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Papo Preto #7: Como a escola afeta o processo de aceitação do jovem negro?

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

24/10/2020 04h00

"Por isso existe tanta gente racista, porque na escola se ensina o racismo". A declaração do apresentador Yago Rodrigues (a partir de 31:12 do arquivo acima) é forte. Mas reflete exatamente as vivências experimentadas por ele e todos os convidados do sétimo episódio do Papo Preto - e, certamente, de muitos outros jovens negros.

A escola é um microcosmo onde uma série de diferentes violências de raça podem acontecer, e acontecem. Na escola, estão a falta de representatividade, a história hegemônica do Brasil, os obstáculos de afeto. Não raro, é lá que o jovem se descobre negro através justamente da discriminação. Os relatos do participantes do coletivo Black on Black, que trata justamente da autoestima do jovem negro, mostram que a escola está longe de ser a aliada que deveria ser na luta antirracista e no processo de aceitação do jovem negro.

A começar pelo próprio conteúdo. "Na quarta série, a gente estuda História. Então, automaticamente, o primeiro relato que vem do negro é o escravo. Vem escrito grande lá na foto: navio negreiro. Aí o pessoal faz aquela piadinha, são seus parentes, seu irmão, sua avó", conta Lucas Loures (a partir de 6:06 do arquivo acima).

A aula de História da quarta série ainda causaria um episódio extremamente cruel. A professora decidiu montar uma peça teatral em que Lucas e o outro único negro da classe interpretariam escravizados. No dia da apresentação, ela rasgou a roupa nova de Lucas. "Ela falou 'negro não usa assim'. Simplesmente pegou uma tesoura, cortou minha blusa, amassou e jogou no chão. Vesti e ela falou: 'assim tá perfeito'", conta (a partir de 27:04 do arquivo acima). Mas a situação ainda piorou quando ela pediu que outro aluno, branco, executasse seu papel "com mais realismo": "Ela pegou o chicote da mão dele e disse 'faz assim'. Bateu com o chicote quatro vezes na minha coxa. Fiquei muito triste, muito triste, muito triste". Ele tinha dez anos.

Os anos escolares foram considerados difíceis por todos. "Eu achava que ia resolver tudo na mão. Os cara me zoavam, me chamavam de macaco, de preto, me zoavam muito. Eu partia pra briga, era o único jeito de as pessoas me ouvirem", diz Marcos RB (a partir de 13:17 do arquivo acima). "Na moral, a escola foi uma fase difícil. Fui para secretaria muitas vezes, psicóloga, já conversei muito, porque foi difícil, né? Eles diziam 'não é assim que resolve as coisas'. Mas me diz, como uma criança vai resolver as coisas na escola? Você fala, ninguém escuta".

O apagamento também foi sentido pelas meninas. "Os meninos faziam listinha numerando as meninas bonitas, e a gente era sempre as últimas, só por ser negra", conta Vitória (a partir de 14:50 do arquivo acima). "Cheguei a perguntar para uma amiga de colégio como era ser branca, porque os meninos olhavam para ela, achavam ela bonita. E eu não tinha isso, sabe? Sempre que estava do lado, me sentia apagada".

A ausência de professores negros não ajuda. Lucas, que passou pela episódio violenta da peça teatral, sabe disso, e hoje está se formando em História.Ele conta que só teve professores negros no Ensino Médio, e que o contato com eles mudou sua percepção até mesmo histórica. "Toda criança passa muito tempo na escola, então automaticamente isso (racismo) acontece muito dentro da escola. Eu tô formando em História porque quero mostrar também que não é só esse ponto de vista de que o negro foi escravo e acabou, entendeu?", afirma (a partir de 25:26 do arquivo acima).

O podcast Papo Preto vai ao ar sempre às quartas-feiras e é produzido pelo Alma Preta, uma agência de jornalismo com temáticas sociais, em parceria com o UOL Plural, um projeto colaborativo entre o UOL e coletivos independentes.