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Jovem com paralisia cerebral se forma, lança livro e prepara mais obras

Rafael Luiz da Silva Santos durante sua formatura em Letras - Arquivo pessoal
Rafael Luiz da Silva Santos durante sua formatura em Letras Imagem: Arquivo pessoal

Felipe Pereira

Colaboração para Ecoa, de Campinas (SP)

25/10/2020 04h00

A força de vontade e o desejo de lançar um livro motivaram um jovem de 28 anos de Santos (SP) a superar dificuldades impostas pela paralisia cerebral. Rafael Luiz da Silva Santos não só lançou o sonhado livro, como se formou em Letras e viu a mãe, que o acompanhava em todas as aulas, compartilhar a conquista de um diploma.

Quando Maria Izabel Silva, hoje com 63 anos, ficou grávida, a alegria era imensa. Mas viu a reta final da gestação ser afetada por uma série de dificuldades. Na 28ª semana, Izabel teve um problema de oxigenação. O bebê ficou sem ar, e ela teve de passar por uma cesariana de urgência.

Após nascer prematuro e ficar internado em uma Unidade de Terapia Intensiva neonatal, o desenvolvimento de Rafael acabou afetado pela falta de oxigênio no cérebro. Aos sete meses, o bebê não sentava e também não dava indícios de balbuciar suas primeiras palavras.

"Fiquei desesperada. Perguntei o que tinha acontecido com meu filho. Foi uma dor imensa", contou. Rafael desenvolveu paralisia cerebral, mas teve afetada apenas a coordenação motora. Outras funções, como a cognição, permaneceram intactas.

A formação no ensino fundamental aconteceu por meio da Associação de Apoio a Criança com Deficiência (AACD), mas Rafael queria mais.

"Ele queria porque queria fazer faculdade. Então, o levei para uma prova na Universidade Paulista, em Santos. Ele fez a prova com apoio de uma moça, que disse que ele era muito inteligente", conta a mãe.

O curso estava claro para ele há muito tempo. "Era letras, sempre foi. Mas eu não sabia o que colocar como segunda opção. Aí escolhi administração", explicou.

Nem precisou de uma alternativa. Rafael passou no vestibular.

A "Flor" madrinha

Rafael Luiz da Silva Santos acompanha aula no curso de Letras - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O início das aulas trouxe um desafio para a família. Maria Izabel precisava acompanhar o filho para anotar as atividades no caderno e também fazer as provas. O que Rafael ditava, a mãe colocava no papel.

As coisas começaram a mudar quando a coordenadora do curso, Florcema Bacellar, a Flor, teve uma ideia.

"Já que ela estava lá fazendo as aulas junto com ele, porque não fazer o vestibular e também se formar? Foi aí que comecei a plantar essa semente na cabeça dela", diz a coordenadora a Ecoa.

"Costumo brincar que a Flor foi uma 'madrinha' pro meu curso. Eu não imaginava voltar a fazer faculdade, de jeito nenhum. E ela insistiu tanto que decidi", explica Maria Izabel. E ela não se arrependeu. De "fantasma" na sala (já que ela estava lá apenas para dar apoio ao filho), passou a ser uma aluna com todos os direitos.

"Vou confessar que eu achei estranho ver minha mãe ali como aluna, mas isso foi um grande incentivo para mim", conta Rafael. Como a mãe não poderia mais ajudá-lo com as provas, a faculdade se adaptou para garantir o acesso do jovem.

"A vinda do Rafael fez a gente mudar alguns dos processos. Como ele usava um notebook e conseguia escrever bem por ali, orientamos os professores a fazer uma versão da prova virtual para que ele pudesse responder as questões", conta a coordenadora.

Ela ajudou até a criar uma vaquinha para comprar uma nova cadeira de rodas elétrica para Rafael, por que a anterior estava danificada. "Ele nos trouxe para uma modernidade que a gente talvez só teria visto agora, por causa da pandemia", finaliza.

A colação de grau ocorreu com uma diferença de seis meses entre mãe e filho. Ao fim do ano, os dois estavam diplomados em Letras.

"Chorei, chorei e chorava. Não só por mim, mas pelo Rafa. Aos 25, ele conseguiu!", diz Izabel. E ela também, aos 60.

Autor publicado e edição esgotada

Ainda durante a faculdade, Rafael aproveitava as madrugadas para botar a criatividade no computador: escrevendo poesias.

"A noite é bem melhor, não tem barulho da rua, é uma paz", argumenta o jovem.

Rafael Luiz da Silva Santos celebrar o lançamento de seu primeiro livro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Depois de seguir nas redes sociais a editora independente Costelas Felinas, de São Vicente (SP) e de muito insistência, o livro nasceu, três anos após a formatura.

"O Pulsar de Meus Devaneios e Outras Utopias" teve uma tiragem discreta: cinco unidades, a R$ 25 reais mais a entrega. Todas foram vendidas.

Uma segunda edição, com 50 unidades, deve ser entregue nos próximos dias. E, para o ano que vem, mais um lote já está encomendado. Rafael também prepara o segundo livro, novamente no silêncio das madrugadas.

Com a venda dos exemplares pretende trocar o computador, o mesmo de quando estava na faculdade, por um novo.

"Quem disse que há limites? Eu quero ir até onde puder", afirma Rafael.

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