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Boicotar empresas funciona? Especialistas respondem

A emergência climática é uma das causas que pode levar ao boicote de alguma empresa - Getty Images
A emergência climática é uma das causas que pode levar ao boicote de alguma empresa Imagem: Getty Images

Por Camilla Freitas

De Ecoa, em São Paulo

03/06/2021 06h00

Talvez você já tenha ido ao site de uma empresa reclamar de algum produto. Uma geladeira que não gela, um livro rasgado ou até um celular que já veio com a tela quebrada. Talvez você tenha até encontrado por lá reclamações muito parecidas com a sua. Mas e se você se unisse a essas pessoas que também estão insatisfeitas e prometesse parar de comprar dessa marca até ela entregar um produto de qualidade? Então, isso é um boicote.

"O boicote está na origem do movimento internacional de consumidores que aconteceu no século XIX", explica Teresa Liporace, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). E ele pode até acontecer por queixas como as apresentadas acima, mas sua forma mais comum está relacionada a questões no âmbito social. "No movimento de consumidores, as pessoas queriam rechaçar práticas que entendiam que eram contra os direitos humanos e o meio ambiente", completa Liporace.

O boicote surge, então, como mais uma ferramenta de pressão nas mãos dos consumidores. Se você não acha certo uma empresa patrocinar um evento como a Copa América no Brasil durante a pandemia ou uma empresa admitir que alguns de seus produtos não são saudáveis, como aconteceu com a Nestlé, você pode boicotá-las para tentar fazê-las mudar de atitude. Mas será que essa prática realmente funciona? Ecoa conversou com algumas especialistas no assunto para te ajudar a entrar nesse debate!

SIM

Não é ser contra uma empresa

O boicote, muitas vezes, pode soar como algo que quer prejudicar a economia do país e gerar desemprego. Mas muitas dessas campanhas, contudo, estão pedindo o boicote aos impactos negativos que são gerados nas etapas de produção de um produto. Pode ser um boicote ao desmatamento, ao trabalho escravo, às invasões de terras ou às violações de direito.

Não é a campanha dos cidadãos ou das organizações contra as violações ambientais e de direitos humanos que sabota a economia e que são os violões, mas sim o que as empresas e governos estão fazendo.

Tica Minami, Diretora de Programas do Greenpeace Brasil

Uma ferramenta do consumidor

O consumidor tem um grande poder de compra, ou seja, o poder de decidir se determinado produto é bom ou não para ele. Esse direito de escolha pode direcionar empresas e seus fornecedores para que eles respeitem determinados valores e para isso o boicote é uma ferramenta potente. Se os consumidores deixam de comprar determinado produto, isso pode forçar a empresa a rever certos princípios.

Alertar a empresa de que algo está errado

O boicote é uma sinalização que o consumidor dá à empresa de que ele não concorda com algumas práticas que ela adota. Se determinado produto não vender por boicote, isso dá um sinal à empresa de que certas práticas não serão mais toleradas. Além disso, se a marca afirma um compromisso com a sociedade e muda suas práticas nocivas, consegue resgatar, com ainda mais força, a confiança que tem no consumidor.

Há bons exemplos no Brasil

A Moratória da Soja, acordo que a indústria da soja fez se comprometendo a retirar o desmatamento de sua cadeia produtiva, é resultado de uma campanha de pressão que envolveu boicotes contra fornecedores no Brasil e fora do Brasil. O acordo, firmado em 2006, atrelado a outras medidas governamentais, foi muito importante para que, nos anos seguintes, o desmatamento diminuísse.

Já o Movimento das Donas de Casa, de 1979, foi outro boicote bem sucedido. Seu objetivo inicial era de que se diminuísse o preço da carne. Mas, além dessa demanda, a missão do movimento passou a ser pela defesa dos consumidores e pela preservação do meio ambiente.

NÃO

Uma ação pontual

O boicote que se configura como uma ação muito pontual e muito individualizada, pode não surtir efeito. A ação precisa ser pensada como uma estratégia coletiva e que tenha uma visão estrutural do problema, que olhe para toda a cadeia produtiva e que não se resuma ao boicote em si.

Precisa comunicar

Se for um boicote individual, no mínimo, ele precisa ser comunicado. Dessa forma, o consumidor deve entrar em contato com a empresa explicando os motivos pelos quais a está boicotando. Mesmo assim, o impacto gerado pode ser muito pequeno.

Pode prejudicar a pessoa errada

O boicote pode se tornar um "cancelamento" de uma empresa. Ou seja, pode se tornar uma prática reativa, mas que depois de um tempo é esquecida. Ainda mais quando acontece dentro da internet. Assim, ele pode prejudicar pessoas que não estão ligadas diretamente ao problema que deve ser enfrentado, deixando de afetar os verdadeiros tomadores de decisão da empresa.

Em termos de mudança estrutural, o cancelamento é uma prática que não é muito eficaz. No caso do boicote mais organizado, aí sim poderíamos ver uma eficácia

Anna Vitória Rocha, jornalista e pesquisadora na área de redes sociais e opinião pública

Tem que verificar se houve mudança mesmo

O boicote por si só pode não resolver o problema. Muitas vezes, os consumidores dizem boicotar determinada empresa ou produto, mas não fiscalizam se alguma atitude já foi tomada para resolver o problema ou se a atitude tomada realmente resolveu. Para que o boicote dê certo, é preciso monitorar as tomadas de decisão e verificar se elas são mesmo efetivas.

Fontes: Anna Vitória Rocha, jornalista e pesquisadora na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (Eca USP) nas área de redes sociais e opinião pública; Teresa Liporace, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e Tica Minami, diretora de programas do Greenpeace Brasil.

A curadoria Ecoa

Elaize - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Elaíze Farias, cocriadora do agência de notícias Amazônia Real
Imagem: Acervo Pessoal

As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à prática jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta reportagem, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por Elaíze Farias, curadora de Ecoa.

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