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Desigualdade

Caso Neymar explicita a jornada de homens negros numa sociedade racista

Neymar discute com Alvaro Gonzalez durante partida do PSG contra o Olympique Marselha pelo Campeonato Francês -
Neymar discute com Alvaro Gonzalez durante partida do PSG contra o Olympique Marselha pelo Campeonato Francês

Cleberson Santos

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

16/09/2020 04h00Atualizada em 16/09/2020 18h06

O jogador Neymar foi vítima de racismo durante o jogo entre PSG e Olympique de Marseille pelo Campeonato Francês domingo (13). Chamado de "macaco" por Álvaro González, reagiu com um tapa no adversário e recebeu o cartão vermelho. Enquanto o zagueiro espanhol segue impune, o atacante foi punido com suspensão de dois jogos por "ato de brutalidade ou golpe cometido fora do ato de jogo".

O assunto dividiu opiniões nas redes sociais. Várias pessoas prestaram apoio ao jogador brasileiro, mas houve quem achou que a reação foi exagerada e criticou o craque. Alguns internautas até resgataram uma frase dita por Neymar em 2010 em que ele afirmava não ser negro.

Afinal, o que significa uma pessoa ter se autodeclarado publicamente como não negra aos 18 anos de idade e, próximo aos 30, reagir a um episódio de racismo e publicar um comunicado em que afirma: "Eu sou negro, filho de negro, neto e bisneto de negro, tenho orgulho e não me vejo diferente de ninguém"?

"Essa confusão que ele tinha em não se entender como homem negro, talvez como moreno ou pardo, era uma coisa muito comum na nossa sociedade. As pessoas precisam entender que independente do que elas achem do Neymar, ele foi vítima de racismo. Não é sobre ele, é sobre toda uma estrutura que fez com que o jogador se sentisse confortável de chamar outro de 'macaco'", explica Levi Kaique Ferreira, engenheiro civil, colunista no site Mundo Negro e ciberativista.

Com mais de 80 mil seguidores no Twitter e quase o dobro em seu perfil no Instagram, Levi Kaique foi um dos influenciadores que saiu em defesa do jogador nas redes sociais.

Em entrevista a Ecoa, ele contou que duvida que Neymar ainda tenha aquela opinião a respeito de sua negritude, e que infelizmente a consciência racial no Brasil comumente é construída a partir da experiência do racismo.

"Acho que a consciência racial do Neymar já vem de um tempo. Ele se posicionar publicamente é recente", aponta Levi, que demonstrou preocupação em ver o resgate dessa afirmação de Neymar como forma de crítica à reclamação.

Para Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, as críticas a Neymar são um comportamento típico da sociedade diante da reação de uma vítima de racismo:

"Essas críticas colocam a vítima como foco e interditam o debate. A vítima passa a ser o vilão nesse momento. A outra questão é como o mundo do futebol trata os casos de racismo, colocando em dúvida o incidente e, mais uma vez, colocando a vítima em julgamento", explica.

Influência do amigo Hamilton?

O episódio de domingo no Campeonato Francês coincidiu com outro fato marcante. Horas antes, Lewis Hamilton subiu ao pódio do GP da Toscana com uma camiseta que pedia a prisão dos policiais responsáveis pelo assassinato da paramédica Breonna Taylor, nos Estados Unidos. Assim como Neymar, ele também correu o risco de ser punido, mas a organização da Fórmula 1 decidiu que não seria necessário.

Hamilton é amigo de Neymar. Para Levi, o piloto e outros "parças" como alguns jogadores da NBA, que têm uma postura mais ativa no antirracismo, podem ter ajudado na construção dessa consciência racial no craque brasileiro: "São pessoas de influência que estão conquistando espaços e trazendo resultados positivos. Acho que isso fez com que ele olhasse a questão de uma forma diferente e o motivasse a se posicionar de maneira mais assertiva", diz Levi Kaique.

Marcelo já aponta para outro caminho, menos pelo exemplo de Lewis. Para ele, o posicionamento do brasileiro é clássico de uma pessoa indignada com uma situação que enfrentou, não necessariamente engajada socialmente com a causa.

"O insulto, para a arbitragem, foi considerado menor que o tapa que ele deu. Isso o deixou muito indignado e o fez reagir dessa forma tanto em campo quanto nas redes sociais. Depois, de cabeça fria, ele já começa a ser mais ponderado, mais brando, por isso eu digo que tem pouca influência desses atletas que estão se posicionando".

O tom mais brando a qual Marcelo se refere foi feito no dia seguinte, quando Neymar postou um longo texto em seu perfil no Instagram, cujo trecho apareceu no início desta reportagem. Na publicação, o jogador afirmou entender as agressões e palavrões como parte do jogo, mas que "o preconceito e intolerância são inaceitáveis". Ainda pontuou que lhe "faltou sabedoria" para lidar com a situação.

"Refletindo e vendo tanta manifestação quanto ao que ocorreu, fico triste pelo sentimento de ódio que podemos provocar quando no calor do momento nos revoltamos", disse Neymar no texto.

Para Levi, a publicação teve um tom de "sentimento de culpa" por conta da reação e que é isso é comum em episódios de racismo:
"Denunciar o racismo no Brasil é uma coisa muito complicada. A gente vê que sai como exagerado, que deveria ser racional, que deveria responder de outra forma, mas ninguém se pergunta sobre a dimensão daquela violência e como aquilo pode influenciar na vida das pessoas negras de um modo geral".

Tanto Levi quanto Marcelo reconhecem que o engajamento de uma figura tão influente quanto Neymar seria um ganho imenso para a luta antirracista. Porém o diretor do Observatório de Discriminação Racial no Futebol pondera que essa mesma influência pode acabar fazendo com que Neymar evite posicionamentos, tal como fez Pelé no passado.

"A gente acaba jogando em cima de personalidades negras, uma luta que elas muitas vezes não se prepararam para enfrentar. Assim, vamos acabar afastando não só o Neymar, mas também outras pessoas negras que tenham vontade de falar, mas que não vão por medo de críticas dos dois lados: dos racistas e dos aliados."

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