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"Não seria essa potência se não fosse a religião", diz chef Carmen Virgínia

A chef e Iyabasse Carmen Virgínia - Divulgação
A chef e Iyabasse Carmen Virgínia Imagem: Divulgação

Isabella Garcia

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

26/11/2020 10h41

Com o tema "Existe um futuro preto!", a Feira Preta tem promovido painéis de debates com temas caros para a comunidade, como ancestralidade, comportamentos e políticas que foram o centro das reflexões de ontem (25). A programação está em diferentes plataformas e redes sociais como Youtube, TikTok, Spotify, Instagram e Facebook.

Mediada pela jornalista e cozinheira Larissa Januário, o painel Ancestralidade utilizou a gastronomia como pauta de reflexão sobre a questão ancestral com participação das chefs de cozinha Carmen Virginia e Priscila Novaes.

Carmen Virgínia atua como chef de cozinha e Iyabasse, uma função sagrada no candomblé. A pessoa que ocupa essa posição é responsável por preparar a comida dos orixás, o que envolve uma série de ritos passados entre gerações por meio da oralidade e tem influência direta das entidades.

"Só sou cozinheira por causa da minha função de Iyabasse. Eu não seria essa potência que as pessoas enxergam em mim se não fosse a religião. Mesmo tendo uma vida difícil, sofrida, com mortes e enterros, os meus ancestrais são cruciais para eu estar aqui, na cozinha dos homens e dos orixás. Nada faz sentido para mim se não estiver falando, bebendo, exaltando o meu orixá, que é o de Priscilla, o de Larissa. Essa é minha grande missão e é o que eu quero levar para o resto da vida", comenta Carmen.

Priscila também teve o seu despertar para a gastronomia dentro de um terreiro de candomblé, local onde, segundo a chef, a comida é utilizada como instrumento de cura e agradecimento.

"A cozinha ancestral é ter um propósito de dar continuidade a um legado e uma história que não começou comigo, foi lá atrás com os meus ancestrais que me deram o bastão para dar continuidade. Aceitar nossa ancestralidade é aceitar a memória que ficou do outro lado" reflete.

Há muitas interrogações quando se olha para a história do povo preto. Existe um apagamento que impede que essas pessoas saibam sobre suas trajetórias e seus antepassados. Essa cultura racista, como define a mediadora do evento, invisibiliza o legado da gastronomia ancestral.

As participantes do painel celebram a grandiosidade cultural que todos esses elementos representam, mas pontuam que, pela sociedade ainda ser moldada por uma perspectiva eurocêntrica, a simbologia africana ainda é recebida com um olhar racista.

"Sempre irão nos moldar. A gente precisa gourmetizar as coisas para entrar nos espaços. Eu preciso diminuir o tamanho do acarajé e não fritar com o óleo de dendê no local para ser aceita", comenta Priscila "Isso impacta diretamente no nosso desenvolvido econômico. Por não usar doma e usar contas, sou impedida de estar em alguns lugares. Então eles sempre terão poder."

A doma, traje tradicional de um chef de cozinha, também é uma questão levantada por Carmen. "Se eu vestisse a doma igual a eles, não seria chefe igual a eles, seria mais uma da cozinha. Quando visto a minha kaftan colorida e meu turbante eu sou Iyabasse dentro da cozinha, a que prepara a comida dos orixás. Desde que o mundo é mundo, os orixás são muito maiores do que os homens, então se cozinho para eles, posso estar aqui".

Ela acredita que o reconhecimento e valorização da gastronomia negra, só acontecerá no dia que o branco estiver preparado para admitir o seu erro. Para a Iyabasse essas pessoas ainda não estão prontas para isso. "Eles não querem falar sobre nós. É mais fácil nos renomear, falando que a minha comida é baiana, mesmo eu não sendo baiana e que a comida de Priscila é um africano gourmet, do que falar de onde veio".

As chefs buscam conhecimentos acadêmicos, mas compartilham da mesma frustração ao ver técnicas africanas sendo ensinadas nas aulas como francesas. "Eles mudam o nome dos pratos para mostrar que é europeu. Por isso essas fontes de conhecimento nunca serão iguais a um terreiro de candomblé. A gente fica com esse vazio, achando que em determinada instituição vamos ter acesso à nossa cultura, mas não temos. Então é mais fácil trocar entre nós. As Minhas maiores fontes de conhecimento são as ialorixás, iaôs, babalorixás..." conclui Priscila.