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Papo Preto #3: Quais histórias estamos deixando de contar?

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

26/09/2020 04h00

Muitos dos homenageados com monumentos, praças e nomes nas cidades brasileiras são personagens históricos protagonistas de violência, genocídio e opressão. Além de representar uma opção reiterada por símbolos de opressão hegemônica, essas escolhas apagam outras histórias. Sobre isso, o jornalista Guilherme Dias entrevista Hélio Menezes, antropólogo e curador de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo, e Érika Hilton, co-deputada da Bancada Ativista, no terceiro episódio do podcast Papo Preto.

"Me interesso em erigirmos, quem sabe, novos monumentos, concretos ou simbólicos, que homenageiem Carolina Maria de Jesus. Que homenageiem a Luís Gama, que homenageiem Grande Otelo, Conceição Evaristo. Que homenageiem outras tantas intelectuais, artistas, ativistas, pensadoras e pensadores, negras e negros, indígenas, pobres, dissidentes de um modo geral em nosso país", diz Hélio (ao partir de 16:59 no arquivo acima). "São esses os heróis e heroínas, se é que esse termo ainda serve para pensar a nossa história".

As histórias não contadas são, muitas vezes, a do povo preto. Mas há muitas intersecções de apagamento. "Nós temos um grande apagamento da nossa história", diz Érika (ao partir de 21:59 no arquivo acima). "O epistemicídio é um problema imenso para que nós possamos reconstruir a história da população negra e, principalmente, a população negra LGBTQIA+".

Érika cita o exemplo de Xica Manicongo, negra escravizada no Brasil do século 16. Xica era o que, na época, se chamava cudina, identidade de gênero que encontra paralelo contemporâneo nas travestis e transexuais. A história de Xica, a primeira cudina do Brasil, é pouco conhecida, e apagada em seus próprios registros. Apenas recentemente, por exemplo, ganhou seu nome social, já que até o século 20 os historiadores usavam os nomes masculinos de registro para falar de travestis ou mulheres trans. Trazida do Congo, foi batizada como Francisco pelos cristãos brasileiros. Mas era como mulher que circulava pelas ruas de Salvador até seu embate com a Inquisição católica.

"Quando paramos para estudar quem são esses sujeitos - seja no plano político ou econômico que possibilitam a construção desses monumentos, seja no plano simbólico discursivo de preparação do terreno intelectual para a celebração entre muitas aspas desses assassinos em nossos espaços públicos -, vê que são, em sua grande maioria, homens", diz Hélio (a partir de 25:00 do arquivo acima). "Homens brancos. Homens brancos de meia-idade. Homens brancos de meia-idade com comportamento ou identidade pública heterossexual - ainda que as suas práticas privadas definitivamente não me interessem". Ele continua: "Então, é óbvio que não vamos encontrar figuras como Xica Manicongo, como Madame Satã".

Papo Preto é um podcast produzido pela agência Alma Preta em parceria com o UOL Plural, com episódios inéditos sempre às quartas-feiras. Este episódio é apresentado pelo videomaker Yago Rodrigues.

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