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Dia das Mães: elas ensinaram seus filhos a lutar por um mundo melhor

Thiago Ávila e sua mãe Têca Ávila - Arquivo pessoal
Thiago Ávila e sua mãe Têca Ávila Imagem: Arquivo pessoal

Camilla Freitas

De Ecoa, em São Paulo

09/05/2021 06h00

Como educar seus filhos a mudar o mundo? A querer transformar nosso planeta em um mundo melhor?

O Dia das Mães pode significar presentes, uma ligação carinhosa, ou luta e até mesmo luto. Mães que perderam seus filhos ativistas para a violência, ou que os acompanham lado a lado em suas lutas compartilharam com Ecoa um relato sobre como é ter um filho focado em fazer um mundo melhor.

A reportagem conversou com Marinete da Silva, mãe de Anielle e Marielle Franco; Raquel Lima Campos Santana, mãe da Gabriela Augusto, diretora e fundadora da Transcendemos Consultoria; Tamikuã Pataxó, mãe da ativista indígena Alice Pataxó; Rosângela Diniz Ribeiro Cabral, mãe do advogado popular Diogo Cabral; e Têca Ávila, mãe de Thiago Ávila, ambientalista. Confira os relatos!

"Eu também aprendo muito com ele"

Thiago Ávila e sua mãe Têca Ávila  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Thiago Ávila à direita e sua mãe Têca Ávila à esquerda
Imagem: Arquivo pessoal

"O Thiago era uma criança muito agitada! Aprendeu a correr e andar antes da hora para ir atrás da irmã mais velha e sempre se metia a fazer todos os esportes radicais. Apesar de todo o trabalho que ele deu, foi uma criança doce.

Ele começou a viajar quando se tornou maior de idade e encontrou um caminho junto com as pessoas que tentam transformar a sociedade. Desde o início eu achei bonito, mas pensei também que era uma fase.

Logo quando ele começou a se identificar enquanto militante, há mais de 15 anos, eu tive 3 AVCs e adoeci. Mesmo nos anos mais tristes de hospital, Thiago estava lá lendo e conversando sobre esses temas e dava pra ver um brilho que crescia cada vez mais nele a falar sobre mudar o mundo.

Com o passar dos anos fui entendendo que era algo maior que uma fase. Que era, como ele diz sempre, seu "grande propósito de vida". Mas eu me preocupo também.

Só no último mês ele foi preso duas vezes tentando defender famílias catadoras de materiais recicláveis e uma escolinha do cerrado que estava sendo despejada pelo governo local. Como tenho deficiência motora, tive que ver a prisão violenta que ele sofreu sendo jogado de cima de um trator pelo celular. A vontade que eu fico é de pedir pra alguém me levar lá pra impedir a violência e tirá-lo da delegacia.

Tenho muito orgulho da coragem que ele tem e todas as pessoas à nossa volta também se orgulham demais dele, apesar da preocupação.

Eu digo ao Thiago todos os dias que, se eu tivesse os movimentos de minhas pernas e braços, estaria lá com ele em todas as coisas que ele faz. Sempre fui uma pessoa progressista, e desde bebê, Thiago acompanhava a gente em manifestações demandando mais democracia com o fim da ditadura. Ele aprendeu muito comigo e eu também aprendo muito com ele.

Quem é militante ou ativista normalmente carrega o peso do mundo nas costas. O nosso amor e carinho de mãe ajuda a aliviar esse peso.

*Têca Ávila é mãe de Thiago Ávila, ambientalista

"Com muito orgulho e com muita preocupação"

Diogo Cabral e sua mãe Rosângela Diniz Ribeiro Cabral  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Diogo Cabral e sua mãe Rosângela Diniz Ribeiro Cabral
Imagem: Arquivo pessoal

"Desde pequeno eu notei em Diogo a preocupação dele com os outros. Tem uma história que eu não esqueço nunca. Ele devia ter em torno de 8 anos e todos os dias a gente passava embaixo de um viaduto e lá tinha uma família morando em uma casa de papelão. Um dia, perto do final de ano, ele começou a separar roupas e brinquedos e me disse que queria dar para aquela família. Eu fiquei emocionada. Ele era tão pequeno e tão preocupado.

Isso em Diogo sempre foi um traço marcante. E o que seria deste mundo se não fosse essas pessoas que entendem que precisam ajudar os mais necessitados?

Acho que tive uma influência nessa escolha dele por conta do meu trabalho, trabalhei no INSS durante 35 anos. Todos os dias eu me colocava no lugar daquele senhor e daquela senhora querendo ter seu direito reconhecido. Cada vez que eu concedia um benefício eu dizia "meu Senhor, estou transformando a vida de famílias".

E hoje eu tenho muito orgulho da atuação do Diogo como ativista. Mas também tenho muita preocupação com a segurança dele. Em 2012, ele sofreu ameaças e isso é um dos pontos que me deixa temerosa. Eu peço muito a Deus que cuide do meu filho.

Mas uma coisa eu sempre digo: eu quero que meus filhos escolham o caminho do bem, do amor, da honestidade e acima de tudo que eles sejam felizes. Por isso eu tenho um orgulho muito grande do que ele faz por aqueles que precisam de justiça social. E queria dizer para outras mães de ativistas que tenham muito orgulho da escolha de seus filhos também.

