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Afro Presença: Quando não há inclusão intencional de negros, há exclusão

A comunicadora Christiane Pinto foi uma das convidadas do segundo dia de Afro Presença - Keiny Andrade/Folhapress
A comunicadora Christiane Pinto foi uma das convidadas do segundo dia de Afro Presença Imagem: Keiny Andrade/Folhapress

De Ecoa, em São Paulo

02/10/2020 04h00

Não basta apenas garantir a inclusão, é preciso trabalhar a permanência e a empregabilidade de jovens negros que chegam ao ensino superior. Esse foi o mote do segundo dia de debates do encontro virtual Afro Presença, idealizado e coordenado pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) e realizado pelo Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas), com transmissão ao vivo de Ecoa.

Ao discutir o acesso igualitário às universidades, o evento contou com a participação dos reitores José Vicente, Dácio Matheus e Manuel Furriela, da Faculdade Zumbi dos Palmares, Universidade Federal do ABC (UFABC) e FMU, respectivamente. Eles ressaltaram a importância da lei de cotas para estudantes negras e negros, mas reforçaram a necessidade de mais ações efetivas no que diz respeito à permanência no ambiente acadêmico.

"Além de defender a lei de cotas, um dos grandes desafios agora é qualificar a permanência desses estudantes nas universidades. A UFABC conta com uma comissão de políticas afirmativas para trabalharmos em todas as áreas da universidade. Temos ainda um programa de cotas na pós-graduação para pardos, pretos indígenas, e criamos, durante a pandemia, um programa de inclusão digital, com doação de computadores para estudantes de baixa renda", contou Dácio Matheus.

Para Manuel Furriela, da FMU, instituições de ensino, públicas e privadas, devem garantir o acesso a estudantes negros como uma responsabilidade de resgate histórico. "A educação, principalmente num país tão desigual quanto o Brasil, é uma das principais ferramentas de ascensão social. Por isso, as instituições têm que trabalhar também para receber mais estudantes negros para que a sociedade avance e contribua com esse resgate. E não devemos ser os únicos, é preciso que as empresas cumpram o seu papel no mercado de trabalho e os órgãos governamentais também, em concursos públicos."

"Nós percebemos como foi enriquecedor para o ambiente acadêmico ter um ambiente mais diversificado. Ao melhorar o acesso à instituição de ensino, ampliamos a riqueza de debates. O âmbito universitário se torna enriquecedor quando é feito de debates de visões e vivências distintas".

Mediadora da conversa, Silvia Virginia S. Souza, advogada e membro da Educafro, cita o PROUNI (Programa Universidade para Todos), criado em 2004 e que concede bolsas de estudo integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior.

"O PROUNI é também um resultado da luta do movimento negro. O objetivo, naquela época, é que a lei fosse a primeira política de cotas do Brasil, já que ela traz esse recorte social e financeiro e proporciona a inclusão de muitos estudantes de baixa renda, negros, no ensino superior privado. Eu sou um exemplo disso, só na pós-graduação é que entrei em uma universidade pública. E conheço muitos estudantes que tiveram nesse programa a primeira oportunidade de fato de cursar um ensino de qualidade", diz.

Na opinião de José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, o papel de políticas afirmativa e da lei de cotas, já está consolidado no país, e serve para comprovar justamente o que já se sabia, que a diversidade tem um valor extraordinário em qualquer segmento. "A diversidade soma, e ela permite que se forme cidadãs e cidadãos muito melhores e um conhecimento acadêmico com maior valor agregado", afirma.

"Hoje, nós estamos diante de uma oportunização. E a grande questão é: por quê não descobrimos isso antes? Por que não descobrimos que era só ter feito isso no passado? Veja o caso do [programa de] trainees para negros da Magazine Luiza, é um outro exemplo claro: por que não fizemos isso antes? É tão fácil, não tem dificuldade nenhuma. De repente, alguém se posiciona, tem a ideia, e constrói o novo. Com uma ação simples, sem disparar uma bala, sem qualquer transformação mais profunda", completa.

