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Marcas de automutilação ganham novo significado nas mãos de tatuador

Tatuagem feita dentro do projeto "Cicatrizes" para ressignificar marcas de automutilação - Arquivo pessoal
Tatuagem feita dentro do projeto "Cicatrizes" para ressignificar marcas de automutilação Imagem: Arquivo pessoal

Isabella Garcia

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

26/09/2020 04h00

"Abri minha consciência de uma forma que nunca tinha feito antes. Senti uma energia tão poderosa e grande dentro e fora de mim, que comecei a tomar consciência da minha verdade e os pontos que precisava melhorar. Foi desafiador, mas fantástico, pois percebi o quanto sou forte, capaz e especial." O relato da jovem Carolina Pecsén, 21, mostra quão transformador pode ser o processo de ressignificação da dor e de experiências traumáticas.

Ela foi uma das participantes do projeto "Cicatrizes", criado pelo tatuador Pietro Marinho. Impulsionado pelo Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio, o artista usa a tatuagem como ferramenta para dar novo significado às marcas de automutilação.

"As marcas que antes eram olhadas com vergonha, se tornam um desenho com toda uma história em volta. Isso acontece graças à conversa e energia que trocamos" comenta Pietro.

Além da parte artística, ele desenvolve com essas pessoas um trabalho de escuta e cura, baseado na medicina indígena e na espiritualidade. A motivação para o projeto foi sua própria experiência. Mahadevil, como é conhecido artisticamente, sofreu com homofobia e teve quadros de depressão e ansiedade. Ao longo de sua carreira, conta, sempre tatuou pessoas com cicatrizes e com vivências semelhantes à sua.

Por isso e com a urgência de dar atenção ao debate sobre saúde mental e prevenção do suicídio, o artista resolveu fechar sua agenda nesse mês e se dedicar integralmente a este trabalho que ele faz de graça.

O tatuador Pietro Marinho, criador do projeto "Cicatrizes" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O tatuador Pietro Marinho, criador do projeto "Cicatrizes"
Imagem: Arquivo pessoal

Em seu estúdio em São Paulo, atende uma única pessoa por dia para conseguir dar a atenção que o processo pede. Tudo começa com uma conversa para que ele possa saber a trajetória desse cliente e entender se está de aberto a participar de todo o ritual que consiste em oração, meditação, limpeza espiritual e só depois a tatuagem.

"Não faço apenas uma arte em cima de uma cicatriz para ressignificar aquela energia. Eu vou lá na raiz da memória, da mágoa, do ressentimento, da criança interior. Entendo o porquê daquela marca e, então, trabalho para arrancar o mal pela raiz. Esse processo consiste em uma limpeza espiritual, pois às vezes uma lembrança fica impregnada em algum órgão do nosso corpo e precisa sair, se não adoece a alma. Para isso acontecer, utilizo a ayahuasca, sananga e rapé, que são medicinas xamânicas e rituais muito fortes. Também trabalho com um método do Havaí de limpeza de memórias que se chama Ho'oponopono cujo mantra é: 'Sinto muito, me perdoa, eu te amo e sou grato'. Trago também a medicina indígena. Após essas etapas o desenho é criado, pois acredito que a tatuagem não é apenas uma estética, ela muda uma vida e atua como um amuleto de proteção", explica o tatuador que estudou as práticas de cura com a sensitiva e médium Karla de Araújo.

Carolina, citada no início desta reportagem, relata que ao chegar na casa do tatuador, foi tomada pela energia boa do local, que combinava o som de mantras ao cheiro de incenso, e a presença de vários animais e plantas.

"O Pietro foi incrível, extremamente acolhedor, carinhoso, sincero e respeitoso", comenta a jovem, que ama a natureza e pediu que o desenho fosse ligado a essa temática para que essa energia estivesse presente em seu corpo.

Ela relata que o tatuador é muito talentoso e não fez nenhum tipo de rascunho, foi direto com a caneta em seus braços. "Ficou incrível! Agora carrego um pedacinho da natureza em mim e passei a ver minhas cicatrizes de uma forma linda, especial e única. O Pietro mudou a minha vida".

Tatuagem feita em Carolina no projeto "Cicatrizes" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tatuagem feita em Carolina no projeto "Cicatrizes"
Imagem: Arquivo pessoal

Para a psicanalista Sandra Pavone, a experiência da automutilação é um sofrimento emudecido, ou seja, uma dor que se escreve através do corte no corpo, pois não existem palavras para concretizar a angústia.

Em sua análise, ao conversar com essas pessoas, o tatuador vai historicizando a experiência traumática, que é o primeiro ato fundamental para transformar essa vivência e criar sobre elas novas possibilidades de seguir adiante. Em um segundo momento, ele faz com que essa marca não fique silenciada e ganhe um novo significado por meio do desenho.

"A escolha de uma arte não apaga o que aconteceu, mas dá uma nova oportunidade para que a pessoa verbalize seu sofrimento. Esse tatuador exerce uma função de ouvinte a essas histórias e propõe um novo olhar para ela" analisa Sandra.

Carolina Pecsén e o tatuador Pietro Marinho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Carolina Pecsén e o tatuador Pietro Marinho
Imagem: Arquivo pessoal

Em entrevista para Ecoa, Pietro enfatiza que a automutilação não é frescura, a depressão e a ansiedade não são fingimento. A mensagem que ele tenta passar para as pessoas é que esses sentimentos são um estado mutável. É necessário quebrar o elo com o passado, parar de sofrer pelo futuro e começar a viver o hoje de forma plena.

Como as discussões levantas pelo Setembro Amarelo não devem se restringir a esse mês, o projeto continuará até o fim do ano. Pietro vai conciliar os atendimentos do "Cicatrizes" com os seus clientes comerciais. Para participar do projeto, é necessário enviar um e-mail para cicatrizes@mahadevil.com.br com uma foto anexada, contando sua história e onde mora.

Alguns tatuadores de diferentes lugares do Brasil estão se voluntariando para ajudar a dar um novo sentido às marcas, ainda que não desenvolvam o mesmo ritual que Pietro. O tatuador criou uma rede de profissionais interessados em colaborar com o projeto. Se você mora fora de São Paulo e gostaria participar, enviei uma mensagem por email para saber se há algum voluntário na região.

Os tatuadores que querem doar seu trabalho para o projeto, podem escrever para Pietro neste email.

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