PUBLICIDADE
Topo

Depois de perder 90% de sua população, tiriba-do-paranã ganha proteção

Duas tiribas-do-paranã avistadas no Parque Estadual Terra Ronca, em São Domingos, Goiás, em fevereiro de 2020  - Ester Ramirez
Duas tiribas-do-paranã avistadas no Parque Estadual Terra Ronca, em São Domingos, Goiás, em fevereiro de 2020
Imagem: Ester Ramirez

Meghie Rodrigues

Colaboração para Ecoa, em São João (PR)

23/03/2021 06h00

Entre a Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás, e a Serra Geral do Tocantins, no sudeste tocantinense, fica o Vão do Paranã, uma região de planície que é cortada pelo rio que lhe empresta o nome, o Paranã. Pontuada por cachoeiras, cavernas e rochas gigantescas de calcário (os afloramentos), a paisagem também abriga uma vegetação do Cerrado conhecida como mata seca. Longe de rios e cursos d'água, as árvores de mata seca perdem suas folhas durante o inverno.

É esta região no Brasil central que abriga a bela tiriba-do-paranã, ave nativa do Cerrado que se alimenta de flores, frutas e sementes. Também conhecida como tiriba-de-pfrimer e tiriba-pequena, a tiriba-do-paranã é dona de uma penugem que mistura cores vibrantes. A ave ajuda a dispersar sementes de plantas que só existem na área onde vive.

Como seu habitat se resume a uma região muito restrita, a espécie se encontra ameaçada de extinção. A maior ameaça à sua sobrevivência é o desmatamento, principalmente em função da expansão da atividade agrícola.

"A estimativa é que entre 1995 e 2019 a população do pássaro tenha sido reduzida entre 80% e 90%. De lá para cá, a região de mata seca perdeu 25% do seu território. A estimativa é de que apenas 40% da vegetação de mata seca ainda esteja de pé," explica Tulio Dornas, pesquisador bolsista de pós-doutorado em ciências ambientais pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) na Universidade Federal do Tocantins (UFT).

O pesquisador calcula que a população da tiriba gira em torno de 19 mil a 31 mil indivíduos - mas pode ter chegado a mais de 300 mil em 1995. Os números, diz Dornas, variam um pouco de acordo com a metodologia - há especialistas que estimam que a população da ave nos anos 1990 tenha sido de 200 mil, por exemplo. "Mas um achado de todos os pesquisadores, independente do cenário, é que a população da tiriba diminuiu assustadoramente nas últimas décadas," conta.

Tendo este cenário em vista, em 2012 Dornas criou um projeto focado na preservação da tiriba-do-paranã em parceria com Renato Torres Pinheiro, professor da pós-graduação em Biodiversidade, Ecologia e Conservação na UFT. A ideia era estudar a dieta da ave e observar quais outras espécies de pássaros ocorriam na mesma área. "Se também estivessem ameaçados, a preservação do habitat da tiriba poderia beneficiá-los diretamente - e a outras plantas e animais, indiretamente," explica o ornitólogo.

Apesar de bastante ameaçada, entre os anos 1990 e 2000 havia muito poucos estudos sobre a ave. Esta lacuna foi mais uma motivação para a criação do Projeto Tiriba-do-Paranã, que entre 2012 e 2014 teve apoio do Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Aves (ECOAVES) da UFT.

Mobilização mundial

Para viabilizar a ideia, foi preciso buscar parcerias. O grupo de pesquisa da UFT foi importante providenciando cérebros para observação do pássaro e análise de dados, mas era também preciso conseguir dinheiro para financiar as atividades. Com pouca verba para a ciência brasileira, o jeito foi recorrer a organizações não-governamentais no Brasil e em outros países.

Atualmente o projeto tem apoio da American Bird Conservancy, organização não-governamental com sede nos Estados Unidos focada na preservação de aves nas Américas, e da Neotropical Bird Club, organização britânica que une leigos e especialistas interessados em pássaros das regiões tropicais. Mas já contou com suporte de organizações brasileiras como a Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil) e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

A segunda fase de atividades do projeto começou em 2019 e continuou no ano passado, apesar da pandemia. Um dos objetivos agora, conta Dornas, é entender se a ave também ocorre fora de seus lugares habituais. O Parque Estadual da Terra Ronca, no nordeste de Goiás, é onde mais se encontra o pássaro - mas nas últimas buscas alguns indivíduos também foram avistados na Área de Proteção Ambiental (APA) das Nascentes do Rio Vermelho, a quase 100 quilômetros ao sul de Terra Ronca.

Ciganinha

Tiribas - Tulio Dornas - Tulio Dornas
Duas tiribas-do-Paranã em Aurora do Tocantins (TO) em setembro de 2019
Imagem: Tulio Dornas

Lauana Nogueira, chefe do núcleo de gestão integrada da APA Nascentes do Rio Vermelho e do Refúgio de Vida Silvestre das Veredas do Oeste Baiano, elogia o projeto. Ela diz que é um trabalho científico que também valoriza o conhecimento local.

No dia-a-dia dos locais, a tiriba ganha outros nomes: ciganinha, chiriri, periquito-do-morro e, o mais comum deles, barreirinha. "As pessoas se sentem importantes por conversar com pesquisadores, de serem perguntadas se elas conhecem e querem ver o pássaro? isso estimula a curiosidade dos locais sobre a tiriba e outras espécies."

Roedores como o mocó e animais que vivem em cavernas saem no lucro com a recuperação de áreas no Cerrado visando a preservação do habitat da tiriba-do-paranã. Humanos também ganham. Fernando Morais, professor adjunto do departamento de Geografia da UFT, observa que as regiões de mata seca estão entre as mais áridas do Tocantins. "Uma visão sistêmica da região implica em preservar rios e cavernas - além da vegetação - para a boa manutenção de recursos hídricos," analisa.