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Brasileira ganha prêmio da ONU por criar plataforma para mulheres viajantes

A designer e empresária Jussara Pellicano Botelho - Divulgação
A designer e empresária Jussara Pellicano Botelho Imagem: Divulgação

Ana Prado

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

03/07/2021 06h00

A designer e empresária brasiliense Jussara Pellicano Botelho, de 33 anos, já esteve em 18 países e em 18 estados brasileiros. Fã de viajar sozinha, ela costuma ser econômica, preferindo ficar em albergues ou alugando quartos na casa de outras pessoas.

Sendo mulher, no entanto, essas experiências nem sempre são tranquilas. Depois de passar por alguns momentos de medo e insegurança enquanto circulava sozinha, ela decidiu criar a startup SisterWave.

A plataforma, por enquanto disponível apenas no Brasil, funciona como rede de apoio ao conectar mulheres viajantes a moradoras que podem hospedá-las ou simplesmente lhes fazer companhia, proporcionar experiências imersivas e trocar informações úteis.

Em maio deste ano, Jussara recebeu atenção mundial ao levar um prêmio da Organização Mundial do Turismo (OMT, uma agência especializada das Nações Unidas) em Madrid, na Espanha, pela sua contribuição ao turismo sustentável e responsável. "Minha expectativa agora é conseguir investimento para disponibilizar o SisterWave em outros lugares do mundo", conta.

O começo de tudo

O primeiro mochilão de Jussara foi para conhecer o Butão e a Tailândia e aconteceu quando ela tinha 27 anos. A ideia era ficar 20 dias com uma amiga e depois um mês sozinha. Nessa época, ela percebeu as dificuldades de viajar por conta própria sendo mulher já antes de embarcar. "Pessoas próximas me deixaram assustada, dizendo que era muito perigoso e que eu seria sequestrada ou algo do tipo. Muitos até falaram para eu não ir", lembra.

Mesmo sem apoio, seguiu os planos - e a experiência foi, segundo ela, transformadora. "Você aprende que pode ter medo, porque é bom para se manter alerta. Mas isso não pode ser algo paralisante."

Aquela viagem também lhe fez conhecer alguns nômades digitais, pessoas que trabalham remotamente enquanto viajam pelo mundo. Encantada, a designer percebeu que sua profissão lhe permitiria fazer isso, já que não precisava ficar alocada em um escritório. De volta a Brasília, ela já começou a planejar uma nova viagem - desta vez, bem mais longa. Iria se tornar, também, uma nômade digital.

Identificando uma oportunidade

Assim, em 2017, Jussara passou seis meses viajando pela América do Sul e outros três pela Europa. Assim como no primeiro mochilão, conheceu várias outras mulheres que também estavam viajando sozinhas e enfrentavam as mesmas questões de segurança. "Fiquei sabendo, por exemplo, de situações em que elas precisaram colocar uma cadeira na frente da porta do seu quarto de hotel por se sentirem inseguras", conta.

Ela própria passou por situações em que se sentiu vulnerável. Em uma delas, no sul da França, foi assediada e perseguida ao sair de uma estação de metrô. "Esse foi o episódio em que tive mais medo. O homem era grande e ficou me perseguindo. Eu nunca pego táxi na Europa, pois é muito caro, mas desta vez tive que entrar em um para chegar ao local onde estava hospedada", lembra.

Tudo isso lhe fez ver que havia uma demanda por uma plataforma de apoio a mulheres viajantes. A ideia foi amadurecendo em sua cabeça até que, ao voltar para o Brasil, ela participou do Startup Weekend. Nesse evento de empreendedorismo, projetos de inovação são colocados em prática e desenvolvidos, e os melhores levam um prêmio.

Ali, ela apresentou sua ideia e conseguiu reunir um grupo para desenvolvê-la. Deu tão certo que eles levaram o primeiro lugar. Mais importante do que isso, Jussara saiu de lá determinada a levar a ideia para o mundo real. Passou o ano de 2018 construindo e aperfeiçoando a plataforma e seu modelo de negócios e, no início de 2019, o SisterWave entrou no ar.

Uma rede de apoio

Assim como o Airbnb e o CouchSurfing, é possível se cadastrar como anfitriã ou só como viajante, e reservar um lugar para ficar. Só não dá para alugar propriedades inteiras, já que a ideia é promover a convivência entre as "sisters", como são chamadas as pessoas que usam o site. Há ainda grupos para trocar experiências.

A rede só aceita mulheres, cis ou trans, e as anfitriãs precisam indicar em seu perfil se há homens morando em sua casa e se estão dispostas a receber uma mulher acompanhada de um homem.

Já são 19 mil cadastradas de todo o Brasil. A maior concentração está em São Paulo. "Por um crescimento orgânico, a região Sudeste domina por enquanto, seguida por Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte", afirma a fundadora.

Empoderando mulheres

A idade das sisters varia, mas é possível ver muitas com mais de 50 anos. "Sou um pouco tímida, mas gosto de conhecer pessoas novas e fazer amizades. Estou começando agora a sair sozinha e me aventurar em alguns lugares desconhecidos", diz o perfil de uma sister de 54 anos. Moradora do Rio de Janeiro, ela escreve que gostou da plataforma porque "me faz sentir mais segura sabendo que posso contar com uma rede de mulheres para me hospedar. Vou me sentir mais confortável também". Muitos perfis comentam coisas parecidas.

A plataforma não cobra taxa de intermediação para as reservas, apenas uma anuidade de R$ 153,80. A equipe conta, hoje, com quatro sócios e seis voluntários, já que o faturamento ainda é baixo. Em dois meses, o SisterWave deve lançar mais serviços, como experiências locais e cursos.

Com a pandemia e as consequentes restrições às viagens, o serviço se reestruturou para continuar acolhendo as mulheres de outras formas. "Pausamos as hospedagens, trouxemos tours virtuais, que são uma forma de viajar dentro da própria casa, e enviamos e-mails com orientações para esse período", explica a fundadora.

Antes disso, Jussara usava bastante a plataforma, como hóspede e como anfitriã. "Já hospedei cinco sisters, e duas delas nunca tinham viajado sozinhas. Foi graças à SisterWave que elas se sentiram seguras e encorajadas a fazer isso", conta. "Esse é o nosso grande combustível, empoderar mulheres a viajarem e experimentarem o prazer que é estar na própria companhia. Quando uma mulher viaja sozinha, ela mostra não só para si que isso é possível, mas para todas".