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Iniciativas que inspiram

Financiamento misto ajuda negócios de impacto socioambiental positivo

Jovenilio Souza Cardoso, cooperado da COEX Carajás, retirando folhas de jaborandi - Divulgação/Grupo Centroflora
Jovenilio Souza Cardoso, cooperado da COEX Carajás, retirando folhas de jaborandi Imagem: Divulgação/Grupo Centroflora

Juliana Vaz

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

03/11/2020 04h00

Algumas experiências são transformadoras. Em 2002, Leonardo Letelier subiu um dos sete cumes mais altos do mundo, o Kilimanjaro, no norte da Tanzânia na fronteira com o Quênia. A aventura foi o início de um processo de mudança para o então gerente sênior de projetos da consultoria McKinsey, mas que se tornaria concreto apenas seis anos depois. "Hoje, a história pode soar batida, mas há 13 anos era incomum: eu gostava do que eu fazia, mas faltava um por que. Não me bastava internamente", conta Leonardo. Isso começou a incomodá-lo. Como poderia usar suas habilidades e sua bagagem como consultor para realizar transformações na sociedade? Começou então um movimento de busca por realizar algo com significado maior, de que sentisse orgulho genuíno.

Foi então que, em 2007, ele se tornou empreendedor, criando um modelo pioneiro de solução financeira para viabilizar negócios de impacto social. "'Investimento de impacto social' não era nem um termo existente por aqui. Nós começamos realmente antes da onda", conta.

Usando sua experiência em governança corporativa e finanças, fundou oficialmente no ano seguinte a SITAWI Finanças do Bem com a missão de mobilizar capital para impacto socioambiental positivo. Com a escolha do nome — "sitawi" significa "florescer" ou "desenvolver" em swahili, língua banto mais falada na África — Leonardo cravava seu ideal: ajudar ONGs e negócios de impacto socioambiental em seu desenvolvimento e provar sua viabilidade.

"O primeiro produto da SITAWI foi o empréstimo socioambiental. A lógica era captar doações e emprestar o dinheiro. Quando esse dinheiro voltava, emprestávamos para o próximo projeto", diz ele.

As primeiras instituições beneficiadas pela SITAWI foram a paranaense Solidarium, que fomentava uma rede de artesãos por meio de vendas no varejo, e a carioca Daspu, grife da ONG Da Vida em prol da cidadania de prostitutas.

Mais de uma década depois, já mobilizou mais de R$ 147 milhões para impacto socioambiental, sendo o investidor de impacto mais ativo do Brasil, com mais de 55 transações e mais de 40 negócios apoiados.

Como funciona?

O que a SITAWI faz é o chamado "blended finance" (ou financiamento misto) que, como dá a entender o termo, mistura capitais de naturezas diferentes para oferecer uma solução financeira a negócios de impacto socioambiental que dificilmente conseguiriam investimento de outra forma.

Apesar do termo "coletivo", esta é uma operação completamente diferente das famosas "vaquinhas". Aqui, as pessoas se juntam para investir em startups e quem aplica não recebe uma recompensa, mas sim um acréscimo de juros como retorno financeiro.

Esse modelo é estrategicamente usado para estimular o aporte financeiro em projetos que contribuem para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs), estabelecidos pela ONU. A grande sacada é que fundações e institutos entram na conta como "investidores âncora" para dar escala à operação e atrair o capital de investidores. Diretoria, conselho e departamento jurídico são separados para evitar conflitos de interesse.

Nessa década de crescimento, a SITAWI refinou as operações lançando em julho de 2019 a Plataforma de Empréstimo Coletivo em parceria com o Instituto Sabin, uma ferramenta que permite a pessoas físicas investir, emprestando dinheiro diretamente aos negócios. De um lado, os investidores obtêm rentabilidade competitiva. De outro, os negócios têm acesso a linha de crédito com juros mais baixos do que os praticados no mercado, a 1% ao mês e o tomador do empréstimo paga em parcelas mensais (ao longo de dois anos), o que ajuda a reduzir o risco para esse investidor. O modelo é conhecido como "Peer-to-Peer Lending". A SITAWI fica com 2,5% do total captado. O valor geralmente cobre apenas os custos básicos da operação. Quem fecha a conta é o blended-finance do capital vindo de instituições filantrópicas, tornando o modelo um "ganha-ganha".

"Na primeira rodada, nós mobilizamos mais R$ 1 milhão em 52 dias, quase dois meses. Na segunda, em março deste ano, pré-pandemia, foi arrecadado R$ 3,3 milhões. Destes, cerca de R$ 1,1 milhão foi alcançado em apenas 24 horas. Aí vimos como as pessoas físicas estavam interessadas em fazer investimentos que tenham retorno financeiro atrativo, mas que estejam alinhadas aos valores delas", diz Andrea Resende, gerente de Finanças Sociais da SITAWI.

Durante todo o período de empréstimo, a equipe oferece aos empreendedores assistência técnica e relatórios trimestrais aos investidores.

Passo a passo estruturado

Andrea Resende explica que a SITAWI faz prospecção e recebe indicações dos negócios por meio de seus parceiros, como aceleradoras, incubadoras, prêmios e outros investidores. As organizações interessadas em participar também entram em contato pelo site (www.emprestimocoletivo.net.). "Estamos sempre atentos ao ecossistema e buscando bons negócios para investir. No caso da segunda rodada, o foco foi no desenvolvimento sustentável da Amazônia. Selecionamos organizações que estavam participando do programa de aceleração da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), iniciativa liderada pelo setor privado para a construção de soluções inovadoras e sustentáveis na floresta e da qual a SITAWI faz parte desde 2019."

