é preciso que as empresas invistam ações afirmativas mais efetivas. "Temos um caminho longo pela frente, mas as instituições estão se movimentando neste sentido. Acho que um bom caminho é estipular metas. Analisar quantos pessoas negras estão compondo o quadro de funcionários, quantas mulheres, reservar vagas para este público, gerar espaços reais para estas pessoas crescerem e se desenvolverem."

Na próxima terça-feira, os internautas podem conferir dois novos episódios da série "Como Ela Faz?" e mais uma mesa de debates ao vivo, a partir das 20h.

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