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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Proibidas em campo, mulheres indígenas criam rede de jogadoras de futebol

Erlange Figueiredo de Araújo (à esquerda) e Edneia Teles - Arquivo pessoal
Erlange Figueiredo de Araújo (à esquerda) e Edneia Teles Imagem: Arquivo pessoal

Ana Prado

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

24/07/2021 06h00

Além de ser a terceira maior cidade brasileira em extensão, São Gabriel da Cachoeira (AM) é considerada a mais indígena: nove a cada dez dos seus habitantes são indígenas. É também a primeira do Brasil a ter quatro línguas oficiais: além do português, são reconhecidos os idiomas nheengatu, tukano e baniwa.

É ali, a quase 900 quilômetros de Manaus e na fronteira com a Venezuela e a Colômbia, que a servidora pública Edneia Teles lidera uma revolução entre as mulheres por meio do futebol. Em 2014, ela foi uma das fundadoras do Campeonato de Futebol Feminino do município, que hoje conta com cerca de dez times formados por atletas da região.

Agora, aos 40 anos, ela lidera um grupo para reunir mulheres com idade entre 32 e 50 anos que jogam bola apenas por diversão: o Centenárias, nome que brinca com o fato de as participantes serem um pouco mais velhas do que as jogadoras profissionais.

Paixão pelo futebol desde criança

Edneia é indígena do povo arapaso e nasceu na comunidade Paraná Jucá. Aos 2 anos, mudou-se com os pais para o centro de São Gabriel da Cachoeira, onde vive até hoje. "Eles fizeram isso em busca de uma vida melhor para mim e meus irmãos. As condições aqui na sede já são difíceis, mas em regiões mais afastadas são ainda mais", explica.

Ela conta que sempre gostou de futebol e suas memórias com o esporte remetem ao tempo em que ainda morava no interior do município. "Um pouco mais velha, eu fugia para jogar com os meninos em vez de ajudar minha mãe a raspar mandioca para fazer farinha. Meus pais iam me buscar no campo até meus 18 anos", ri.

Mas era difícil conseguir um espaço para jogar até mesmo nas aulas de educação física. "Só havia oportunidade para os meninos. Então criamos um grupo feminino e começamos a jogar na rua e no ginásio na cidade - pulávamos o muro e ficávamos até os homens aparecerem e nos expulsarem. Quando isso acontecia, a gente ficava muito brava", lembra. "Passamos por vários momentos difíceis, e eu sempre pensava: 'um dia vou conseguir espaço em São Gabriel para nós'."

Luta contra o preconceito

Além de lutar por espaço, era preciso lidar com o preconceito. "Os homens falavam que lugar de mulher era em casa, brincando de boneca. Nós retrucávamos, mas éramos poucas e não tínhamos apoio do poder público", conta Edneia.

O time Independente FC, uma das equipes do município - Divulgação - Divulgação
O time Independente FC, uma das equipes do município
Imagem: Divulgação

Em 1995, ela e suas amigas cansaram de discutir e começaram a cobrar seus direitos organizando manifestações e coletando assinaturas para pedir espaço no ginásio, o único disponível até hoje para as atividades. O prefeito da época acatou o pedido, mas lhes concedeu apenas uma hora para o treino, uma vez por semana. Mesmo assim, elas precisavam se apressar quando o tempo estava perto de acabar: "Os homens chegavam e já começavam a gritar barbaridades", lembra.

O preconceito ainda existe. Mas, aos poucos, elas têm obtido progresso. "Na época em que começamos a lutar em prol das mulheres era muito difícil falar sobre esses temas. É muito forte a ideia de que o papel da mulher é cuidar da casa", conta. "Foi difícil desafiar tudo isso na nossa família e na cultura da região. Mas estamos conseguindo aos poucos e com calma".

Graças a esses esforços de décadas, hoje o esporte feminino cresceu bastante na região. Olheiros já têm aparecido por ali, e jogadoras têm sido convidadas para representar os povos indígenas do Rio Negro em times maiores.

