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Meio ambiente

Prêmio fortalece caminhos inovadores para o turismo pós-pandemia

Turistas durante passeio pelo Pantanal antes da pandemia - Divulgação/Governo do Mato Grosso do Sul
Turistas durante passeio pelo Pantanal antes da pandemia Imagem: Divulgação/Governo do Mato Grosso do Sul

Antoniele Luciano

Colaboração para Ecoa, de Curitiba (PR)

28/10/2020 04h00

Um turismo capaz de gerar desenvolvimento social e econômico, promover o protagonismo das comunidades, preservar o meio ambiente e valorizar culturas e tradições. Características que passam longe do turismo predatório, esses são pontos que dez projetos selecionados para a final do Trilhando a transformação: Desafio de Inovações em Turismo Sustentável têm em comum. Promovido pela CTG Brasil e Ashoka, o concurso, até então inédito no país, vai premiar em dezembro três propostas inovadoras para a gestão do turismo. Além de receber R$ 100 mil cada um, os vencedores participarão de um processo de mentoria e aceleração dos negócios no ano que vem.

Ao todo, foram 197 projetos inscritos de todas as regiões, com destaque para o Sudeste (53%) e Nordeste (17%). Sessenta e três se tornaram semifinalistas após serem avaliados por pares da Ashoka e CTG. Os dez que chegaram à final poderão apresentar um pitch da iniciativa a uma banca de jurados. Segundo a organização, o Trilhando a Transformação valorizou projetos que não só apontassem caminhos para o turismo no mundo pós-pandemia, mas também reforçassem questões de diversidade, para além da geográfica. Ecoturismo (55), educação (41), comunidades tradicionais (37), agroturismo (16) e turismo urbano (16) foram os principais recortes apresentados nas propostas.

Os projetos selecionados para a final são de São Paulo (2), Bahia (2), Amazonas (2), Paraná (1), Rio de Janeiro (1), Mato Grosso (1) e Santa Catarina (1). As iniciativas apresentam, de alguma maneira, conexão com populações negras e indígenas, além de comunidades locais, e uma dinâmica de economia circular. Na região do Vale do Paraíba, no estado de São Paulo, por exemplo, a Rota da Liberdade leva turistas para conhecer comunidades tradicionais negras e quilombolas, além de roteiros sobre a presença negra em diversos setores da sociedade, como na arquitetura, música, literatura e gastronomia.

A ideia foi inspirada na Rota das Abolições, que a idealizadora do projeto, Solange Cristina Virgínio Barbosa, 57 anos, conheceu durante uma viagem à França, em 2004. Em Besançon, o projeto francês envolve cenários onde se desenvolveram os dois processos de abolição da escravatura no país, a partir de histórias sobre esse período. "Tive a ideia de construir a Rota da Liberdade enquanto ainda estava lá. Se eles conseguiram fazer isso sem a presença negra, imagina aqui, que temos a história ao vivo e a cores", conta.

Solange calcula que desde 2006, quando implantou o projeto no Brasil, mais de 10 mil visitantes já percorreram a Rota da Liberdade. No início, a maior procura vinha de escolas. Depois, a rota passou a ser procurada por um público mais amplo. Hoje, visitantes negros estão entre a maioria dos viajantes recebidos.

Ao todo, são oito roteiros que abrangem 20 cidades e geram renda para as comunidades receptivas. O mais procurado é o do Litoral Norte, que reúne atividades em São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba. A proposta é dar oportunidade para que o turista conheça a região com outro olhar sobre o papel dos negros ali, como na arquitetura, com as construções que contaram com o trabalho de africanos. "Falamos de tecnologia, por exemplo, dos portões de ferro das construções. Os povos que vieram para o Brasil conheciam a tecnologia do metal. Não falamos da corrente no sentido da que prendia o pé e nem da chibata que cortava o corpo. Falamos do quanto de conhecimento e tecnologia esses povos trouxeram e o quanto interferiram e modificaram a sociedade brasileira", reforça Solange.

O Sítio Arqueológico São Francisco, em São Sebastião, faz parte da Rota da Liberdade - Divulgação - Divulgação
O Sítio Arqueológico São Francisco, em São Sebastião, faz parte da Rota da Liberdade
Imagem: Divulgação

Parceria tecnológica

As vendas dos roteiros acontecem pelo site do projeto e junto a uma startup parceira. Especializada em experiências afrocentradas, a Diáspora.Black, presente em 15 países, também é uma das finalistas do desafio. O negócio começou após o fundador, Carlos Humberto Silva, 41 anos, vivenciar situações racistas em plataformas de aluguel de hospedagem e hotéis. "Identifiquei que essas situações não eram pontuais, e em 2017 começamos a oferecer o nosso primeiro serviço, uma tecnologia de venda de hospedagem compartilhada ou aluguel de casas e quartos", relata o empreendedor.

