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Diana Trujillo: "Eu limpava casas e hoje tento descobrir vida em Marte"

A engenheira aeroespacial colombiana Diana Trujillo - Divulgação/Nasa
A engenheira aeroespacial colombiana Diana Trujillo Imagem: Divulgação/Nasa

Carolina Vellei

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

13/04/2021 06h00

No dia 18 de fevereiro, a história da exploração espacial ganhou um novo capítulo. A rover Perseverance, da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana), veículo de exploração mais sofisticado já enviado ao espaço, pousou em solo marciano quase sete meses após deixar a Terra.

A aterrissagem foi narrada em espanhol para milhões de espectadores pelo mundo, um feito também histórico: foi a primeira vez que a Nasa transmitiu nesse idioma a chegada de uma nave a outro planeta. Não foi por acaso. A engenheira aeroespacial colombiana Diana Trujillo, diretora de voo dessa missão que tem como objetivo buscar vestígios de atividades microbianas no planeta vermelho, insistiu por meses para que isso acontecesse.

"O objetivo era que este momento histórico chegasse não só aos cientistas e aos engenheiros que falam inglês, mas também às avós, aos avôs, às mães, aos pais e sobretudo às meninas e meninos da América Latina e Espanha", contou ao jornal "El País".

A história de Diana até chegar à Nasa não foi nada fácil. "Eu limpava casas e hoje estou tentando descobrir se existe vida em outro planeta", resume ela em um vídeo publicado pela agência espacial americana. Nascida na cidade de Cali, na Colômbia, viveu no país até os 17 anos, quando decidiu se aventurar nos Estados Unidos sem dinheiro e sem falar inglês.

O começo de tudo

Diana cresceu na Colômbia na década de 1980, quando o país passava por uma grande onda de violência. O medo e a insegurança fizeram com que ela se voltasse para o céu. Ela gostava de se deitar sobre a grama, sentindo o cheiro da terra e das plantas, enquanto apreciava a imensidão: "Para mim, olhar para as estrelas era o meu lugar seguro. É insano o quanto de paz o céu pode trazer. Nada está colidindo com nada, nada parece estar brigando. Tudo parece ótimo. Cada estrela é um mundo em si mesmo, além de serem mágicas por si só", refletiu em uma live da Nasa.

Imagem feita durante o primeiro deslocamento do Perseverance no solo de Marte, em 4 de março de 2021 - Nasa/ JPL-Caltech - Nasa/ JPL-Caltech
Imagem feita durante o primeiro deslocamento do Perseverance no solo de Marte, em 4 de março de 2021
Imagem: Nasa/ JPL-Caltech

Após terminar o colégio, Diana se mudou para os Estados Unidos para aprender inglês. Levou 300 dólares, o pouco dinheiro que conseguiu juntar antes da viagem. A ideia tinha sido do pai, que notou seu interesse pela ciência e achou que ela poderia ter um futuro melhor no país.

Chegando em Miami, fez trabalhos como faxineira para pagar o curso do idioma, que durou três anos. Um dia, por acaso, encontrou uma revista falando sobre o papel das mulheres na Nasa - a maioria delas em carreiras de engenharia e medicina. "Eu sabia que, embora não falasse bem inglês, era muito boa em matemática. Então resolvi que era isso o que iria fazer", contou ao jornal "El Tiempo".

Mas a decisão de ir para a faculdade não foi tomada sem alguma insegurança: ela estava na casa dos 20 anos e se sentia "velha" para os padrões dos EUA. Ali, era comum as pessoas se formarem (e não iniciarem os estudos) com essa idade. Mesmo assim, fez a matrícula no curso de Engenharia Aeroespacial na Universidade da Flórida.

Foi na faculdade que passou a ter mais contato com a tecnologia - e ela lembra que isso se resumia a alguns minutos durante as aulas, em computadores sem internet. Também foi nessa época que se tornou a primeira mulher imigrante e hispânica a ser admitida na Academia da Nasa, um programa de treinamento para estudantes universitários em que a agência espacial aproveita para ficar de olho em novos talentos.

