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"Como explicar diversidade pro meu filho?" Especialistas ensinam

"Estão usando as crianças como desculpa para a manutenção de uma sociedade preconceituosa", diz Elânia Francisca, psicóloga - Getty Images
"Estão usando as crianças como desculpa para a manutenção de uma sociedade preconceituosa", diz Elânia Francisca, psicóloga Imagem: Getty Images

Camilla Freitas

De Ecoa, em São Paulo

28/06/2021 06h00

Os processos de mudança em nossa sociedade costumam passar pela conscientização das novas gerações, agentes diretos de transformações. Manter o diálogo franco e aberto com crianças é importante não só para seu desenvolvimento como também para a sua formação como cidadãs.

Para o Dia do Orgulho LGBTQIA+, celebrado hoje (28), Ecoa conversou com alguns especialistas para tentar entender, afinal, qual a melhor forma de explicar diversidade de gênero e afetiva para crianças e qual a importância de se abordar esses temas logo na infância.

O tema é quente! Na última quarta-feira (24), a internet parou para comentar uma campanha publicitária do Burger King. Nela, crianças explicam o que entendem sobre diversidade de gênero e sexual. Enquanto muitas pessoas elogiaram a ação, não faltaram comentários homofóbicos — vale lembrar que homofobia é crime.

Quando o tema diversidade sexual e de gênero vem à tona, uma das questões recorrentes é justamente "como eu vou explicar isso aos meus filhos?". O guia abaixo foi pensado para ajudar as pessoas que ainda têm dificuldade em abordar o assunto dentro de casa, em salas de aula, com colegas, vizinhos etc.

"É menino ou menina?"

De onde vêm os bebês? Por que meu corpo é diferente do corpo do meu coleguinha? Aquela pessoa é menina ou menino? São perguntas que podem deixar os adultos de cabelo em pé. Mas não deveriam.

Segundo Constantina Xavier Filha, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e autora do livro "Educação sexual na escola: o dito e o não-dito na relação cotidiana", é importante que as crianças tenham suas dúvidas sanadas. Noah Scheffel, criador do EducaTRANSforma, pai e colunista de Ecoa, concorda.

"As crianças realmente perguntam e têm dúvidas, e a curiosidade delas não é por preconceito. Vetar a curiosidade é construir na criança esse preconceito", explica.

"Mas, então, como falar sobre esses temas com elas?", você pode estar se perguntando. Pois bem. O primeiro passo é abordar esses assuntos dentro de você. É importante que o adulto que for explicar diversidade para crianças tenha conhecimentos sobre o tema. Para isso, de acordo com a psicóloga e especialista em Gênero e Sexualidade pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Elânia Francisca, é necessário se informar.

"Uma das formas de conversar com as crianças sobre a existência das pessoas LGBTs é aceitando e assumindo que pessoas LGBTs são parte da sociedade. E, se o papel da família e da comunidade é preparar as crianças para o convívio social, é fundamental que esses adultos conversem consigo mesmos antes de passar qualquer informação para as crianças", explica.

O próximo passo é mais simples: responder. "A resposta pode ser 'existem pessoas que se parecem com aquilo que a gente entende ser homem ou mulher e por isso você pode ter ficado na dúvida. A aparência, contudo, não determina se a pessoa é homem ou mulher", diz Noah. Para ele, caso os familiares conheçam a pessoa a quem a criança se refere, vale perguntar para ela qual sua identificação de pronome, por exemplo.

"Menino pode namorar menino e menina pode namorar menina?"

Imagine essa situação hipotética. Você está em um parque com seus filhos e duas pessoas do mesmo gênero se beijam embaixo de uma árvore à sua frente e uma das crianças logo pergunta: "mãe, dois meninos podem se beijar?". O que responder?

"Podem sim, desde que eles estejam de acordo com esse beijo", é a dica de resposta da psicóloga Elânia. "Eles formam uma família. A nossa é diferente da deles, mas ambas merecem respeito", é outra dica, dessa vez da professora Constantina.

Casal homossexual com sua filha    - Getty Images - Getty Images
Nem a diversidade é uma realidade no entretenimento. Procurar na internet por imagens de casais não héteros explicando que o amor não depende de gênero é uma opção, como explica Noah.
Imagem: Getty Images

Caso essa pergunta não ocorra diretamente, você pode se antecipar. Noah comenta que fazer uso de elementos lúdicos da própria realidade das crianças, como desenhos, filmes e jogos, pode ser um caminho. Nesse caso, optar por peças de entretenimento que já tenham a representação de casais não héteros é mais fácil.

A gente tem a oportunidade de criar uma geração que possua menos preconceito com identidades e orientações diferentes do que é tido como 'normal'. E é nossa responsabilidade fazer isso se quisermos viver em uma sociedade mais justa, equânime e segura.

Noah Scheffel, criador do EducaTRANSforma

"Mas por que eu devo falar isso com meus filhos?"

Entre os comentários negativos sobre a peça publicitária lançada pelo Burger King está algo como "Deixem nossas crianças em paz!". Há o entendimento, por parte de alguns adultos, de que explicar sobre diversidade de gênero e afetiva para as crianças é estimulá-las ao sexo e deixá-las vulneráveis à pedofilia.

A professora Constantina Xavier explica que esse tipo de pensamento é resultado de três variantes: a primeira desconsidera a criança como um ser social, como se ela fosse um sujeito apartado da sociedade e que não merecesse conhecê-la; a segunda nega que a sexualidade e a questão de gênero façam parte de todos os sujeitos, sendo eles criança ou não; e a terceira é o que ela chama de pânico moral.

O pânico moral é causado por uma enxurrada de notícias falsas e dados distorcidos sobre o resultado de se abordar esses temas, o que assusta os pais. "A partir do momento que se discute sobre diversidade, sexualidade e gênero com as crianças, elas passam a se reconhecer melhor e se protegem de violência sexual", explica a professora. Há diversas pesquisas que comprovam o que a professora aponta. Você pode conhecer uma delas clicando aqui.

A criança precisa conhecer tudo sobre o mundo e as pessoas que vivem nele. E a população LGBTQIA+ está nesse mundo. A criança precisa ter olhares positivos e respeitosos sobre essa população. É fundamental aprender a respeitar os outros.

Elânia Francisca, psicóloga

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