A estrutura em São Gabriel, porém, ainda é precária. O campo é de terra batida, tem muitos buracos e vira um lamaçal quando chove. Além disso, as mulheres lutam para conseguir chuteiras, caneleiras e uniformes. A maioria tira o dinheiro do próprio bolso, mas a comunidade vem ajudando com pequenas doações e rifas.

O nascimento do Centenárias e o apoio para além do esporte

Edneia jogou como meia de um time local por muitos anos, mas parou por conta de uma lesão. Para não perder o contato com o esporte e garantir um pouco de descontração, ela e outras mulheres decidiram criar, em julho de 2019, o grupo Centenárias.

"Como a gente sempre coordenou eventos de futebol voltados para mulheres, muitas chegavam até nós dizendo que não tinham condições de competir, mas queriam muito jogar para se distrair", conta a servidora pública Erlange Figueiredo de Araújo, que coordena o grupo junto com Edneia.

Nascida em Coari (AM), Erlange tem 38 anos e mora em São Gabriel da Cachoeira há 18. O interesse pelo esporte começou quando ela chegou à cidade, incentivado pelas novas amizades que fez ali. Hoje, ela também não joga mais por conta de uma lesão. "Esse é um problema comum aqui. Muitas meninas precisam parar precocemente por se machucarem, e as péssimas condições do nosso campo contribuem para isso", afirma.

A ideia inicial era reunir mulheres a partir dos 35 anos, mas a alta procura fez com que elas baixassem a idade mínima. "Muitas meninas se interessaram pela nossa forma leve de jogar, sem muita rivalidade. Então acabamos reduzindo para 32 anos", explica Erlange.

As Centenárias se reúnem todas as noites de quinta-feira para jogar e curtir um momento de lazer e companheirismo. "Tem mulheres que fazem sopa, churrasco, e a gente toma aquela cervejinha gelada", ri Edneia.

O grupo conta com cerca de 40 mulheres de 23 povos - e entre elas há tanto ex-atletas que pararam de jogar por conta de lesões, quanto pessoas que nunca tinham jogado futebol antes. Há até pessoas que nem gostam do esporte e só participam para assistir e conversar com as outras integrantes.

Futebol une e empodera mulheres indígenas no Amazonas - Juliana Radler/ISA - Juliana Radler/ISA
Edneia Teles (em pé, à direita) com jogadoras de futebol de São Gabriel da Cachoeira (AM)
Imagem: Juliana Radler/ISA

Muitas vezes, os encontros acabam servindo como uma terapia coletiva: segundo Edneia, esse é o momento de as mulheres trocarem experiências e encontrarem suporte para problemas que enfrentam em casa. "Ouvimos muitos depoimento de colegas que estão sofrendo violência doméstica. Elas costumavam ficar presas com o marido, sem ter para onde ir, e hoje encontram esse apoio dentro do futebol", conta.

A violência doméstica é um problema comum em São Gabriel da Cachoeira. De acordo com um estudo realizado pelo Projeto Mulheres Indígenas, Gênero e Violência no Rio Negro, foram notificados 4.681 casos de violência contra a mulher no município entre janeiro de 2010 e dezembro 2019. Grande parte das agressões foi cometida pelo parceiro ou ex sob efeito de álcool.

Nem todas se abrem sobre o que estão vivenciando, mas Edneia acredita que isso não é necessariamente um problema: "Só o fato de estar lá e ter esse momento para se divertir já é de grande ajuda. Além disso, ao ouvir histórias de outras mulheres na mesma situação, elas conseguem enxergar saídas ou novas formas de lidar com isso".

A Curadoria Ecoa

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Elaíze Farias
Imagem: Juliana Pesqueira

Elaíze Farias
As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à prática jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta reportagem, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por Elaíze Farias, curadora de Ecoa.

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