*Rosângela Diniz Ribeiro Cabral é mãe de Diogo Cabral advogado popular e ativista dos direitos humanos.

"Que mundo a gente está criando para os nossos filhos?"

 Alice Pataxó e sua mãe Tamikua Pataxó  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Alice Pataxó à esquerda e sua mãe Tamikua Pataxó à direita
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu sou suspeita para falar de Alice, até porque mãe coruja já viu, né? Mas entendo que o trabalho que ela desenvolve é de suma importância principalmente hoje quando vemos muitos jovens que usam a internet de forma errônea. Mas eu me sinto muito bem representada por Alice não só por ser mãe, mas enquanto indígena também.

Ela sempre me acompanhou nos movimentos indígenas desde muito pequena e eu fui professora dela durante muito tempo, então acredito que, querendo ou não, ela acabou sendo influenciada por mim. Hoje sou diretora de uma escola, mas sou formada em pedagogia e ciências da natureza.

E assim, desde pequena ela sempre foi cheia de argumentos. Não é à toa que ela se tornou liderança já na adolescência. Isso tudo sempre respeitando os outros, algo que admiro muito nela. Alice nunca precisou pisar em ninguém para conseguir o espaço dela.

Mas a gente sempre se preocupa com os filhos, né? Só que, sinceramente, nós indígenas aprendemos a nos defender muito cedo e eu sei que a minha filha sabe se defender. A gente ensina os nossos filhos a lutar pelos seus direitos. Porque normalmente nós dizemos que criamos nossos filhos para o mundo, mas eu penso que mundo a gente está criando para os nossos filhos.

Os nossos filhos ativistas têm a missão de transformar esse mundo para que ele esteja melhor. Essa missão é importantíssima."

*Tamikua Pataxó é mãe de Alice Pataxó ativista e comunicadora indígena desde os 14 anos.

"A mãe que não dá apoio para os seus filhos não sabe o que tá perdendo"

Gabriela Augusto e sua mãe Raquel Lima Campos Santana  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabriela Augusto à direita e sua mãe Raquel Lima Campos Santana à direita
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu adoro o trabalho da Gabriela, ela é muito inteligente e o trabalho dela é muito importante. Ela é muito corajosa e tenho muito orgulho da pessoa que ela é hoje.

Quando ela me falou que era uma mulher trans, eu dei muito apoio apesar de sempre ter notado isso nela quando ela era criança. Ela gostava de colocar as minhas roupas e eu via que ela ficava muito feliz quando ela as colocava. E eu sempre apoiava ela.

E o trabalho dela de ajudar outras pessoas trans a estar no mercado de trabalho também me enche de orgulho, eu nunca tinha visto um trabalho assim.

No início, fiquei meio preocupada porque a gente vê tanta coisa ruim acontecendo, mas eu vi que deu tudo certo com ela e eu fico muito feliz. Sou muito feliz por ter ela. Assim, eu ainda me preocupo, sabe? Apesar das coisas terem mudado muito hoje em dia, apesar de estarem bem melhor do que eram antigamente, do que era na minha época, as pessoas trans ainda correm risco no Brasil. A mãe que não dá apoio não sabe o que está perdendo."

*Raquel Lima Campos Santana é mãe da Gabriela Augusto, diretora e fundadora da Transcendemos Consultoria

"Ela transforma esse luto numa luta constante"

Marielle Franco, Anielle Franco e Marinete da Silva - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marielle Franco, Anielle Franco e Marinete da Silva
Imagem: Arquivo pessoal

"Anielle está nos surpreendendo cada vez mais como uma mulher que tem superado tudo o que a gente tem vivido. Ani hoje é a principal gestora e diretora executiva do Instituto Marielle Franco. Ela é uma mulher bem forte.

Queria parabenizá-la porque ela consegue levar isso com muita coerência e muita responsabilidade. Propagando cada vez mais o trabalho de Marielle, lutando por justiça e preservando sua memória.

A minha vida como mulher negra que, entre 11 filhos, foi a primeira a se formar na universidade e que já atuou como educadora e que advoga há muitos anos fez com que essa ideia do ativismo passasse para as minhas filhas. É algo que vem da minha criação, eu trago o exemplo das minhas avós, da minha mãe, das minhas irmãs mais velhas.

Mesmo pequena, junto com a irmã, Anielle sempre demonstrou um compromisso muito grande com o outro. Marielle era cinco anos mais velha que ela e todo o ativismo que Marielle exercia passava pra Ani.

Hoje eu também exerço um ativismo muito maior por conta do que eu vivi como mãe de uma mulher que foi terrivelmente assassinada. Preciso estar constantemente nessa luta e faço isso com outras mães que exercem esse ativismo também.

A gente tem que resistir sempre. Mães, acreditem muito no potencial de vocês como mães de pessoas que fazem a diferença como a minha filha. Que todas as mães tenham um bom dia das mães, que esse seja um dia de luta, de muita resistência e muita fé."

*Marinete da Silva é mãe de Anielle e Marielle Franco

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