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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Orquestra da Grota: Músicos formados em favela de Niterói ganham o mundo

O músico Luiz Justino, integrante da Orquestra da Grota de Niterói - Reprodução/Redes sociais
O músico Luiz Justino, integrante da Orquestra da Grota de Niterói Imagem: Reprodução/Redes sociais

Diana Carvalho

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

25/03/2021 06h00

"A música me salvou. Sem ela, eu não estaria livre". Preso injustamente por um crime que não cometeu, o jovem Luiz Carlos Justino, de 23 anos, fez questão de mostrar a importância da arte em sua vida quando ganhou a liberdade, em setembro de 2020. O violoncelista passou cinco dias no presídio Tiago Teles, em São Gonçalo, no Rio, após ser acusado de roubo e ter o seu 'julgamento' por foto. No entanto, na data do assalto, Luiz tocava em um evento cultural em Piratininga, bairro nobre de Niterói.

"O que aconteceu com o Luiz poderia ter acontecido comigo. Já perdi a conta de quantos episódios de racismo já sofremos, mas nunca chegou a esse ponto, essa injustiça de prender alguém que estava trabalhando", diz Katunga Vidal, regente da Orquestra de Cordas da Grota, a mesma de que Luiz faz parte.

Os dois cresceram juntos e passaram boa parte da infância entre o campinho de futebol e uma horta comunitária, feita em um pequeno terreno na comunidade da Grota do Surucucu, no bairro de São Francisco, em Niterói (RJ).

A música clássica surgiu em suas vidas a partir de um projeto de Dona Otávia Paes Salles, responsável pela horta e outras atividades educacionais por ali como trabalho voluntário iniciado nos anos 1980. Com o passar do tempo, ela foi sentido que faltava algo que prendesse a atenção de meninas e meninos, de todas as idades, de uma maneira única. Foi aí que decidiu unir música e educação e convenceu um dos filhos, Marcio Salles, então maestro recém-formado nos Estados Unidos, a fazer parte do projeto.

A primeira turma, formada em 1995, contou com apenas seis meninos, entre eles, Luiz e Katunga. Da primeira geração da Orquestra de Cordas da Grota, dois estão morando no exterior.

"O restante segue trabalhando com música", relembra Katunga, que começou na orquestra tocando flauta doce, depois violino e violoncelo.

O início da musicalização dos jovens foi pela flauta doce por ser um instrumento de fácil acesso e baixo custo. Com o crescente número de interessados, foram surgindo outros instrumentos e até uma harpa. Literalmente uma. Nessa aula, a disciplina obrigatória era o revezamento: uma só harpa dava conta de uma turma de 10 jovens.

"Um dos motivos pra ser uma orquestra de cordas foi justamente para ter uma menor dificuldade. Se fosse uma orquestra de sopro, com saxofones, trombones, tubas, clarinetes, as despesas seriam ainda maiores", explica Paulo Tarso, presidente da Orquestra da Grota.

Os gastos anuais com cada criança ficam em torno de R$ 600 e incluem instrumento, alimentação, transporte e roupa para as apresentações.

"Teve uma época em que não tínhamos dinheiro nem para trocar cordas. Então, quando entra um patrocínio grande, é o momento que conseguimos rever tudo que está faltando. Contamos também com doação de voluntários, mas estamos sempre batalhando novos apoiadores", completa.

Da Grota para o mundo

Em 1998, quando dona Otavia morreu, o legado da professora ficou, definitivamente, sob o comando de Marcio, que contou com a ajuda da mulher, a musicista Lenora Mendes, para seguir com o projeto e dar um tom mais profissional para a Orquestra, permitindo que fosse inclusive fonte de renda aos integrantes.

O esforço do casal deu certo. Em 2001, o grupo fez a sua primeira apresentação fora do país, em Portugal. Nova York veio logo na sequência. Três anos depois, aconteceu a primeira turnê pela América Central tocando músicas brasileiras.

