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'Boys State' examina a democracia ao colocar jovens para formar um governo

Steven Garza em cena do documentário "Boys State", disponível na Apple TV+ - Divulgação
Steven Garza em cena do documentário 'Boys State', disponível na Apple TV+ Imagem: Divulgação

Mariana Tramontina

Colaboração para o Ecoa

20/11/2020 04h00

O que acontece quando se permite que mil adolescentes construam uma forma de governar totalmente do zero?

Desde 1935, a American Legion —organização dos veteranos de guerra dos Estados Unidos— promove o Boys State, uma espécie de acampamento em que alunos do ensino médio de toda parte do país se inscrevem para vivenciar uma simulação de governo durante uma semana. É um exercício do qual já participaram alguns nomes famosos como Bill Clinton e Dick Cheney, e até não políticos, como Michael Jordan e Bruce Springsteen.

A edição de 2018 do evento, realizada no Texas, foi registrada pelos cineastas Amanda McBaine e Jesse Moss e transformada no documentário "Boys State", disponível na Apple TV+ (há também um evento irmão, Girls State, que os diretores planejam documentar quando a pandemia passar). Em 1h50 de filme, eles seguem a trajetória de 1.100 rapazes de 17 anos nessa jornada política de amadurecimento, examinando a democracia dos dias de hoje.

No acampamento, os jovens são divididos em dois partidos políticos: Federalistas e Nacionalistas. Sem qualquer posição pré-existente definida, eles precisam construir toda a base de seus ideais e plataforma de propostas, além de escolher suas lideranças, fazer campanhas, conseguir votos. No fim, apenas um entre todos eles será eleito o governador.

A maior estrela do filme é Steven Garza, filho de imigrantes mexicanos que mora em Houston e que se autodenomina progressista. Admirador de Napoleão Bonaparte, ele diz que seu interesse pela política germinou durante a campanha presidencial de 2016 do democrata Bernie Sanders. De fala mansa, Garza se torna o herói das minorias no campus e é escolhido como candidato dos Nacionalistas em busca da vaga de governador.

Outros personagens importantes são Ben Feinstein, um conservador fã de Ronald Reagan, que defende o que chama de "manual do Trump" e que se torna o presidente dos Federalistas; e o talentoso orador René Otero, um liberal eleito presidente dos Nacionalistas, um garoto negro de Chicago que confidencia para a câmera nunca ter visto tantos brancos antes. Impetuosos, os dois são totalmente comprometidos com seus candidatos.

Eu acho que ele é um político fantástico, mas eu não acho que ser um político fantástico seja um elogio.
René Otero sobre Ben Feinstein

boys state robert - Divulgação - Divulgação
Robert MacDougall no documentário 'Boys State'
Imagem: Divulgação

Há ainda Robert McDougall, outro candidato nacionalista que evoca visões de George W. Bush. Ele tem uma estratégia de campanha bem simples: quando percebe que está lidando com um público conservador, ele mente sobre suas próprias ideologias. A conclusão dele é tão sombria quanto verdadeira: "Às vezes você não pode vencer com o que acredita em seu coração. Isso me deu uma nova compreensão do motivo pelo qual os políticos mentem para chegar ao cargo", confidencia ele para a câmera.

Em certo momento, Garza aponta sabiamente que "os melhores líderes lideram na frente e com paixão".

Soldados não seguirão um general que não se importe com baixas e os manda para a batalha sem se importar com a perda de vidas. Eles se importam com pessoas que inspirem, motivem e se importam. Esse era quem eu queria ser aqui no Boys State. Esse tipo de líder. E acho que eu sou. Não importa quais foram os resultados da eleição.
Steven Garza

"Boys State" é um microcosmo da política do mundo real, com um pé no século 21 e outro na década de 1950. Conforme o filme avança, os dois partidos, então indefinidos no início, tornam-se claramente o que pode ser descrito como esquerda e direita. O direito às armas é um tema importante entre eles, e mais de um menino declara sua oposição ao aborto, muitos deles reproduzindo frases prontas já tanto ouvidas por políticos na mídia.

Mas "Boys State" é também envolvente quando se concentra em momentos de amizade entre eles, e não só na raiva alimentada pela testosterona, como quando eles mostram apoio mesmo expressando em voz alta suas divergências. O comportamento juvenil também está lá, como quando eles promulgam uma lei estadual para proibir pizza de abacaxi (mas quantos projetos banais também não circulam pela Câmara dos Deputados?).

O objetivo do experimento da American Legion é reunir jovens de todas as culturas e permitir que eles aprendam uns sobre os outros, ainda que a diversidade não seja tão vasta entre os selecionados. E "Boys State" nos permite ser igualmente educados enquanto assistimos. Você pode até se desesperar com a habilidade desses jovens em conduzir truques sujos e tentativas de conquistar posições de poder, mas vai também alimentar a esperança de que estes mesmos jovens apaixonados poderão realizar grandes feitos no mundo real. Garza, hoje com 19 anos, estuda política na Universidade do Texas, em Austin.

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René Otero e Ben Feinstein no documentário 'Boys State'
Imagem: Divulgação

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