Ali, conheceu pessoas que lhe abririam portas importantes pouco tempo depois. Foi o caso de Brian Roberts, que conduzia uma pesquisa focada em robôs para operações espaciais na Universidade de Maryland. Ele a convenceu a se transferir para essa universidade, localizada perto da capital do país e da sede da Nasa. Valeu a pena: ela passou a fazer parte da equipe de pesquisa liderada por ele e conseguiu uma vaga no departamento de educação da Nasa como gerente de operações da Academia.

No fim de 2009, já formada, Diana se mudou para Los Angeles com o marido e participou de um processo seletivo para trabalhar no Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial (JPL, na sigla em inglês), onde é construída a maior parte de suas espaçonaves não tripuladas. Mesmo sem ter um mestrado ou doutorado, foi contratada. "As pessoas precisam parar de pensar que para trabalhar na Nasa é preciso ser um gênio com cinco pós-graduações. Comecei sem saber muito bem o inglês, entrei tarde na faculdade e agora estou aqui", defende.

O céu não foi o limite

Ilustração feita pela Nasa do rover Perseverance descendo em Marte  - Divulgação/Nasa - Divulgação/Nasa
Ilustração feita pela Nasa do rover Perseverance descendo em Marte
Imagem: Divulgação/Nasa

No JPL, ela trabalhou na missão Curiosity, antecessora da Perseverance na exploração de Marte. A rotina era intensa: "Eu testava o robô às três, quatro horas da manhã, quando ninguém queria ir ao laboratório", conta. O esforço compensou e ela logo se tornou a número quatro do time, no mesmo nível de colegas que tinham entre 20 e 25 anos de experiência.

"Acho que o desejo dos hispânicos de trabalhar muito também me motivou. Se alguém nos diz que há 99% de chance de que algo não funcione, nós nos apegamos ao 1% restante e descobrimos que essa mentalidade é o que precisamos para explorar o desconhecido, o espaço".

Diana Trujillo

Com o sucesso dessa primeira missão, que pousou em Marte em 2012 e ainda está em operação por lá, Diana queria novos desafios e migrou para a equipe da Perseverance. Ali, passou a comandar o desenvolvimento do braço robótico da nave, responsável por coletar amostras que permitirão descobrir se houve ou não vida no planeta vermelho.

"Trabalhamos muitíssimo, 24 horas por dia, durante muitos meses para terminar de montar a robô [ela sempre se refere à Perseverance no feminino]. Não paramos nunca, nem nos fins de semana, nem nas festas de dezembro. Íamos nos revezando para não perder nem um minuto", conta.

A nave viajou 480 milhões de quilômetros e aterrissou numa cratera de cerca de 45 quilômetros de diâmetro chamada Jezero, que os cientistas acreditam marcar um local onde desembocava um rio. "Se houve água, é o lugar onde provavelmente poderemos encontrar os rastros de vida microbiana", explica.

Se o pouso foi um enorme desafio superado, a coisa não ficou mais fácil depois disso. A missão ainda vai durar dois anos (o equivalente a um ano de Marte), e Diana agora é líder do programa de operações de exame de superfície do planeta. Sua tarefa é garantir que a Perseverance tenha tudo o que é necessário para executar as suas primeiras tarefas. "Isso implica prever todos os cenários possíveis em que as coisas vão bem ou mal e, assim, gerar protocolos para solucionar as dúvidas e problemas", afirma.

A experiência como imigrante e o exemplo para outras garotas

Diana acredita que chegou aonde chegou com muito trabalho duro, aproveitando todas as oportunidades que a vida lhe deu.

"Não vi como 'não posso acreditar que estou limpando um banheiro agora'. Era mais como: 'estou feliz por ter emprego e poder comprar comida e ter uma casa onde dormir'".

Diana Trujillo

Como imigrante, aprendeu a viver com poucos recursos e a ser criativa para superar as dificuldades diárias fora de seu país. Hoje, além de servir de exemplo para que outros imigrantes latinos possam acreditar no sonho de explorar o espaço, ela procura incentivar principalmente o interesse das meninas na carreira.

Sua mãe era estudante de medicina, mas precisou largar a faculdade para se casar. Ver as dificuldades que ela passou para sustentar a família após o divórcio com seu pai deu forças para que Diana persistisse em uma carreira que ainda é dominada por homens. "Quero estar lá, olhando para trás e mostrando à minha família que as mulheres têm valor, que as mulheres importam", reforça.