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"Não falamos apenas sobre racismo": influenciadores negros resistem à covid

 Laerte Breno, 25, educador popular, criador da UniFavela - Arquivo Pessoal
Laerte Breno, 25, educador popular, criador da UniFavela
Imagem: Arquivo Pessoal

Núbia da Cruz

Colaboração para Ecoa, de São Paulo (SP)

20/03/2021 04h00

"Sou um jovem negro de favela, eu tenho esse perfil. Já é difícil de me escutarem presencialmente; na internet, nada muda. A gente não está apenas falando sobre racismo, estamos falando sobre educação, sobre finanças, a gente está publicando podcast, falando sobre ciência, sobre jornalismo?"

Laerte Breno, 25, é educador popular e criador da UniFavela. Embora 54% da população brasileira se autodeclare negra, como Laerte, esse número não se reflete quando analisamos a quantidade de negros no mercado digital e no ranking de maiores canais de YouTube ou de contas mais seguidas no Instagram.

Mas existem pessoas negras ou periféricas com um número expressivo de seguidores que utilizam desta visibilidade para ajudar projetos de suas comunidades. E o trabalho deles tem sido dobrado durante a pandemia.

Arte em casa

O jovem influenciador Kawan Lopes, 22, é um dos criadores da Cultura Zona Oeste, um coletivo cultural que oferece aulas de dança e teatro para jovens periféricos de 14 a 26 anos. Kawan foi o candidato mais jovem a concorrer a uma eleição para vereador no Rio de Janeiro, em 2020, e hoje é suplente da câmara municipal.

O fato de ter pouca promoção de cultura naquela região da cidade, em 2018, fez quatro jovens se reunirem para trocar ideias sobre arte e dança. "Neste período, a Marielle foi assassinada e eu acredito que proliferou, ficamos muito indignados com a situação, aproveitamos o momento que pessoas estavam sensibilizadas para nos reunirmos e fazer o que a gostávamos na base da resistência." diz Kawan.

Durante a pandemia, o coletivo lançou a iniciativa "Arte em Casa", com o objetivo de distrair a juventude no período de isolamento.

"Foi um projeto desenvolvido durante o período da pandemia a conseguimos promover ações de desenvolvimento artístico a partir de recursos que eles tinham em casa, eles podiam expressar suas artes dentro de casa para tirar todas as mutilações, a depressão, ansiedade que foram desenvolvidos no período da quarentena e usávamos esses materiais para divulgar o que os alunos estavam fazendo"

Wakanda à Brasileira

Andreza - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Andreza Delgado Perifacon
Imagem: Arquivo Pessoal

Com cerca de 92 mil seguidores no Twitter e 20 mil no Instagram, Andreza Delgado, 25, diz que é muito difícil ser uma influenciadora negra. "O meu conhecimento não basta por conta de estereótipos que pessoas negras de periferia têm. As pessoas ditam que esse não é o assunto para você ou que só pode falar de um assunto específico."

No entanto, a influenciadora digital não aceitou falar "só de assuntos esperados que uma negra falasse". Ela criou uma utopia nerd na quebrada.

Imagine um local em que apaixonados pela cultura geek se encontrem, possam consumir trabalhos de artistas de diversos lugares, ter acesso a diversas programações nerd. Parece até a mundialmente conhecida ComicCon, mas trata-se da PerifaCon. Lá, diferente do seu primo rico, a entrada é gratuita, o público alvo são jovens periféricos e você encontra produtos da cultura geek produzida na periferia. O evento foi criado pela produtora de conteúdo, youtuber e colunista do Uol Andreza Delgado.

No entanto, a chegada da pandemia da covid-19 fez com que Andreza precisasse se reinventar. A PerifaCon não aconteceu em 2020 por conta da pandemia , mas conseguiram tocar um projeto com a Netflix, uma série de vídeos chamada "Na Boca Do Povo", em que comentava junto com Gabrielly Oliveira, Igor Nogueira, Luíze Tavares sobre os lançamentos da plataforma de streaming.

Pré-vestibular e apoio psicológico

Unifavela - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Unifavela
Imagem: Arquivo Pessoal

Laerte Breno, morador do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, pensou em cursar jornalismo quando saiu do Ensino Médio. No entanto, não enxergava oportunidades na profissão e acabou por escolher a área da educação. Já universitário, sentia que precisava compartilhar com a comunidade o que estava aprendendo na academia. .

Tudo começou em 2018, quando passava por uma biblioteca do bairro e encontrou uma amiga que pediu ajuda na área de linguagens. Laerte combinou de ajudar a amiga no dia seguinte, mas quando ela chegou, havia trazido mais gente consigo. Assim, o cursinho pré-vestibular UniFavela foi crescendo organicamente. De início, as aulas aconteciam nas lajes do Complexo da Maré. Hoje, o Instituto Vida Real cede uma sala ao projeto que acomoda os pré-vestibulandos.

Com cerca de 38 mil seguidores no Twitter, o educador utiliza a rede social para que as pessoas conheçam a UniFavela, para conseguir engajamento e procurar parcerias.

Com o avanço da pandemia, no primeiro momento tiveram que parar por um mês e meio, após isso o educador buscou atendimento psicológico para a equipe do UniFavela. Logo depois, começou o processo de ligar para os alunos para saber o tipo de acesso à internet que possuíam, houve também uma ação de entrega de tablets para os alunos.