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Geração Z indígena sonha com futuro e luta pela sobrevivência do seu povo

Jovens indígenas durante manifestação contra o PL490 em Brasília em junho de 2021 - Conselho Indígena Tapajós Arapiuns
Jovens indígenas durante manifestação contra o PL490 em Brasília em junho de 2021 Imagem: Conselho Indígena Tapajós Arapiuns

Ayla Tapajós

Colaboração para Ecoa, de Santarém (PA)

02/07/2021 06h00

"É urgente se posicionar a favor da terra, a favor dos nossos corpos vivos, somos a raiz e o coração desse país". A fala da universitária indígena Jaqueline Kambiwá, da Aldeia Nazário, localizada no município de Ibimirim (PE), dentro do Território Kambiwá, um dos poucos demarcados, reverbera a urgência das populações indígenas contra o projeto de lei 490/2007, que foi aprovado na semana passada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara (CCJ), por 40 votos favoráveis a 21, e está no Congresso Nacional.

Na contramão do PL que põe em risco o futuro das populações indígenas do Brasil, está a resistência de uma geração que aprendeu a ocupar para além do seu território, se fazendo presente no ambiente digital, nas universidades e em outros espaços. A luta de jovens indígenas, muitos deles reunidos nas manifestações que tem sido realizadas em Brasília, é pela sobrevivência do seu povo, sua cultura e sua casa.

Acompanhe abaixo o que Jaqueline e vários jovens, representantes de diferentes etnias, têm a dizer sobre o projeto de lei e suas perspectivas de futuro.

Jaqueline Kambiwá, universitária indígena da Aldeia Nazário - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jaqueline Kambiwá, universitária indígena da Aldeia Nazário
Imagem: Arquivo pessoal

"É urgente pressionar os nossos representantes pela manutenção desses direitos que são essenciais para a preservação da nossa vida e da nossa mãe da natureza. Para nós a terra é sagrada, é lugar onde vivem os nossos antepassados, para nós a demarcação dos nossos territórios significa proteger as nossas vidas e também proteger o nosso sagrado, já tirá-las de nós significa o fim da nossa cultura, o fim das nossas tradições, o fim das nossas vidas.

Esse projeto agride de forma extremamente cruel os nossos territórios, inviabilizando a demarcação de novas terras, além de colocar em risco a integridade de territórios que já estão demarcados. Permitindo assim a exploração de minérios agronegócio, construção de hidrelétricas, entre outras ameaças, resumindo essa lei significa a continuidade do genocídio contra os povos originários dessa terra, exposição dos nossos corpos e derramamento de sangue.

Derrubar essa PL genocida, é questão de garantia de vida, é urgente se posicionar a favor da terra, a favor dos nossos corpos vivos, somos a raiz e o coração desse país e mesmo assim sofremos a mais de 500 anos."

Jaqueline Kambiwá, da Aldeia Nazário

"Ocupar as redes, ocupar as ruas, de norte a sul desse país"

Emerson Pataxó, secretário executivo da Associação de Jovens Indígenas Pataxó - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Emerson Pataxó, secretário executivo da Associação de Jovens Indígenas Pataxó
Imagem: Arquivo pessoal

"A juventude pataxó convocou a assembleia geral extraordinária, para debater sobre esse tema [PL490], nós vamos seguir nas mobilizações, pois acreditamos que pressionar esse governo é a única forma de garantir nossos direitos.

Nós vamos continuar nessa resistência, continuar nas mobilizações em defesa de nossas vidas, dos nossos territórios, porque a terra que a gente pisa, é uma terra sagrada. É uma terra dos nossos ancestrais, é a terra da nossa história, então a gente não pode se deixar vencer. Pode custar o que for, pode custar nosso sangue, como tem sido desde 1500, mas a gente vai dar o nosso sangue para defender os nossos sangues, as nossas vidas."

Emerson Pataxó, 22, secretário executivo da Associação de Jovens Indígenas Pataxó, em Santa Cruz Cabrália (BA), no Território Coroa Vermelha, que pode ser extinto se o marco temporal for aprovado, por ter sido um território demarcado após a Constituição Federal de 1988, como dispõe a PL 490.

Viviane Kaingang (centro), universitária e moradora da Terra indígena do Votouro, com jovens indígenas em Brasília - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Viviane Kaingang (centro), universitária e moradora da Terra indígena do Votouro, com jovens indígenas em Brasília
Imagem: Arquivo pessoal

"Essa geração de agora que está na universidade, que está nas cidades, ocupando cargos de alta [importância]. São dessa geração que temos um pouco mais de esperança, para que a gente possa se defender pela gente mesmo, sem precisar que um branco defenda a gente.

Esse PL também equivale ao genocídio em massa dos povos indígenas, que vem ocorrendo desde o período de colonização. Processo esse que nunca teve fim e pode ser que nunca tenha fim. Projeto que nos impede acesso ao nosso bem mais precioso que é o território, nossa terra, onde temos acesso a saúde, cultura, bem-estar. O nosso território não é só para ter nosso pedaço de terra para plantar, é um vínculo que é difícil de se explicar.

Vamos resistir."

Viviane Kaingang, 22, universitária, indígena do povo kaingang e moradora da Terra indígena do Votouro, norte do Rio Grande do Sul.

"Se esse projeto de lei for aprovado não tem futuro para nós, povos indígenas"

Ednei Arapiun (centro), coordenador do conselho indígena Tapajós Arapiuns - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ednei Arapiun (centro), coordenador do conselho indígena Tapajós Arapiuns
Imagem: Arquivo pessoal

"Nós povos indígenas só temos 13,8% de terras demarcadas no Brasil. Se essa lei for aprovada, o agronegócio vai entrar e acabar com a nossa biodiversidade do nosso país e tudo vai piorar. Nós somos contra essa PL, e todo e qualquer projeto de lei que possa influenciar o nosso território e também na nossa vida e nas vidas futuras parentes que estão vindo."

Ednei Arapiun, 22, coordenador do conselho indígena Tapajós Arapiuns, mora no território Maró, do povo arapiun, em Santarém (Pará)

Jucinei Terena (calção preto), estudante de direito, da Terra indígena Buriti - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jucinei Terena (calção preto), estudante de direito, da Terra indígena Buriti
Imagem: Arquivo pessoal

"Sem a terra não há futuro, a terra é a base de tudo para nós. É lá que está a nossa ciência, nosso contato direto com os nossos ancestrais, então se essa PL for aprovada do jeito que está, é um genocídio contra nós, povos tradicionais.

Nós estamos em Brasília para lutar, e vamos usar de todos os mecanismos jurídicos e legais que nós temos, vamos ao STF. O movimento indígena é assim, nós viemos e lutamos mas reconhecemos a importância das instituições democráticas. Se esse projeto de lei for aprovado para a gente muitas terras indígenas serão afetadas, inclusive a minha que ainda não está demarcada, está em processo de demarcação. Esse PL vai afetar diretamente a nós jovens, porque querem colocar um marco na nossa vida."

Jucinei Terena, 28, estudante de direito, da Terra indígena Buriti, município de Dois Irmãos do Buriti (MS)

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