PUBLICIDADE
Topo

Empresas que mudam

Funcionária autista conta como projeto de inclusão a levou à Unilever

Luciana Paganato é vice-presidente de RH da Unilever no Brasil e liderou projeto de diversidade da empresa - Arquivo Pessoal
Luciana Paganato é vice-presidente de RH da Unilever no Brasil e liderou projeto de diversidade da empresa Imagem: Arquivo Pessoal

Thais Szego

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

29/08/2020 04h00

O diagnóstico de autismo costuma ser carregado de estigma e pode ser encarado como um atestado de uma vida profissional incerta. Mas, para a paulista Julie Goldchmit, a condição virou oportunidade para mostrar que pessoas no espectro podem criar um enredo completamente diferente.

A jovem de 23 anos contou com ajuda dos pais, sua determinação e, principalmente, empresas dispostas e repensar sua cultura organizacional e oferecer inclusão. Na experiência de Julie, a dificuldade de adaptação existe, mas pode ser contornada com um ambiente preparado para a diversidade.

"Ao iniciar um novo trabalho, me deparo com situações que são típicas de pessoas que têm o meu quadro. Isso significa que não tenho tanto jogo de cintura para lidar com o novo e os imprevistos e, por isso, preciso de ajuda especial dos meus superiores e colegas nesses momentos", conta ela.

Após passar por empresas como Citibank e PWC, a jovem soube de uma vaga na Unilever, recomendada por conhecidos que reforçaram o olhar inclusivo da empresa. Para ela, um aspecto foi essencial: já no processo seletivo, Julie explicou quais eram as suas necessidades e como ela funciona à gerente de Recursos Humanos.

"Quando cheguei à empresa, a equipe já estava muito bem orientada, estruturada e preparada para me receber e cada um me auxiliava em um dia da semana, o que facilitou bastante a minha integração e me fez sentir mais segura", explica.

Como assistente na área de trade marketing, a escolha do departamento em que atuaria também fez diferença em sua jornada. Julie trabalha com sorvetes, algo palpável e que permite a ela ver os produtos nos supermercados, e isso a ajuda a compreender melhor o resultado do seu trabalho.

A marca de sorvete Ben & Jerry's é controlada pelo conglomerado Unilever - Getty Images - Getty Images
Julie atua no departamento de sorvetes da Unilever, que controla também a Ben & Jerry's
Imagem: Getty Images

A política de inclusão da empresa inclui ainda a criação de grupos de afinidade que ajudam a enxergar as necessidades específicas de cada perfil. Além disso, a companhia mantém sessões de conversa e treinamento sobre diversidade para que seus funcionários tenham repertório e entendimento suficientes para poderem receber novos funcionários com empatia e disponibilidade.

"Sabemos que a inclusão é uma jornada contínua que precisa de foco e consistência para gerar resultado e faz parte da nossa cultura encarar os desafios e trabalhar firmemente por um ambiente de trabalho mais inclusivo, onde as pessoas se sintam acolhidas e tenham a liberdade de ser quem elas verdadeiramente são", diz Luciana Paganato, vice-presidente de recursos humanos da Unilever.

Pandemia trouxe novo desafio

Tudo ia muito bem, quando a vida colocou um novo obstáculo na vida de Julie: a Covid-19. Ou melhor, o isolamento social por conta do novo coronavírus.

Se para muitos profissionais foi difícil encarar a pandemia e se acostumar às pressas com o trabalho feito de casa, para Julie a situação foi ainda mais desafiadora, justamente porque pessoas no espectro autista têm mais dificuldade para assimilar e se adaptar a mudanças repentinas.

O home office a deixou insegura e ansiosa, pois, se tivesse algum problema, não teria fisicamente alguém ao seu lado para ajudá-la.
"A maior perda para mim foi não poder estar com as pessoas fisicamente, o que me fez sentir um vazio e a sensação de que eu estava perdendo tudo", conta.

A jovem Julie Goldchmit - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A jovem Julie Goldchmit trabalha na Unilever
Imagem: Arquivo pessoal

A equipe teve que criar maneiras de oferecer o auxílio necessário mesmo à distância, com uma ajuda da mãe de Julie e os gestores da jovem. A solução encontrada foi conectá-la a outros funcionários e mostrar que, assim como ela, todos estavam trabalhando remotamente. "Cada um foi mostrando um pouquinho do seu dia a dia, os filhos, os animais de estimação, enfim, tudo o que colaborasse para a Julie entender o novo momento pelo qual todos estavam passando", explica Luciana.

Com o tempo, o projeto foi se aprimorando e se transformou no "Café Cultural com a Julie". A proposta foi criar um espaço para que ela pudesse falar sobre o que estava fazendo no tempo livre, contando, por exemplo, sobre o que tinha lido e assistido nos dias anteriores. Assim, ela foi se sentindo mais próxima dos colegas e se adaptando à nova realidade. O resultado permitiu que Julie voltasse a desempenhar suas funções como no trabalho presencial e se sentisse à vontade para pedir mais tarefas.

Apesar da adaptação, Julie está torcendo para que o isolamento acabe o mais rápido possível e ela possa voltar a trabalhar normalmente nos corredores da empresa. Assim como todos os funcionários.

Empresas que mudam