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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Jovens distribuem absorventes e incluem item em cesta básica do Rio

Na zona norte do Rio, grupo Girl Up Elza Soares realiza doações de absorvente em cestas básicas - Amanda Menezes/Divulgação
Na zona norte do Rio, grupo Girl Up Elza Soares realiza doações de absorvente em cestas básicas Imagem: Amanda Menezes/Divulgação

Paula Rodrigues

De Ecoa, em São Paulo (SP)

06/07/2021 06h00

Arroz, feijão, macarrão, papel higiênico e sabonete — por lei, são esses alguns dos produtos que devem estar nas cestas básicas distribuídas pelo estado do Rio de Janeiro. Mas, no ano passado, um grupo da zona norte da cidade começou a questionar a ausência de uma coisa nesta lista. A pergunta que faziam era simples: por que o absorvente não é visto como item de necessidade básica se tantas pessoas menstruam?

Ao todo, são 60 milhões de brasileiros e brasileiras que menstruam no Brasil atualmente, de acordo com o relatório Livre Para Menstruar, divulgado em março deste ano. "E, aí, a gente ficava pensando que se as pessoas não estavam com condições para comprar comida durante a pandemia, como elas iam comprar absorvente? Não tem como!", conta Amanda Menezes, presidente do clube Girl Up Elza Soares.

Assim, o que nasceu como um incômodo se transformou em ação. O clube Girl Up Elza Soares, liderado por garotas de 17 a 20 anos, as levou de promover arrecadações de absorventes com conhecidos até a luta para conseguir fazer com que o governo do Rio de Janeiro se comprometesse com o assunto. Graças a elas, a lei 8924 foi implantada no estado, fazendo com que, desde julho de 2020, todas as cestas básicas distribuídas tenham também o produto de higiene para quem menstrua.

Girl Up Elza Soares - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Girl Up Elza Soares é formado por jovens de 17 a 20 anos, e liderado por garotas da zona norte do Rio
Imagem: Arquivo Pessoal

Arrecadação de absorventes

Tudo começou em março do ano passado, quando iniciaram uma campanha de arrecadação ainda tímida. "Pensamos em ligar só para nossos amigos e familiares para perguntar se eles podiam nos ajudar a comprar absorventes.", diz Du Dias Cardoso, que também participa do grupo.

Em uma semana conseguiram o suficiente para comprar 1.500 caixas de absorvente descartável e uma doação de 4 mil absorventes de pano da marca Korui. Para conseguir distribuí-los, entraram em contato com organizações que já estavam distribuindo cestas básicas em comunidades do Rio de Janeiro.

Girl Up Elza Soares - Amanda Menezes/Divulgação - Amanda Menezes/Divulgação
Na primeira arrecadação, as jovens conseguiram mais de 5 mil absorventes para doar
Imagem: Amanda Menezes/Divulgação

Aliás, a questão do material do absorvente foi se tornando uma preocupação conforme o grupo ia se envolvendo com o assunto. Primeiro, perceberam que distribuir os descartáveis poderia causar um prejuízo ao meio ambiente, já que demora anos para o plástico se decompor. Mas, ao mesmo tempo, entenderam que a realidade das pessoas que menstruam no Brasil são muito diferentes uma das outras.

"Tem muita gente que não tem saneamento básico e, por isso, não tem como lavar o pano. Não dá para fingir que é só dar o absorvente de pano para a pessoa que está tudo bem porque vai ajudar o meio ambiente. Não é assim que funciona, infelizmente. Então, a gente doa os de pano para quem tem acesso a água, mas outras vezes faz mais sentido doar o descartável mesmo", diz Amanda.

Girl Up Elza Soares - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Girl Up Elza Soares é formado por jovens de 17 a 20 anos, e liderado por garotas da zona norte do Rio
Imagem: Arquivo Pessoal

Absorvente na cesta básica é lei

Apesar dos elogios e agradecimentos que ouviram pela doação, o Girl Up Elza Soares tinha um problema: só conseguiriam fazer isso durante um mês. O dinheiro acabou e não dava para contar sempre só com a contribuição de conhecidos.

E como as pessoas menstruam o ano todo, sabiam que precisavam fazer algo para tornar a distribuição de absorventes uma rotina no Rio de Janeiro. Quebraram a cabeça tentando descobrir como tornar isso possível e chegaram à conclusão de que para transformar o absorvente em item básico, seria preciso mudar a lei.

"Mas a gente não sabia nada disso, não fazíamos ideia sobre o que é um projeto de lei. Aí, a gente foi pesquisar quem eram os deputados estaduais aqui do Rio, quem poderia ajudar a gente com isso. Mas, imagina, como um bando de meninas ia falar com essas pessoas? A gente não tinha o contato de ninguém!", conta Beatriz Diniz, vice-presidente do clube, afirmando que assim tiveram a ideia procurar grupos de jovens filiados a partidos políticos.

Falando com um e outro, conseguiram formar uma lista com nomes e contatos de políticos da ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). De todos que procuraram, só um topou ouvir a proposta que tinham. Renan Ferreirinha (PSB), então deputado e hoje secretário de educação do Rio de Janeiro, decidiu entrar nessa com elas e propôs que elas mesmas escrevessem um projeto de lei. Foi Amanda Sena quem escreveu.

"Foi tenso!", ela ri contando sobre a experiência. "Eu nunca tinha lido um projeto de lei na minha vida! Mas estudei muito e deu certo, em um mês o projeto foi aprovado e agora está na lei: toda cesta básica distribuída pelo estado do Rio tem que ter absorvente dentro!".

Girl Up Elza Soares - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Clube Elza Soares faz parte do movimento internacional Girl Up, presente em mais de 125 países.
Imagem: Arquivo Pessoal

Girl Up Elza Soares

Quando o Girl Up Elza Soares foi criado em 2019, elas nem sonhavam que um dia iriam escrever um projeto de lei para tentar combater a pobreza menstrual, ou seja, a falta de condições para conseguir comprar produtos para a menstruação. A ideia era só montar um clube de meninas para promover conversas e construir uma rede de apoio, seguindo o modelo do movimento internacional Girl Up, criado nos Estados Unidos, e que já está presente em mais de 125 países.

Amanda Sena conheceu a iniciativa quando casos de assédio começaram a ser denunciados por garotos da escola onde estuda. Quando ouviu uma colega contar que fazia parte de um grupo assim, ela sentiu vontade de criar um novo para garotas da zona norte do Rio de Janeiro.

Apesar da maior parte das 34 pessoas do clube serem meninas de 14 a 22 anos, Beatriz lembra que elas aceitam a participação de todo mundo porque acreditam que "igualdade de gênero se constrói coletivamente".

Entre em contato: girlupelzasoares@gmail.com

Pix: @girlupelzasoares

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