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Operação no Quênia resgata girafas presas em ilha prestes a desaparecer

Operação no Quênia resgata girafas presas em ilha prestes a desaparecer - Divulgação/Northern Rangeland Trust
Operação no Quênia resgata girafas presas em ilha prestes a desaparecer Imagem: Divulgação/Northern Rangeland Trust

Carolina Vellei

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

14/05/2021 06h00

Os níveis de água no Lago Baringo, no Quênia, têm subido há algum tempo. Mas, em 2020, o excesso de chuvas provocou um crescimento além do esperado, inundando casas e prédios costeiros. Essa mudança repentina começou a ameaçar a vida de nove girafas de Rothschild, uma subespécie em risco de extinção que habitava a Ilha Longicharo.

O resgate, feito de barco, foi praticamente uma corrida contra o tempo. Os animais ficavam a cada dia mais distantes dos alimentos e recursos naturais que precisavam para sobreviver.

Em abril, após 15 meses do início dos esforços de planejamento e logística, a última integrante do grupo conseguiu ser resgatada: uma filhote fêmea chamada Noelle, que recebeu esse nome porque o seu nascimento aconteceu próximo ao Natal, em dezembro de 2020. Por ser muito pequena, foi preciso aguardar que ela crescesse o suficiente para aguentar a viagem.

Agora, todas vivem em um novo centro de conservação, seguras e em terra firme, dentro da Ruko Community Conservancy, um santuário no Quênia.

Devido ao ineditismo dessa aventura, uma equipe multidisciplinar precisou ser reunida para dar conta do recado. Veterinários, técnicos e membros de comunidades locais levaram mais de um ano para completar o projeto.

A missão de resgate envolveu quatro organizações diferentes: as quenianas Ruko Conservancy, Northern Rangelands Trust e Kenya Wildlife Service, e a Save Giraffes Now, uma organização não-governamental dos Estados Unidos.

Missão arriscada

O meio de transporte usado foi adaptado para garantir um ambiente seguro, condizente com a altura e o peso de uma girafa. A embarcação, construída pelas comunidades locais, recebeu o nome de GiRaft (uma mistura das palavras "giraffe" e "raft", que no inglês significa jangada).

O GiRaft era uma barca de aço que flutuava sobre 60 tambores vazios enquanto era puxada por um barco a motor. Suas laterais foram reforçadas para manter os passageiros pescoçudos bem acomodados.

Girafas com mais de quatro metros de altura e quase uma tonelada não costumam se aventurar em viagens assim com frequência. Por isso, os guardas da reserva Ruko trabalharam arduamente para acostumar cada animal à barca, deixando suas guloseimas favoritas (folhas de acácia, sementes e mangas) a bordo todos os dias para acostumá-las à ideia de entrar e sair de lá voluntariamente.

Uma a uma, elas foram transportadas por aproximadamente 1,6 km pelo lago até chegarem à margem.

Vitória para as girafas e para as pessoas

Na natureza, as populações de girafas em geral diminuíram cerca de 40% nas últimas três décadas, mas o número da subespécie de Rothschild diminuiu em aproximadamente 80%, tornando-se "indiscutivelmente uma das mais ameaçadas do mundo", de acordo com um estudo publicado em 2019 na revista African Journal of Ecology.

Elas já foram comuns no Quênia, em Uganda e no sul do Sudão. Agora, apenas cerca de 3.000 permanecem em populações isoladas nos dois primeiros países, dando maior urgência à missão de resgate. "Com as girafas em uma extinção silenciosa, esse resgate é um passo importante no apoio à sobrevivência da espécie", disse David O'Connor, presidente da organização Save Giraffes Now.

O plano a longo prazo é introduzir outras girafas de Rothschild de outras partes do Quênia no santuário, que tem capacidade de comportar até 50 indivíduos, a fim de criar uma população geneticamente saudável e que possa, eventualmente, ser liberada no ecossistema local.

O final feliz da história das girafas da ilha também reflete uma colaboração histórica entre as comunidades Pokot e Il Chamus, que uniram esforços de conservação após anos de conflito. "Esse é um exemplo de como a paz está ligada a tudo o mais - conservação, meios de subsistência, negócios, igualdade de gênero e governança", disse Rebby Sebei, gerente da Ruko Community Conservancy, em comunicado.

O diretor James Cheptulel, responsável pela segurança das girafas no santuário, completa: "Na minha equipe, há guardas florestais de ambas as comunidades. Apesar de nossas diferenças no passado, o que importa para nós agora é o trabalho que a unidade de conservação nos confiou."