Em seguida, vieram oferta de roteiros sobre a presença negra pelo Brasil, como a Rota da Liberdade, e treinamentos para grupos e comunidades envolvidas com o turismo. Com a pandemia, o negócio se tornou marketplace também de cursos, palestras e oficinas sobre antirracismo e a cultura negra. "Hoje temos diferentes formas de impacto social. Primeiro, trabalhando internamente, com profissionais negros, da periferia ou projetos sociais. E externamente, com geração de renda e a agenda de empoderamento e fortalecimento de identidade a partir da nossa tecnologia e curadoria", comenta Silva. Ele calcula que mais de mil mulheres negras sejam impactadas pelas vendas na Diáspora.Black. Elas representam 74% dos negócios que fazem parte da plataforma.

Outras iniciativas finalistas também abordam a perspectiva étnico-racial, com comunidades indígenas e quilombolas. Na Bahia, a Rede BATUC vem atuando desde 2015 com a articulação, capacitação e comercialização de empreendimentos de turismo comunitário. A rede está presente em sete das 13 zonas turísticas do estado e em dez dos 27 Territórios de Identidade da Bahia.

No Rio de Janeiro, o projeto Brazilidade é tocado por três mulheres negras e tem como proposta desconstruir estereótipos e valorizar o saber, o fazer, a memória, a cultura, a história e o existir na favela. A iniciativa, desenvolvida no Santa Marta desde 2010, conta com experiências guiadas, palestras e tour de educação. "Nós ficamos felizes de estar entre os finalistas, é um processo de trabalho, desenvolvimento pelo que acreditamos, o legado que queremos deixar. Participar do edital nos faz repensar o que fazer para se manter em resistência, ainda mais na pandemia", observa a idealizadora da iniciativa, Sheila Souza, 49 anos.

Famílias rurais

Em Turvo, no interior do Paraná, o turismo de base comunitária tem foco no meio rural. O projeto Gralha Azul, idealizado pelo publicitário Maurício Pilati, 24 anos, envolve a comunidade quilombola Campina dos Morenos, indígenas das aldeias Guarani e Kaingang, e familiares de imigrantes vindos da Itália, Ucrânia, Alemanha e Holanda, entre outros países europeus. "O projeto nasce da vontade de valorizar essa diversidade de uma maneira que trouxesse renda às famílias e aproveitasse o que temos", observa o jovem, que apresentou a proposta à comunidade junto com amigos. "Antes de lançar, ficamos 10 meses nos preparando. Fizemos um mapeamento, montamos trilhas, pinguelas, pesquisamos a histórias dos povos daqui, de famílias, tradições, ritos, lendas. Foi um trabalho colaborativo, de família em família, e de muita organização", pontua.

O município de 13 mil habitantes conta com cachoeiras, sítio arqueológico, cânions, cavernas e rios. São as famílias rurais que recebem os visitantes, atuam como guias, contam suas histórias, servem refeições típicas e comercializam seus produtos. Os roteiros são personalizados, passando pelo turismo de aventura, rural e cultural. Em um ano e meio, foram recebidos 1,4 mil visitantes pagantes e 400 estudantes, na modalidade gratuita. "É um turismo de base comunitária, com a renda arrecadada circulando dentro do município", assinala Pilati.

Nascida em Santa Catarina, a Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia também aposta no contato com famílias rurais como fator de desenvolvimento de territórios sustentáveis. Por meio do projeto, visitantes podem conhecer o dia a dia da agricultura familiar, ver atividades produtivas, ouvir histórias e partilhar refeições, além de fazer compras diretamente com produtores rurais. Hoje, a Acolhida tem cerca de 200 unidades familiares distribuídas por 29 municípios, incluindo os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. No ano passado, cerca de 30 mil pessoas circularam pelas unidades associadas.

O projeto Gralha Azul envolve a comunidade quilombola Campina dos Morenos, indígenas das aldeias Guarani e Kaingang, e familiares de imigrantes europeus - Divulgação - Divulgação
O projeto Gralha Azul envolve a comunidade quilombola Campina dos Morenos, indígenas das aldeias Guarani e Kaingang, e familiares de imigrantes europeus
Imagem: Divulgação

Conservação

O turismo como vetor de conservação ambiental e inclusão econômica é o foco do Instituto Sustentar. O projeto da entidade começou com o ecólogo norte-americano Douglas Trent, 63 anos, o primeiro operador de turismo de natureza no Brasil. Na década de 1980, ele propôs aos pantaneiros de Poconé, no Mato Grosso, ajuda para ingressar no ecoturismo se deixassem de caçar onça-pintada. A ideia é que eles passassem a ganhar dinheiro mostrando os animais aos turistas. "Não tive muito trabalho para convencê-los porque eu já tinha amizade com eles, já tinha sido convidado para ser pantaneiro", lembra o ecólogo.