Estética negra

As influenciadoras digitais Ana Paula Xongani e Gabi Oliveira, a designer de moda autoral Carol Barreto, o modelo Lucas Silvestre e o fotógrafo Roger Cipó estiveram com a mediadora e jornalista Carol Anchieta para falar sobre estética.

"Sempre entendi a estética como gancho que alcançaria a população negra porque uma menina, em 2015, talvez não procurasse sobre racismo estrutural, mas pesquisava sobre como finalizar seu cabelo crespo", afirmou Gabi de Oliveira, que também desmistificou a produção de conteúdo, falando sobre sua experiência no Youtube, ressaltando a dificuldade que é conseguir atingir um público expressivo sendo uma mulher negra. "Quando as pessoas trazem essa narrativa que o Youtube é lugar democrático, onde todas as pessoas podem colocar seus vídeos e ter sucesso? Só que a gente sabe que a coisa não funciona dessa forma", ao contar sobre como as redes sociais tendem a priorizar conteúdos produzidos por pessoas brancas.

A conversa que passou por diversas áreas da produção estética no Brasil, seja por meio da moda ou do audiovisual, abordou a necessidade de produtores de conteúdo, estilistas e artistas se apresentarem também como ativistas, já que se torna impossível desassociar a produção apresentada por eles da própria vivência como pessoas negras em cada área.

Para Ana Paula Xongani, apesar da moda ser dominada por estilistas e modelos brancos, "historicamente, mãos pretas fizeram moda nesse país. É só fazer o exercício básico de se perguntar: quem costurava roupa nesse país?", relembrando das gerações e gerações de mulheres negras que ganharam a vida costurando peças.

Recorte de gênero

"Historicamente mulheres negras sempre estiveram em condição de vulnerabilidade. Mas por outro lado são líderes por natureza, e sobrevivem a mecanismos excludentes", afirmou Alessandra Benedito, Consultora em Estratégias de Inclusão e Gestão das Diversidades nas Organizações. Com ela, estavam Valdecir Nascimento, coordenadora executiva na Odara Instituto da mulher Negra, Katiúcha Watuze, co fundadora do coletivo Pretaria, Lívia Maria Santana e Sant'Anna Vaz, promotora de justiça do Ministério público do Estado da Bahia, Dayana Pinto e a pedagoga Dayana Pinto na mesa "A importância do recorte de gênero na luta antirracista". A mediação foi de Elisa Lucas Rodrigues.

"Nós precisamos estar em todos os espaços de poderes e decisão, em especial na política para transformar esses espaços. Respondendo à pergunta que é se centrarmos o olhar na mulher negra conseguimos transformar esse país, eu digo que sim! Porque não são as mulheres negras que precisam do sistema de justiça, da política? É o contrário! São esses espaços que precisam de nós para garantir diversidade, pluralidade de olhares e, portanto, garantir que a gente tenha um país democrático", afirmou Lívia.

Repensando ações afirmativas

A importância de formular um plano de ação para ampliar o sistema de cotas para além do que existe hoje foi o assunto principal do debate da mesa "Políticas de ações afirmativas", a penúltima mesa do dia, que contou com a presença dos professores José Jorge de Carvalho, Elisabete Aparecida Pinto e Hélio Santos e da procuradora regional do trabalho, Adriane Reis de Araújo.

Para eles, para contemplarem uma maior quantidade de negros e negras, torna-se necessário ampliar a porcentagem de vagas destinadas a cotas tanto em instituições de ensino quanto no mercado de trabalho. O mediador da conversa, Maurício Pestana, jornalista e cartunista, iniciou o debate falando da importância das ações afirmativas para garantir a inclusão da maior parcela da população brasileira que se considera negra em espaços majoritariamente brancos.

"Enquanto não tiver um sistema de cotas completo nunca haverá democracia no Brasil", enfatizou o professor José Jorge ao relembrar que durante a História brasileira, nunca houve um processo de reparação histórica para negros no país. "Nós já deveríamos estar na quarta geração da inclusão racial" completou, dizendo que se as cotas tivessem sido implantadas logo após o final oficial do período de escravidão, hoje a quantidade de profissionais em diversas áreas como a comunicação ou a política, por exemplo, seria maior.