Diante do montante de negócios candidatos, é feita uma avaliação criteriosa e aprofundada. Para chegar aos cinco selecionados da segunda rodada menciona pela gerente financeira, foram analisadas entre 150 e 200 organizações. São avaliados os aspectos financeiros, como fluxo de caixa, capacidade de pagamento do empréstimo, "e fazemos uma projeção financeira para o futuro. E também analisamos aspectos de negócio, como capacidade de execução do time de liderança e do impacto socioambiental." O processo de avaliação leva cerca de dois meses. Tudo é colocado na mesa.

"Conversamos com funcionários, fundadores, clientes e beneficiários. É uma análise que permite levar mais informações para a tomada de decisão de investimento, tanto da SITAWI como de cada investidor individual. Mas também oferecemos assistência de marketing e comunicação."

Na rodada pré-pandemia, em março, a COEX - Cooperativa dos Extrativistas da Floresta Nacional de Carajás, de Paraupebas no Pará, foi um dos negócios selecionados pela SITAWI. Criada em 2011, a cooperativa gera renda para população local por meio do extrativismo de folhas de jaborandi dentro Flona Carajás.

Mas, para que a matéria-prima seja usada na formulação de produtos cosméticos e farmacêuticos, como colírio para doenças oculares e glaucoma, é preciso que homens de comunidades locais estejam dispostos a permanecer meses dentro da floresta. E estão. É assim que 34 coletores da COEX garantem o sustento de suas famílias. A atividade exige que eles trabalhem e acampem na floresta por pelo menos 40 dias, afinal a safra dura só alguns meses (de junho a dezembro). Eles só saem da floresta por curtos períodos de descanso ou para levar as sacas que pesam até 40 quilos - que carregam nas costas, andando por quilômetros - até as caminhonetes da cooperativa, que termina o percurso até o armazém.

A COEX Carajás é formada por 39 cooperados, destes, apenas uma mulher: Ana Paula Ferreira do Nascimento, de 25 anos, presidente da cooperativa. Todos recebem treinamento para que a extração do jaborandi seja sustentável, garantindo sua conservação.

As folhas de jaborandi são retiradas com fins comerciais desde a década de 1980, mas foi apenas com o trabalho da cooperativa que puderam realizar negociações que fossem realmente vantajosas para os extrativistas, já que antes de ser legalizado, quem ditava o preço era o comprador. Atualmente o quilo é vendido por 16 reais. Eles obtêm uma receita mensal que varia de R$ 2 a 2,5 mil. Ana Paula explica que a colheita de jaborandi é sazonal, limitada a apenas seis meses do ano. Como garantir renda suficiente para a família nos demais meses? Hoje, uma das possibilidades é pela coleta de sementes nativas que são comercializadas para reflorestamento, geralmente seus clientes são projetos de mineração.

Em março de 2020, a cooperativa foi selecionada para fazer parte de uma rodada de investimentos em parceria com a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), de ação coletiva e liderada pelo setor privado.

R$ 413 mil foram captados, permitindo à COEX melhorar a estrutura do estoque, comprar mais um veículo de transporte e expandir a matriz de atividades, além de investir na capacitação dos cooperados em técnicas específicas para colher diferentes tipos de sementes. A ideia da cooperativa é diversificar os produtos comercializados e ampliar seu poder negociação com compradores.

Esperança na pandemia

A terceira rodada de investimentos da plataforma aconteceu em setembro, em parceria com o Instituto Sabin. Apesar do otimismo das equipes diante do sucesso das transações anteriores, havia um fundo de receio. Qual não foi a surpresa quando em apenas algumas horas a meta foi atingida? Ficou aí a certeza da crescente demanda, mesmo de pessoas físicas, que buscam investimentos "com propósito". Dos dois negócios selecionados pela SITAWI, um deles é o Movimento Eu Visto o Bem, que emprega detentas, egressas de penitenciárias, refugiadas e imigrantes, que ficaram de fora dos programas sociais do governo, para a confecção de roupas e acessórios.

Em sua história, o Movimento já empregou 200 mulheres em situação de vulnerabilidade, sendo o primeiro emprego formal de muitas delas. "Imagine que uma mulher egressa do sistema penitenciário já não será acolhida carinhosamente pela família e ainda terá dificuldade de conseguir uma atividade remunerada. Muitas voltam a uma situação vulnerável socialmente e financeiramente", reflete Roberta Negrini, fundadora e CEO do negócio, que deixou uma corporativa como gerente de vendas para empreender, mas desde o início com foco no socioambiental. "Eu trabalhava com mulheres que revendiam cosméticos, na região nordeste do país, e vi como suas vidas foram transformadas com a independência financeira", diz ela.

O Movimento nasceu da marca de roupas de tecidos sustentáveis Joaquina Brasil e hoje engloba vertentes de produção de uniformes, brindes e embalagens para empresas. Hoje, emprega 20 detentas do presídio feminino do Butantã, em São Paulo, que também participam de workshops profissionalizantes e palestras sobre educação financeira, autoestima, entre outros temas. Além disso, mantém um galpão de produção em que trabalham 25 mulheres, na Vila Leopoldina, em São Paulo. Dos R$ 483 mil captados, 70% será destinado para capital de giro e 30% será para a reestruturação da empresa, marketing e digitalização da marca.

"Acabamos organizando setores da empresa que, mesmo sendo pequena, exigem atenção para um crescimento estruturado. Por exemplo, falar em DRE [Demonstrativo do Resultado de Exercício] não estava na nossa pauta. Era mais contas a pagar, a receber e não olhava a longo prazo", conta Roberta.

No futuro, Roberta imagina expandir o Movimento para outras cidades do país, mas, em suas palavras: "Quero arrumar bem a casa, antes de almejar outros horizontes."

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