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Pesquisador do Ipam: "Contra ciência, não há retórica política que resista"

Imagem aérea mostra região do Pantanal devastada após queimadas - Rafael Visentainer/Arquivo Pessoal
Imagem aérea mostra região do Pantanal devastada após queimadas Imagem: Rafael Visentainer/Arquivo Pessoal

Diana Carvalho

De Ecoa, em São Paulo

05/10/2020 04h00

De um lado, a "soberania inegociável" do Brasil. Do outro, uma ameaça econômica para que o país coloque em prática medidas efetivas contra o desmatamento na Amazônia e no Pantanal. As queimadas colocaram o país no primeiro debate presidencial dos Estados Unidos, na semana passada.

"A floresta tropical no Brasil está sendo destruída. Parem de destruir a floresta! E, se vocês não pararem, irão enfrentar consequências econômicas significativas", disse o democrata Joe Biden, que também prometeu, caso eleito, a ajuda de US$ 20 bilhões (R$ 112,6 bilhões) no combate às queimadas no país.

"Essa questão da ameaça [do Biden], infelizmente, é só mais uma. Desde agosto, do ano passado, o Brasil vem sofrendo críticas, principalmente do mercado europeu, ameaçando retirar investimentos, caso nada seja feito na questão ambiental. E por que? Porque não querem associar suas marcas, seus países, ou impostos dos seus contribuintes em produtos que financiam o desmatamento", diz o ambientalista Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Ele entende que o auxílio financeiro pode ajudar a capacitar o Estado no combate ao desmatamento, porém não resolverá o problema. "Mas o nosso problema não é dinheiro, o nosso problema é o presidente da República. Tanto é que a gente tem dinheiro no Brasil. O próprio Ricardo Salles usou apenas 0,4% do orçamento que ele tem para o ano para a questão ambiental", afirma.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) classificou a declaração de Biden como lamentável e fez referência a uma suposta cobiça de alguns países sobre a Amazônia. Segundo ele, o Brasil teria mudado: "Nossa soberania é inegociável" e afirmou que o governo não "aceita subornos, criminosas demarcações ou infundadas ameaças".

Para Astrini, esse argumento é uma velha tática para não admitir a falta compromisso com a agenda ambiental e para negar a realidade. "Esse tipo de cobrança aliada a uma possível retaliação econômica causaria preocupação em qualquer governo e provocaria uma mudança de postura. O governo atual não tem nenhum plano, nenhuma meta, estratégia, e muito menos vontade de combater o desmatamento", afirma.

Pesquisador-sênior do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Paulo Moutinho, que estuda há anos as causas do desmatamento e suas consequências para a biodiversidade, vê crescer a pressão por parte de líderes mundiais com relação à política ambiental do país. Em contrapartida, não vê no governo brasileiro uma preocupação em acabar com as queimadas e desmatamento por meio de atitudes, e não de palavras e troca de acusações.

"Isso é o mais grave. Independente do exagero que alguns destes posicionamentos externos possam conter, o governo deveria deixar a retórica de lado, parar de culpar ONGs ou a imprensa pelo problema, e partir para a ação planejada e efetiva no combate ao desmatamento ilegal e queimadas na Amazônia. Contra imagens de satélites e a ciência, não há retórica política que resista por muito tempo", avalia.

Para os especialistas ouvidos por Ecoa, uma agenda socioambiental consistente é o passaporte do Brasil para o futuro. "Enquanto outros países estão reduzindo suas emissões, até por conta da crise provocada pela Covid-19, o Brasil precisa lidar com queimadas e desmatamentos recordes. Nosso futuro está na manutenção de uma agricultura pujante, mas que seja efetivamente sustentável. Só assim poderemos ser uma potência agropecuária e, ao mesmo tempo, uma potência socioambiental biodiversa", aponta Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA).

Diminuir o desmatamento é totalmente possível. E digo isto porque já conseguimos este objetivo no passado. Entre 2005 e 2012, derrubamos a taxa de desmatamento na Amazônia em 80%. No mesmo período, dobramos a produção de carne e grãos. Conhecemos todos os elementos que funcionam para reduzir o desmatamento. Precisamos coloca-los em prática.

Paulo Moutinho, pesquisador-sênior do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia)

"Soberania seletiva"

Na visão do sócio-fundador do Instituo Socioambiental, a imagem e postura de Bolsonaro podem levar o Brasil para um plano extremamente negativo, que, no futuro, terá que lidar com a aprovação de sanções e outras retaliações causadas pela irresponsabilidade ambiental.

Já Márcio Astrini levanta outro ponto: a soberania nacional. "Chega a ser engraçado. Não faz muito tempo ele convidou o próprio Trump para explorar as riquezas minerais da Amazônia junto com ele. Então, essa 'soberania' me parece seletiva ", diz.

A mesma opinião tem Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), que cita a atitude do presidente brasileiro ao prolongar a isenção do etanol importado dos Estados Unidos, num momento em que o setor no Brasil sofria com a queda do consumo.

"Fala-se em soberania nacional, mas o presidente suspendeu taxas de importação do etanol americano, em detrimento da produção nacional, para interferir indevidamente e favorecer Trump nas eleições", conclui Santilli.

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