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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Projeto forma jovens da periferia do Rio para trabalhar com cinema

 Cine Rua Paciência Cultural, - Divulgação
Cine Rua Paciência Cultural, Imagem: Divulgação

Carmen Lucia

Colaboração para Ecoa, no Rio de Janeiro (RJ)

16/04/2021 06h00

Há nove anos, quando voltava de uma gravação na TV, Paulo Gomes foi abordado por crianças da sua rua, no bairro de Paciência, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e recebeu um pedido inusitado: fazer teatro e cinema para elas. Ele aceitou o desafio e, quando se deu conta, estava ensinando arte para vários moradores da região. Assim surgiu o Cine Rua Paciência Cultural, uma ação que busca oferecer cursos de audiovisual de forma gratuita, em áreas com poucas oportunidades.

"Eu tinha acabado de chegar de uma gravação, onde fiz uma figuração, e no dia anterior, as crianças da minha rua tinham me visto na novela. Aí, elas começaram a me pedir para fazer teatro e cinema para elas. Juntei quem fazia cinema em Paciência, não eram muitos, e começamos a filmar no bairro. Em seguida, comecei a passar os filmes nos quais eu tinha participado junto com outros trabalhos de amigos cineastas de favela. A cada sábado, juntavam mais crianças. Quando os jovens vieram, eu comecei a ensiná-los a fazer cinema também", conta o profissional.

Para viabilizar o projeto, Paulo montou uma pequena equipe, abriu inscrições, selecionou os candidatos e candidatas com critérios bem básicos e ofereceu uma bolsa remunerada para os estudantes. "Fiz isso porque entendo que muitos destes jovens não têm como pegar um transporte e acabam perdendo grandes oportunidades. A nossa ação incentiva que eles se aprimorem, estudem e se profissionalizem na área do cinema".

Mais do que apresentar uma possibilidade de emprego, o Cine Rua Paciência Cultural também possibilita um aumento na inserção social destes jovens e reduz a violência, que tanto afeta a região. "Quando mostramos para esses jovens que eles são capazes de realizarem um filme, que eles são potentes e não carentes, quebramos o paradigma que o cinema é só para quem tem dinheiro. O dinheiro é importante, sim, pois permite que a gente dispute em pé de igualdade, porém, mais importante que o dinheiro é uma boa história para contar".

Cine Rua - Divulgação - Divulgação
Equipe da Cine Rua Paciência Cultural
Imagem: Divulgação

Aulas virtuais, alunos reais

Atualmente realizado de forma remota, por conta da pandemia de covid-19, o projeto já beneficiou, direta e indiretamente, 180 jovens. "Está sendo um desafio enorme realizarmos o projeto no momento que estamos vivendo. Seria bem difícil reunir esses jovens com todos os cuidados de higiene e distanciamento. Por outro lado, nós tivemos um recorde de inscrição, e de participantes. O fato de ser online nos possibilitou atender um número maior de participantes".

E estes participantes já estão fazendo história. Emocionado, Paulo lembra de alguns alunos que foram marcantes para o Cine Rua e também em sua vida. "A história da Pam Nogueira é muito importante para nós. Nós contratamos uma vizinha para fotografar e ela no dia não pôde ir. Então, indicou a Pam, que na época fotografava festa de 15 anos e casamento. Ao término do trabalho, a Pam disse que queria fazer o nosso curso e se destacou tanto, que a contratamos para outros eventos e projetos que eu produzia. Um deles foi a Taça das Favelas, realizado pela Central Única das Favelas. Depois disso, a Pam decolou. Estudou na Darcy Ribeiro por intermédio do Cine Rua Paciência Cultural, começou a ser assistente de fotografia e hoje, assina alguns curtas como diretora de fotografia"

Para Pam, fazer as aulas do Cine Rua lhe permitiu ter contato com um mundo novo. "Quando terminei a primeira turma do Cine Rua, comecei a trabalhar com audiovisual. Pude aprender ainda mais com alguns dos meus professores do projeto e, desde então, minha vida mudou. Trabalho com audiovisual e estou cada vez mais me realizando como diretora de fotografia. Fiz vários filmes após o curso e se eu não tivesse entrado no Cine Rua, acho que isso não teria acontecido. Por isso, digo que o projeto me deu ferramentas para que eu pudesse viver do que amo".

O roteirista Rafael Caetano do Nascimento, outro ex-aluno do Cine Rua, acredita que a ação foi uma oportunidade de conhecer um lado do bairro que poucos sabem que existe. "Conheci o projeto Cine Rua em 2015. Fiquei sabendo através de um panfleto divulgando o projeto, quando eu percebi a oportunidade já fui correndo me inscrever. A experiência foi muito positiva porque além de estar fazendo oficinas de cinema perto da minha casa, entrei em contato com um lado cultural de paciência que eu não tinha noção que existia", lembra o profissional.

Ele ainda entrega qual foi a maior mudança que o Cine Rua promoveu em sua vida. "Além de ter me dado toda a base para o trabalho que eu tenho hoje, me fez valorizar ainda mais este bairro onde moro. Agora falo com prazer, que sou um morador de Paciência".

Rayana Diniz Pompeu teve o seu olhar sobre o cinema alterado drasticamente após o curso no Cine Rua. "Mudou a forma como enxergo o cinema hoje em dia. Percebo que a sétima arte não é apenas aquilo que está em um telão enorme, enquanto o telespectador assiste comendo uma pipoca. O cinema vai muito além. O audiovisual é extremamente fragmentado e cada área tem a sua importância e sua forma de estudo, o que influencia diretamente as possibilidades e oportunidades no mercado de trabalho. Às vezes, você começa estudando direção e no meio do caminho, se apaixona pela área de roteiro, fotografia ou alguma outra", conta a atriz e dubladora.

Ver tantos ex-alunos realizando seus sonhos, acreditando em seu potencial, se formando e trabalhando na área que tanto desejavam faz Paulo ter certeza de que o Cine Rua é mais do que uma paixão, é uma missão. "Eu precisei sair de Paciência para aprender cinema. Então, poder realizar um curso para jovens do meu bairro é muito gratificante. Vê-los trilhando seu caminho gera uma enorme satisfação".

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