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Após bancar inscrições no Enem, projeto quer auxiliar jovens com os estudos

Cristiano Ferraz, professor que criou Movimento Amplia  - Divulgação
Cristiano Ferraz, professor que criou Movimento Amplia Imagem: Divulgação

Isabella Garcia

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

18/08/2020 04h00

Há cerca de um mês, Ecoa falou sobre a iniciativa do professor Cristiano Ferraz. Com um simples post em suas redes sociais, ele buscava padrinhos para custear a inscrição no Enem de jovens pretos, pardos e indígenas.

O que para ele seria algo simples e que ficaria restrito à sua rede de amigos, acabou se transformando em um movimento que recebeu 54 mil apoiadores em sete dias, e pagou a inscrição de 120 estudantes. "Enfrentamos muitas dificuldades, pois conseguimos muitos colaboradores e poucos alunos. É muito difícil chegar nesses vestibulandos. Eles têm dificuldade de acesso a internet e não estão inseridos nas bolhas, onde esse tipo de campanha viraliza," explica Cristiano.

Agora, ele quer ampliar a ação do grupo para justamente atuar onde esses jovens mais precisam: necessidades básicas como acesso a internet, a plataformas de ensino, dispositivos digitais, alimentação e transporte. Assim surge a campanha Siga Firme.

A iniciativa funciona da seguinte forma: os 120 contemplados pela ação recebem uma bolsa no valor de R$ 300, que pode ser utilizado da forma como preferirem. Para quem quiser colaborar, basta entrar na plataforma apoie-se e doar. Há opções de cupons que variam entre R$ 30 e R$ 300. O colaborador escolhe o valor e efetua o pagamento. As doações serão arrecadas apenas até hoje (18).

O financiamento está perto de atingir R$ 70 mil reais. "A inscrição do Enem é só a primeira barreira que eles vão enfrentar. Precisamos mantê-los nesse período. Trezentos reais é um valor simbólico, não vai suprir todas as necessidades, mas é uma ajuda, o começo" diz Ferraz.

A campanha conta com uma segunda frente de apoio, destinada a organizações parceiras do Amplia. "Nós queremos transferir recursos e apoiar seus projetos. Todas trabalham com educação e questões de raça. Essas instituições são importantíssimas, somam conosco e dialogam com a visão de mundo que temos", disse ele. Uma das entidades parceiras é a Rede Emancipa. Conhecida pelos cursinhos populares, ela vem realizando uma campanha solidária de apoio e segurança alimentar do vestibulando e de sua família.

Para isso, distribuem cestas básicas, com o objetivo de amenizar os efeitos da pandemia na vida dessas pessoas. Também está presente a 4G para estudar, que apoia cursinhos populares no acesso a internet e transfere recursos para iniciativas presentes em todos os cantos do Brasil.

Atualmente, o Movimento Amplia, contempla estudantes de 20 estados brasileiros — 86% deles estão na faixa etária de 15 e 30 anos, 93% são pretos e pardos e a maioria dos inscritos são mulheres, cerca de 77%.

Os organizadores, olham com sucesso para a arrecadação de R$ 70 mil, coletada em um mês, mas ainda buscam valores mais altos. "Queremos arrecadar mais recursos através da campanha para que a gente consiga prestar um apoio por mais tempo e com uma bolsa mais alta. Isso é importante, pois vivemos em um cenário muito assustador na educação, principalmente na rede pública, onde temos um alto índice de evasão, devido a questões financeiras que se agravaram em tempos de pandemia. Esses estudantes precisam trabalhar para complementar renda. Então, oferecer esse tipo de apoio financeiro é uma forma de garantir que o jovem tenha meios de continuar estudando e priorizar a educação", comenta o professor.

Organizações que trabalham com educação a partir do critério de marcadores sociais sabem que quem mais está sofrendo com os efeitos da pandemia na educação são os estudantes de escola pública, que muitas vezes são moradores de periferias. A pesquisa TIC Kids Online 2019 com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), aponta que 4,8 milhões de crianças e adolescentes no Brasil, na faixa de 9 a 17 anos, não têm acesso à internet em casa, o que corresponde a aproximadamente 17% dos jovens nesta faixa etária. Nesse cenário, o Enem e o acesso à universidade se tornam objetivos distantes.

Para um futuro próximo, o Movimento Amplia já está estruturando dois novos projetos. Um deles é o Amplia tecnologia, que tem como objetivo fazer uma campanha de doação de dispositivos digitais, como celulares computadores e tablets, demanda urgente dos vestibulandos. Eles já receberam dez doações, mas precisam organizar melhor a ação e entrar em contato com instituições parceiras, para implementar uma logística que permita receber os aparelhos, testar, consertar, higienizar e então distribuir para o aluno.

Também está em seu planejamento um programa de tutoria. Quando começaram a buscar padrinhos para o pagamento de boletos, receberam o contato de muitos professores se voluntariando para acompanhar o aluno como um mentor. Os integrantes do Amplia, acreditam que isso dá um incentivo muito importante para o estudante, que poderá contar com um apoio nesse processo de aprendizado.

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