PUBLICIDADE
Topo

Iniciativas que inspiram

Para estilista, favelas derrubam ideia de que moda tem de ser eurocêntrica

A estilista Lu Costa, dona da Nkenge - Arquivo Pessoal
A estilista Lu Costa, dona da Nkenge Imagem: Arquivo Pessoal

Carmen Lúcia

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

27/08/2020 04h00

Quem vê o sorrisão no rosto da costureira e estilista Lu Costa, de 51 anos, nem imagina os percalços pelos quais ela já passou. Mas, por pior que seja o problema, ela não desiste, principalmente neste momento de pandemia, que complicou e muito a vida dos pequenos empreendedores como ela, dona da Nkenge, marca de roupas com inspiração na cultura africana.

Nadando contra a maré, Lu sempre viu o seu negócio como uma forma de fortalecer a diversidade por meio da moda e ajudar o próximo. Por isso, tem tocando a marca ao seu lado, alunos oriundos da Central Única das Favelas, que tem o Espaço Cufa localizado em Madureira, zona norte do Rio. Para muitos, ela oferece a oportunidade de viver a experiência do tão sonhado primeiro emprego.

"Em 2017, comecei a trabalhar na Cufa. Lá, eu dou aula de corte, costura e figurino. Os alunos da instituição são oriundos de comunidades do Rio e todos muito talentosos. Geralmente, o que falta para esses jovens é direcionamento correto e oportunidade no mercado da moda. Então, há três anos, quando comecei a dar aulas e iniciei os trabalhos com a minha marca, vi que era a oportunidade perfeita para empregar esses jovens", lembra Lu.

A certeza de que esse era o passo certo veio no mesmo ano, quando na formatura dos alunos, Lu decidiu fazer um evento chamado Cufa Veste Rosa. A ideia era fazer algo criativo, trazendo holofote para o câncer de mama, mas a ação fez mais do que isso e simplesmente parou Madureira. "Foi incrível. Colocamos dentro da Cufa uma limousine cor-de-rosa e fechamos literalmente o lugar. Não tivemos apoio financeiro de ninguém, mas a nossa vontade era tão grande, que fizemos acontecer. Depois desse dia, eu vi que tinha encontrado as pessoas certas para trabalharem comigo, na minha marca. Viramos noites acordados produzindo peças e vendo o sonho ganhando forma".

Hoje, a marca tem um espaço físico e os alunos continuam à frente do negócio. Eles se dividem nas mais variadas funções, de produção de moda a fotografia, Lu sempre arruma um espaço para cada um se destacar na área com a qual se identifica. "Nem sei o que seria da minha vida sem eles aqui para me ajudar. Confio plenamente neles e isso me permite focar na produção das roupas. Deixo o lançamento de coleção, ensaio fotográfico, divulgação, rede social, tudo com eles. Formamos um time que funciona muito bem", avalia.

Frederick Assis, 23, é um dos funcionários de Lu. Ele a conheceu em 2017, quando estudava teatro, e um convite para fotografar a formatura dos alunos acabou mudando a sua vida. "Eu participei do primeiro editorial da Nkenge, que aconteceu no Morro do Vidigal. Trabalhar ali, me permitiu sentir algo que nunca tinha acontecido antes. Sempre me senti excluído de diversos grupos, mas, ali, era como se eu, pela primeira vez, fizesse parte de algo. Mesmo sendo o meu primeiro trabalho com mais responsabilidades, sempre vi a Nkenge como uma família", lembra.

Para Geisa Nascimento, 23, o trabalho de produtora da marca vem agregando muita experiência e aprendizado à sua carreira. "Na Nkenge, eu desenvolvo a produção artística, como editoriais de moda e desfiles que fazemos, além de resolver as questões burocráticas, assinatura de contratos, logística etc. Aqui, lidamos com muitas fragilidades, mas temos talento e criatividade em dobro", conta Geisa.

Para inaugurar o projeto, Lu também contou com o patrocínio do amigo angolano Policarpo Nkenge. A partir daí, pôde ver nascer pela segunda vez, um espaço de moda comandado por ela. "Ver o meu ateliê montado, com os meus alunos trabalhando de forma remunerada, foi como se eu estivesse entrando no túnel do tempo. Há quatro anos, em outubro de 2016, tive a oportunidade de montar um espaço na minha cidade, em São Gonçalo. Foram anos de trabalho duro e quando finalmente o ateliê estava pronto, um incêndio aconteceu, e perdi tudo. Vinte anos de trabalho foram embora em menos de 30 minutos. Além disso, fiquei com uma dívida enorme por conta da casa que eu alugava, onde ficava o ateliê. Tive depressão na época, mas sabia que algo bom estava a caminho. Consegui entrar na faculdade de moda, e a vida foi tomando um novo rumo".

Em 2016, um incêndio no ateliê fez com que Lu Costa perdesse um trabalho de 20 anos em 30 minutos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Em 2016, um incêndio no ateliê fez com que Lu Costa perdesse um trabalho de 20 anos em 30 minutos
Imagem: Arquivo Pessoal

Lu acredita que o que falta de verdade para que jovens negros e periféricos possam prosperar é oportunidade. "Tanto a Nkenge quanto a Central Única das Favelas estão abrindo portas e derrubando a ideia de que moda tem que seguir padrões eurocêntricos, isso é um absurdo e não dialoga com a gente. Para nós, moda é aquilo que faz o seu corpo e sua mente se sentirem felizes, confortáveis e representados. Você precisa se identificar com aquilo que veste. Por isso, me atrevo a dizer que estamos dando holofote para um público ao qual ninguém ousou olhar antes. Nós descobrimos talentos e oferecemos uma forma de valorização de nossos jovens oriundos das favelas cariocas. Porque se derem uma chance, eles conquistam o mundo", finaliza

Iniciativas que inspiram