Segundo ele, recursos foram levantados junto a pré-reservas de turistas estrangeiros e uma pousada foi erguida. A comunidade teve aulas de inglês com voluntários americanos e também aprendeu a guiar visitantes. Ao mesmo tempo, o trabalho buscou fazer a transição do turismo de pesca para o turismo de observação de vida silvestre, com inclusão social e econômica de artesãos, pequenos proprietários rurais, ribeirinhos e guias turísticos. Em 2013, o projeto passou a contar com recursos de um edital da Petrobrás.

Foi criada a Rede de Cooperação Bichos do Pantanal e, após um inventário de espécies da fauna da região, foi identificada uma rota alternativa chamada de Estrada Turística Transpantaneira. Hoje, dez anos após o início dos trabalhos, a organização calcula que o turismo de observação na região proporcione cerca de 7 milhões de dólares anuais e seja fonte de renda para 50 famílias do Pantanal. Neste ano, a rede de cooperação também criou a Ação Bicho Vivo, que resgata animais vítimas de incêndios na região de Cáceres.

No Amazonas, o Poranduba Amazônia trabalha desde o ano passado com a proposta de fortalecer o turismo sustentável na região do Baixo Rio Negro. Trata-se de uma agência de turismo criada por moradores da comunidade. A iniciativa busca instrumentalizar ribeirinhos a exercerem funções ligadas ao turismo e a adotar boas práticas de saneamento e gestão de resíduos.

Já o Instituto Mamirauá tem um projeto considerado pioneiro para o desenvolvimento socioeconômico e a conservação da Amazônia. O trabalho ocorre há mais de 20 anos por meio da Pousada Flutuante Uacari, empreendimento no meio da Floresta Amazônica, município de Uarini, que busca mitigar a baixa renda da população local e contribuir para a conservação dos recursos naturais. Desde 1998, o projeto gerou mais de R$ 4 milhões diretamente às 11 comunidades envolvidas, por meio de venda e prestação de serviços e a distribuição da taxa socioambiental. A gestão da pousada é compartilhada com associações comunitárias.

Clima

E se todas as emissões de gases do efeito estufa (GEE) geradas por viagens pudessem ser compensadas? Também entre os finalistas, o projeto Turismo CO2 Legal - Guardiões do Clima atua com o engajamento para essa compensação, restauração de florestas, enfrentamento à crise climática e inclusão socioeconômica de grupos em situação de vulnerabilidade na Bahia.

A iniciativa teve início em 2009, no Litoral Sul do estado, e resultou no desenvolvimento de uma tecnologia socioambiental que permite a compensação da emissão de GEE por empreendimentos e turistas, através de pagamento. No caso de agricultores e populações tradicionais, a compensação é feita por meio da conservação de florestas e restauração de áreas degradadas e da agricultura de baixo carbono. Há ainda o pagamento por serviços ambientais para agricultores que assumem compromissos na área e a criação de um cartão de viagens que dá descontos de 5% nas compras de turistas que compensam essas emissões.

Um outro turismo

Para o líder de empreendedorismo social da Ashoka Brasil, Rafael Murta Reis, o desafio conseguiu deslocar o turismo do "mainstream" para um outro lugar em que também é praticado e vivido - e deve ser valorizado. Segundo Reis, chamou atenção o fato de boa parte dos projetos inscritos estarem conectados com populações indígenas e negras e conseguirem fomentar o turismo sem criar a dependência de uma ferramenta tecnológica para existir. "As pessoas têm se preocupado em pensar um turismo que dialogue com economia de baixo carbono, com redução de impacto da circulação de pessoas em determinados territórios, principalmente parques nacionais, terras indígenas. Esse olhar para o futuro para repensar a economia, essa conexão com mudanças climáticas, a terra, com uma forma diferente de se estar no mundo é traduzida nesses projetos que encontramos", sustenta.

A diretora de Marca, Comunicação e Sustentabilidade da CTG Brasil, Salete Hora, comenta que se surpreendeu com a quantidade e a diversidade de propostas inscritas no desafio. "Foi de fato nacional, temos projetos de todas as regiões, coisas bem diferentes que as pessoas estão fazendo. Foi bem bacana", diz.

Além do concurso, o Trilhando a Transformação lançará o Mapeamento de Tendências de Inovação Social para o Turismo Sustentável no Brasil. A publicação deve ser divulgada junto com os projetos vencedores do desafio e incluir iniciativas que não participaram da seleção. A ideia é mostrar como está o cenário no setor, com exemplos que possam ilustrar as possibilidades do turismo sustentável pelo país.

Cerca de R$ 2,1 milhões estão sendo investidos pela CTG Brasil no projeto, por meio de recursos destinados ao Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico do Setor de Energia Elétrica, promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Mais informações sobre os finalistas podem ser vistas no site do desafio.

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