Durante o debate, uma mesma frase apareceu com frequência: "cotas não são definitivas", por isso, repensar sobre os erros e acertos do sistema nos últimos anos é necessário para pensar no futuro das ações afirmativas. Um exemplo de quais podem ser os próximos passos para as ações afirmativas no Brasil foi dado por Elisabete Aparecida Pinto. Para ela, é preciso estar atento ao fato de que as instituições de ensino superior hoje no Brasil não devem ser as únicas a garantir um processo seletivo que direcione vagas para pessoas negras. "O espaço de trabalho ainda é especial para a gente buscar melhorar e ampliar a questão das ações afirmativas. A questão não se engessa com a entrega dos certificados e diplomas para aqueles que conseguiram sair da universidade", diz.

Helio Santos levantou a importância de se repensar as cotas conforme a quantidade demográfica de negros nas regiões em que são implantadas. Quando questionado pelo mediador se um dia não será mais preciso ter ações afirmativas, o professor respondeu que "para caminhar em direção ao fim das contas, nós precisamos de políticas afirmativas mais eficazes. Eu dou um exemplo: Vivo hoje em Salvador com 85% de negros e as costas no serviço público aqui são de 30%. Eu pergunto se políticas desse tipo vão nos levar ao esgotamento? Não!"

Já Adriane Reis Araújo relembrou como o sistema de cotas pode, inclusive, valorizar as empresas que o adotarem, como no caso da Magazine Luiza que após anunciar um programa de trainee exclusivamente para pessoas negras viu suas ações aumentarem.

Pessoas negras na mídia

A última mesa da noite reuniu personalidades da comunicação para falar sobre representatividade negra na mídia. O publicitário Felipe Silva foi o mediador do papo entre os atores Jonathan Haagensen e Val Perré, o comediante Hélio de la Peña e a comunicadora Christiane Pinto.

Jonathan abriu o debate rememorando o livro "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus e considerada uma das primeiras obras escritas por uma pessoa negra sobre si, e para abordar como ainda é difícil ver produções artísticas ou publicitárias produzidas por pessoas negras.

"Se você for ver na História do entretenimento, quem regeu a narrativa foi só um lado, um ponto de vista branco. Nós negros não temos acesso aos meios de produção, ao poder da escrita. Porque é a caneta que constrói. E não só o roteiro, mas o contrato. O impacto final disso é a representatividade positiva do negro", afirmou o ator.

Val Perré, concordando com Jonathan, contou como sempre que o ofereciam papéis para atuar, o personagem era escravo ou um bandido. A violência sempre estava presente e o amor não. "O branco conta a História dele e ainda se autoriza a contar as nossas Histórias", disse o ator, que categorizou esse ato como uma "violação de direito inadmissível."

Para todos no debate, a narrativa de pessoas brancas controlando imagens de representação de pessoas negras ainda é uma constante, o que acaba moldando o imaginário do público brasileiro em relação ao papel do negro na sociedade, destinado a estar sempre representado como escravo ou o bandido.

Os poucos aspectos que avançaram, porém, precisam ser comemorados, como ressaltou Hélio de la Peña. "Existem vários avanços, mas é muito mais lento do que a gente deseja. Mas se você perguntar para seus pais e seus avós, eles vão falar que você andou muito para frente. A gente tem que relativizar as coisas para também não ficar só num discurso para baixo," afirmou ele, que também chamou atenção para outro fator: "Estamos discutindo a presença do negro na televisão justamente quando a TV está diminuindo de importância. A gente tem de ocupar esses espaços, mas temos que ficar de olho nas novidades que estão surgindo," referindo-se principalmente a espaços nas redes sociais.

O dia de debate foi encerrado com uma frase que resume bem os assuntos abordados no decorrer das mesas:

"Se você não está incluindo intencionalmente, você está excluindo mesmo que sem querer. Se não for uma marca, produtora, canal quebrando estereótipos ativamente, você provavelmente está ajudando a mantê-los e reforçá-los."
Christiane Pinto

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