PUBLICIDADE
Topo

Rock contra o racismo: conheça o Projeto Sangue Preto

Natália Matos , vocalista da Punho de Mahin - Lucca Miranda
Natália Matos , vocalista da Punho de Mahin Imagem: Lucca Miranda

Robson Assis

Colaboração para Ecoa, de São Paulo (SP).

19/03/2021 04h00

O filme "Um crime Americano" (LA 92), disponível na Netflix, narra uma revolta popular que ficou bastante conhecida em 1992 por se manifestar violentamente contra o incidente ocorrido com Rodney King, um homem negro e trabalhador da construção civil, brutalmente espancado por policiais brancos após ser acusado de dirigir em alta velocidade.

Um ano depois do espancamento, um júri de maioria branca inocentou os policiais envolvidos, o que foi o estopim para que a população fosse às ruas demonstrar sua insatisfação contra o evidente racismo no caso, algumas décadas antes das notas de repúdio e das twittadas tomarem o lugar da ação direta e das manifestações.

Este episódio foi tema de "I wanna riot", dos punks do Rancid, assim como "Don't Pray on Me", do Bad Religion, e "L.A.P.D", do Offspring, que surgiram no mesmo período.


Sangue Preto

Sangue Preto - Um pouco mais de Arte/Reprodução - Um pouco mais de Arte/Reprodução
Coletânea de hc/punk "Sangue Negro"
Imagem: Um pouco mais de Arte/Reprodução

Quase trinta anos depois, em 2020, o mundo conheceu a tragédia de George Floyd, assassinado por um policial branco de maneira covarde e desumana no meio da rua, enquanto tentava gritar "I can't breath" ("eu não consigo respirar", em tradução literal).

"A violência policial sempre existiu, principalmente nas periferias em que abordagens e/ou assassinatos sangrentos ocorrem em plena luz do dia", comenta Natália Matos, vocalista da banda Punho de Mahin.

Natália é autora do texto de introdução da coletânea "Sangue Preto - Nossa luta contra o racismo", lançada em 2020, e que reúne bandas e artistas independentes de todo o Brasil em torno da temática antirracista.

Assim como em 1992, em meio a esse clima de hostilidade, muitos músicos passaram a se pronunciar mais ativamente sobre o assunto. "É uma pauta que já está sendo abordada há um tempo na cena [hardcore punk], e que infelizmente ainda precisamos insistir", complementa Natália.

É nesse contexto que nasce a coletânea "Sangue Preto - Nossa luta contra o racismo". Produzida de maneira independente e colaborativa, a coletânea foi idealizada por Leo Rissuti, da banda Derrota. A ideia surgiu a partir de uma foto que viralizou: uma delegacia de Minneapolis (EUA) incendiada por manifestantes.

Leo viu em primeiro lugar um impasse por ser um homem branco. "Eu sou um cara branco, será que eu tenho mesmo que assumir essa frente, fazer esse projeto acontecer? Tentei até empurrar a bola pra eles: vocês não querem fazer a coletânea? Eles responderam: não Leo, você tá junto com a gente, a luta contra o racismo é de todos nós.", explica Leo.

O projeto conta com apoio de bandas brasileiras da cena hardcore punk, artistas, fotógrafos, selos independentes e outras pessoas envolvidas no meio, com a ideia principal de trazer uma mensagem sobre questões raciais, violência policial, homofobia e desigualdades sociais.

São 25 bandas dos mais diferentes vertentes dentro do hardcore punk. Das mais melódicas como o Blackjaw e Hayz até os berros desesperados do Discurso de Pobre, Hümano e Sendo Fogo.

Faça você mesmo

Algumas das bandas produziram a música que entrou na coletânea em meio à pandemia do novo coronavírus. É o caso da Klitores Kaos, de Belém (PA): "tivemos que contar com amigos que nos ajudaram a fazer toda essa produção de forma caseira, mas o resultado foi bem produzido e ainda fizemos um coro feminino com poucas minas pra não causar aglomeração, mas que foi bem incrível", afirma Suelen Lucelina, vocalista da banda.

Para ela, o assassinato de George Floyd foi um estopim para que este debate se tornasse mais direto. "Esse incidente foi desnecessariamente necessário para reacender as dores e injustiças que passamos todos dias e que a vida de negros no Brasil importam também, que a minha existência importa, que a minha voz importa", comenta Suelen.

A coletânea iinclui um livreto ilustrado por diversos artistas, acompanhado de fotos promocionais das bandas, letra das músicas e contato. A arte de capa foi feita por Felipe Fogaça. Ela foi baseada no quadro Operários, de Tarsila de Amaral e traz rostos de personalidades que tiveram suas vidas voltadas à luta antirracista.

Auxílio Musical

O idealizador Leo Rissuti conta que a ideia num primeiro momento era não lançar material físico por conta das restrições da pandemia, mas com os apoios externos a ideia começou a tomar outra forma e a prensagem dos CDs e do livreto foi feita com a colaboração de Fabio Mozine (Läja Records) e por meio da pré-venda de camisetas no site oficial do projeto.

"Foi muito interessante porque, num momento em que as bandas estavam sem fazer show, você poder ter um material novo pra vender, divulgar e entrar um dinheirinho pro caixa da banda acho que foi legal pra todo mundo", comenta.

Ao contrário do senso comum que insiste em declarar que o rock morreu, projetos como a Coletânea Sangue Preto - Nossa luta contra o racismo mostram que o estilo ainda corre nas veias das lutas sociais e das minorias em busca de denunciar a guerra civil não declarada nas periferias das grandes cidades brasileiras.