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Empresas que mudam

Empresas que mudam

Empresa de recrutamento aumenta presença de negros no mercado. E nela mesma

Paula Sales do 99jobs - FLAVIO FERREIRA (11)947005242
Paula Sales do 99jobs Imagem: FLAVIO FERREIRA (11)947005242

Felipe van Deursen

Colaboração para Ecoa, em Florianópolis (SC)

07/04/2021 06h00

Se uma empresa que se dedica a oferecer serviços e soluções para outras firmas contratarem funcionários indica pessoas brancas na grande maioria das vezes, provavelmente essa empresa também tem uma quantidade de funcionários brancos desproporcional em relação à realidade do país. Mas, se, por qualquer razão, ela começar a indicar candidatos não-brancos, a tendência é que reveja as suas práticas internas. A startup de recursos humanos 99jobs olhou o próprio umbigo, dobrou a proporção de funcionários negros em suas fileiras e tem criado um ambiente de trabalho mais plural à medida que ajuda grandes empresas a terem quadros de funcionários igualmente mais diversos.

Faça o que eu faço

Em 2018, oito funcionários da 99jobs se declararam pretos ou pardos, o que correspondia a cerca de 20% do quadro da empresa. "Percebemos que as contratações que promovíamos eram majoritariamente de pessoas brancas para empresas também majoritariamente brancas. Entendemos que precisávamos mudar a maneira que trabalhamos e passamos a priorizar e facilitar a candidatura de profissionais negros. Tanto internamente, quanto nos processos que realizamos para outras empresas", diz o cofundador Eduardo Migliano.

A 99jobs lançou uma série de iniciativas para mudar o cenário. Ela sabe muito bem que o seu negócio, ferramentas de recrutamento, é um fator preponderante de estímulo ao racismo estrutural no mercado de trabalho. Nos últimos anos, para cada ação criada a fim de treinar ou empregar profissionais negros para outras empresas, a 99jobs contratava negros para trabalhar nelas.

Uma dessas iniciativas é a Hello, World!, escola de inglês que usa culturas africanas para capacitar pessoas negras para vagas que exigem o domínio do idioma. Esse ponto, aliás, tem sido repensado nos processos seletivos de algumas grandes empresas, já que, infelizmente, falar inglês é uma barreira elitista (somente 1% da população brasileira é fluente na língua da Rainha, segundo o instituto cultural British Council).

"Precisamos mudar a maneira que olhamos os candidatos no mercado. Em vez de olhar para quantas línguas a pessoa fala, onde ela fez faculdade ou quais cursos ela tem, nós olhamos para quem tem uma proximidade cultural com nossa cultura de trabalho. Quem busca os mesmos ideais que nós para a sociedade", diz Paula Sales, gerente de comunidades de reparação social na 99jobs.

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Eduardo Migliano cofundador da 99jobs
Imagem: FLAVIO FERREIRA

Santa de Casa

Paula Sales, 20, entrou na empresa em 2018 por meio do Melhor Estágio do Mundo, programa de estágio de férias criado em 2015 e que, há três anos, é exclusivo para estudantes negros. Foi efetivada, passou por diversas áreas e hoje coordena esse setor especializado em diversidade. Além da Hello, World!, o time toca ações como Trampa Comigo, evento em que empresas contam o que fazem para incluir talentos negros e explicam a cultura de trabalho a potenciais candidatos, e Community_Hack, maratona hacker para pessoas negras.

A importância de um evento para programadores negros é enorme, dada a excessiva branquitude desse mercado (em 2016, segundo o Ministério do Trabalho, 92% dos profissionais de engenharia e computação eram brancos). Hoje, a 99jobs colabora para mudar o cenário específico do setor de dentro para fora, de acordo com Migliano: o time de tecnologia é o mais equilibrado em termos de diversidade. Já em cargos de chefia, 17% são negros. No segundo semestre a ideia é subir para 30%.

Sales acompanha essa evolução. Quando chegou à 99jobs, era uma daqueles oito funcionários negros. Hoje, são 32, ou 43% do quadro da empresa. Diz que se sente muito mais à vontade. "Um ambiente diverso, além de incentivar outras pessoas de grupos em vulnerabilidade social a ocuparem qualquer espaço, gera diversidade de pensamento", diz. Migliano concorda. "Posso me esforçar muito para entender e me solidarizar, mas nunca vou sofrer com o racismo, o que faz com que eu tenha vieses e mais dificuldade para identificar questões racistas. Quando o time inclui pessoas negras, elas identificam essas questões e sabem como endereçar", explica. "Ter um time mais diversificado tem impacto direto na eficácia do serviço que a gente oferece aos nossos clientes."

Desde 2018, das 2.599 vagas oferecidas pela plataforma da 99jobs, 1.027 (39,5%) foram preenchidas por negros. No ano passado, Magalu e QuintoAndar realizaram seus primeiros programas de estágio exclusivo para negros por meio da 99jobs.

Os três grandes passos

Na infância, Sales precisou trocar de escola e fazer terapia por ser perseguida pelos colegas por causa de seu cabelo. Em outro emprego, uma chefe queria que ela tirasse as tranças, "que não combinavam com o ambiente". "Até hoje entro em espaços, debates e reuniões em que sou silenciada, interrompida e invalidada", diz.

Ela leva essa triste experiência quando apresenta aos clientes da 99jobs os desafios de se criar uma atmosfera de trabalho mais diversa. Basicamente, são três grandes passos de aceitação envolvidos: dos gestores, dos profissionais contemplados pelas ações afirmativas e dos não contemplados, que muitas vezes são os mais barulhentos.

"As pessoas já são maioria nesses espaços e precisam reconhecer seus privilégios", explica. Outro desafio é evitar que as empresas façam "ações de diversidade para postar fotos no Linkedin com hashtag bonita". O segredo? Muita conversa e conscientização.

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