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Política de inclusão bem-sucedida da Bahia, orquestra jovem é tema de filme

Orquestra Juvenil da Bahia  em concenrto na Filarmônica de Paris em 2018 - Lenon Reis/NEOJIBA
Orquestra Juvenil da Bahia em concenrto na Filarmônica de Paris em 2018 Imagem: Lenon Reis/NEOJIBA

Juliana Domingos de Lima

De Ecoa, em São Paulo (SP)

02/07/2021 06h00

Mais de cem jovens músicos baianos, em sua maioria negros, ocupam o palco da Filarmônica de Paris, uma das salas de concerto de maior prestígio no mundo. Encerrando uma apresentação impecável, eles dançam com seus instrumentos de orquestra, sorriem e se descontraem ao tocar o "Tico-Tico no Fubá", clássico de Zequinha de Abreu. Para o espectador, brasileiro ou parisiense, é quase impossível não sentir alguma emoção.

O registro faz parte do documentário "Neojibá - Música que transforma", dirigido por Sergio Machado e George Walker, que chegou à Netflix esse mês.

O filme põe em destaque uma parte do trabalho dos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, mostrando as turnês internacionais realizadas na última década pela Orquestra 2 de Julho (antiga Orquestra Juvenil da Bahia), principal formação orquestral do programa.

As turnês no exterior são o resultado mais visível de uma política de educação, cultura e desenvolvimento social do governo estadual baiano, voltada para a população pobre das comunidades de Salvador e de alguns outros municípios da Bahia.

Em quase 14 anos de existência, o projeto calcula ter atendido mais de 10.000 crianças, adolescentes e jovens que tiveram suas perspectivas de vida transformadas pela música.

Além de acompanhar a viagem da orquestra à Europa, o documentário mostra um pouco do cotidiano dos estudantes e de suas famílias nas comunidades, a rotina de aulas, ensaios coletivos e apresentações, e conta com depoimentos de integrantes do programa.

"Aprende quem ensina"

Inspirado na experiência do El Sistema, programa de educação musical criado nos anos 1970 na Venezuela que se tornou modelo para vários países, o Neojibá foi fundado em 2007 pelo pianista e maestro baiano Ricardo Castro.

Os núcleos do programa estão situados em comunidades de baixa renda da capital Salvador e dos municípios de Simões Filho, Jequié, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Teixeira de Freitas.

Participantes recebem acompanhamento social, escolar e de saúde, além da formação musical — e do suporte material que ela exige, garantindo instrumentos musicais em comodato e bolsas de estudo — para atuarem em coros e formações orquestrais de acordo com sua faixa etária.

Todos os músicos das orquestras principais recebem também formação para atuar como "multiplicadores", oferecendo monitoria para outros alunos. Para Ricardo Castro, diretor-geral do programa, esse é seu grande diferencial. "Não se pode entrar no Neojiba só pra tocar. Nesse quesito, o programa é pioneiro porque coloca como condição que o músico seja multiplicador", disse a Ecoa.

Ao longo do tempo, a estrutura do Neojibá permite que seus integrantes se tornem não apenas músicos, mas coordenadores, instrutores e professores. O programa também realiza a capacitação de jovens artesãos para fabricar e reparar instrumentos musicais.

Novas portas para a juventude da Bahia

Segundo o diretor-geral do Neojibá, cada integrante e cada família que faz ou já fez parte do programa tem uma história de transformação a partir dele.

Além do aprendizado musical, os mais tímidos adquiriram habilidades de comunicação e liderança, muitos quiseram aprender outras línguas e ir para a universidade. Vários egressos do Neojibá estudam hoje fora do país, nas melhores instituições de música do mundo. "Isso não existia no imaginário da juventude baiana", disse Castro.

O programa também colocou a música de concerto no cotidiano da população, levando famílias e amigos dos integrantes a frequentar concertos sinfônicos e provocando uma mudança geral no setor no estado por conta da implantação do núcleo.

A continuidade e o sucesso do Neojibá foram possibilitadas por uma conjunção de fatores. Havia uma situação política e econômica favorável, em que o funcionamento da lei das organizações sociais permitia um planejamento de longo prazo para o setor cultural.

O programa também mostrou resultados muito rapidamente, tanto do ponto de vista social quanto do desenvolvimento dos jovens músicos, que em três anos já se apresentavam fora do Brasil. Isso cativou governantes a fazerem um investimento significativo na iniciativa.

O Neojibá não veio só para criar uma orquestra e fazer turnês, mas para dar o exemplo da importância de levar a prática musical para todas as crianças como um fator elementar da educação. O Brasil tem muito caminho pela frente para que a gente consiga convencer governos, instituições e empresas a investirem também nessa área quando se fala de educação

Ricardo Castro, diretor-geral do Neojibá

Orquestra digital

Por conta da pandemia de covid-19, o programa vem atendendo seus 1.970 integrantes no modo online desde março de 2020. Com a expansão do Neojibá no estado, o núcleo já vinha investindo infraestrutura digital para permitir a gestão de projetos e o ensino musical remoto, o que tornou possível adaptar muito rapidamente suas atividades ao distanciamento social.

Para garantir a conectividade, o programa forneceu ajuda de custo para aquisição de pacotes de internet e tablets em comodato aos estudantes. E lançou a campanha Neojibá Solidário, de doação de cestas básicas para as famílias.

Em abril, foi colocado no ar o Neojibá Sem Fronteiras, plataforma online e gratuita que oferece 28 cursos de música a qualquer pessoa interessada. Os cursos incluem canto coral, instrumentos diversos e ritmos brasileiros. Já foram acessados por estudantes de mais de 20 estados brasileiros e de países como Moçambique e Chile.

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