Durante esse percurso, o grupo contou com o apoio da fundação Brazil Foundation, que ajudou transformar a pequena casa de ensaios em um espaço maior para aulas e apresentações. O Espaço Cultural da Grota se tornou uma referência de cultura em Niterói, com 17 núcleos de aprendizado fora da comunidade, mais de mil alunos, e diversos talentos espalhados pelo mundo.

Um deles é Kely Pinheiro. A jovem de 21 anos estuda em uma das mais importantes escolas de música do mundo, a Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos. Nascida e criada na comunidade da Grota, o caminho da violoncelista para conseguir estudar fora do país foi marcado por muito esforço, talento e solidariedade. Em 2018, ela realizou uma campanha para bancar os custos da viagem e participou de diversos concertos ao lado da Orquestra, onde começou a tocar aos cinco anos de idade.

"Durante minha campanha, não só tive apoio de amigos, professores e de pessoas que chegavam por meio das minhas redes sociais, mas também do projeto como um todo. Foi um trabalho de formiguinha e a Orquestra de Cordas da Grota sempre esteve presente, assim como a Camerata Laranjeiras", conta. "Na época também tive ajuda da prefeitura, que me deu espaço no Teatro Municipal de Niterói para fazer um show. Foram dois dias de bilheteria esgotada".

O desejo de Kely em trabalhar com música começou quando percebeu que os seus amigos, mais velhos, estavam se tornando professores dentro do projeto.

"Comecei muito nova. Meus pais precisavam trabalhar, e me inscreveram nas aulas. Então, foi ali que cresci e fiz amigos. Era quase como uma família. Quando já estava tocando violoncelo, percebi que a música poderia ser mais que um hobby. Quando vi meus amigos mais velhos se tornando professores, trabalhando, percebi que também poderia seguir esse caminho. Cresci com esse olhar de admiração e ali entendi que era possível".

Kely Pinheiro ainda criança, quando começou a tocar na Orquestra de Cordas da Grota - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Kely Pinheiro ainda criança, quando começou a tocar na Orquestra de Cordas da Grota
Imagem: Arquivo pessoal

Música abre horizontes

O mesmo olhar de admiração que Kely tinha por seus professores, a musicista Raquel Terra, 33, percebe em seus alunos, que fazem parte do núcleo da orquestra em São Gonçalo, onde ela dá aulas de violoncelo.

"Sei que estou cumprindo meu papel quando um aluno me vê como referência. Quando uma criança diz que quer estudar muito para dar aula ou tocar como eu faço, é recompensador", diz ela.

Raquel começou na Orquestra da Grota aos 10 anos, quando a mãe de Marcio ainda dava aulas de reforço escolar. Quando seus pais deixaram Niterói para São Gonçalo, ela teve de se afastar do espaço. O retorno aconteceu só sete anos depois. "Tudo já estava diferente. Lembro que no começo tinha poucos instrumentos e, quando voltei, já estava mais profissional. Um patrocinador havia doado mais de 50 violinos."

Foi nesse momento que Raquel decidiu se dedicar completamente a uma carreira na música. Ela retomou os estudos e na Grota participou da formação de professores. Logo depois, conseguiu uma bolsa no Conservatório Brasileiro de Música. "Só acreditei que poderia viver de música quando vi meus amigos como referências. A música tem o poder de romper barreiras, abrir horizontes. E ela teve esse poder na minha vida. Me mostrou possibilidades", conta.

Hoje, além de professora, Raquel compartilha seu talento no quarteto de cordas Ninas, formado só por mulheres, todas "crias" da Orquestra da Grota. Do clássico ao popular, de Chiquinha Gonzaga a Beyoncé, as meninas buscam resgatar canções de mulheres cantoras e compositoras.

"O grupo é uma homenagem para Nina Simone, que tem uma história de vida parecida com a nossa: mulher, negra, que, além de enfrentar o machismo, também lidou duramente com racismo. Tocando piano ela quebrou barreiras com seu talento. E isso é um exemplo pra nós. Na Orquestra da Grota, a gente aprende exatamente isso, que com nosso talento e dedicação podemos chegar aonde quisermos."

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