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Sobras de remédios alimentam farmácias solidárias em tempo de pandemia

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Imagem: iStock

Rodrigo Bertolotto

De Ecoa, em São Paulo

22/07/2020 04h00

De tanto correr atrás de tratamento para seus pais, Valéria Castro tomou duas decisões na vida. Por um lado, estudou enfermagem. Por outro, criou uma central de doações de remédios há quatro anos em Belo Horizonte (MG) para ajudar quem não tem dinheiro para bancar tanta medicação. De quebra, ela ainda ajuda a não desperdiçar pílulas que estavam perdendo a validade, esquecidas em gavetas de residências, consultórios e drogarias.

"Assim como meu pai, muitas pessoas que atendemos viviam esse dilema de ter de escolher entre comprar um remédio ou pagar o aluguel, porque o dinheiro não dava", relata Valéria. "As pessoas deixam de tomar medicamento porque pensam que é melhor ajudar mais gente pagando aluguel da família do que gastando na farmácia para benefício pessoal. E assim pioram de saúde", completa.

Iniciativas como a de Valéria cresceram muito na última década no Brasil, com a crise econômica, que afetou os mais pobres, e o surgimento das redes sociais, que ampliou as ferramentas de comunicação. Mas esses bancos de remédios ainda vivem em um limbo jurídico.

Vários municípios de médio porte, como Araraquara (SP), Petrópolis (RJ), Uberaba (MG), Criciúma (SC) e Sinop (MT), já criaram suas farmácias solidárias. A iniciativa é tão forte no Rio Grande do Sul, por exemplo, que foi aprovada em 2019 uma lei estadual de incentivo dessa prática. E também há projetos de lei sobre o tema tramitando no Congresso Nacional e em Assembleias Legislativas, como a de Minas Gerais.

Porém a solidariedade também tem seus sobressaltos. Em Sete Lagoas (MG), a instituição Farmácia do Bem sofreu apreensão de amostras grátis, porque segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) elas só podem ser distribuídas por consultórios médicos e odontológicos. Já no Rio de Janeiro (RJ), o grupo Corrente do Bem teve sua página do Facebook bloqueada por postar fotos de caixas de remédio.

Bem antes das iniciativas oficiais, os pioneiros foram pessoas, igrejas, associações de classe e organizações de bairros. Em 2005, o Rotary Club sediado no bairro paulistano do Tatuapé montou uma campanha de arrecadação que era para durar um ano, mas tamanha foi a procura e a ajuda que ela existe até hoje. Em 2006, o empresário Dámaso MacMillan, após sofrer por anos para bancar seu tratamento após um transplante de rim, fundou o Banco de Remédios, que ganhou sede no Mercado Público de Porto Alegre (RS), distribuindo desde analgésicos e anticoncepcionais até medicações de ponta e dispendiosas.

Sem pausa na pandemia

A farmacêutica Tania Gasparetto seleciona medicamentos que serão distribuídos pela ONG Campanha dos Remédios - Divulgação/Campanha dos Remédios - Divulgação/Campanha dos Remédios
A farmacêutica Tânia Gasparetto seleciona medicamentos que serão distribuídos pela ONG Campanha dos Remédios em foto pré-pandemia
Imagem: Divulgação/Campanha dos Remédios

A farmacêutica paulistana Tânia Gasparetto está à frente da ONG Campanha dos Remédios que há 16 anos arrecada e doa remédios. A fila de aposentados e desempregados atrás da cura só aumentou nesse tempo - tem dias que as pessoas esperam até cinco horas.

E nessa época de pandemia as entregas estão acontecendo com hora marcada, tanto para deixar as receitas médicas quanto para retirar as sacolas fechadas com medicamentos. Tudo para evitar aglomerações, afinal, o serviço atende em média 3.000 pessoas por mês. A recentemente famosa cloroquina é um dos itens buscados, mas pelos pacientes da doença autoimune lúpus, para a qual é comprovadamente eficiente (e que está em falta pelo desvio para o duvidoso kit de combate ao novo coronavírus).

"Eu me sinto como uma ponte. Remédios que iriam para a incineração e causariam poluição encontram pessoas que precisam deles e não tem condições", define Tânia. "Os governos teriam que fazer essa ação, mas são tantas legislações e tanta desorganização que a população é que sofre as consequências."

Ela cita a regra dos postos públicos de saúde, que distribuem medicamentos gratuitamente para os pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), mas que não aceitam de volta se o paciente não precisar mais. "Outro dia, um funcionário de um posto da zona leste trouxe um monte de remédios que deixaram lá, eles não poderiam usar e iam vencer", conta a farmacêutica.

A ONG aceita doações de laboratórios, distribuidoras, consultórios e de pessoas físicas. No começo, ela só doava para entidades, asilos ou orfanatos. Depois começou a fazer a distribuição para pessoas diretamente. "Pode ser remédio com a caixa amassada ou com validade para seis meses. O que aparece aqui a gente dá destino."

A farmacêutica começou na ONG como funcionária responsável, afinal, a iniciativa era de um empresário ligado ao Rotary Club local. Mas, quando ele saiu da ação, ela assumiu a ONG, que recebe ajuda, por exemplo, da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), por meio de sua Comissão da Saúde Pública e Suplementar, que encaminha doações.

Amostras de gratidão

Depois de passar por uma cirurgia em 2012 e acumular cartelas e cartelas sem uso em seu armário, a farmacêutica carioca Anna Sylvia Barros teve a ideia de montar a Corrente do Bem. "Eu trabalhava como consultora e via muitas caixas de amostra grátis irem para o lixo. Era algo desnecessário e só acontecia pela total falta de administração", afirma Anna.

Atualmente, ela distribui até 1.000 caixas por mês e conta com mais cinco voluntários na coleta e distribuição. "Verificamos bem se a pessoa tem receita médica recente e só aí doamos. Não queremos incentivar a automedicação", diz a farmacêutica.

Durante a pandemia, ela diz que a procura aumentou, enquanto as doações diminuíram. "Acho que as pessoas temem muito a contaminação e não querem se desfazer de suas farmacinhas caseiras para o caso de qualquer doença ou mal-estar. Fora que tem muito consultório fechado ou trabalhando parcialmente, assim os médicos também estão doando menos."

Voluntários e solidários

Voluntárias do projeto Remediar, em Belo Horizonte (MG) - Divulgação/Remediar - Divulgação/Remediar
Voluntárias do projeto Remediar, em Belo Horizonte (MG)
Imagem: Divulgação/Remediar

Há quatro anos, o projeto Remediar distribui por volta de 600 caixas de medicamentos por mês em Belo Horizonte. E não interrompe a ação nem em tempos de Covid. "A pandemia fortaleceu o trabalho em rede. Hoje em dia, tem mais gente me ajudando e por mais tempo", afirma Valéria Castro. São cinco pessoas trabalhando diretamente e mais 30 indiretamente, formando o que chama de "rota solidária" para conseguir receber e doar em todas as regiões da capital mineira.

A trajetória pessoal de Valéria a guiou para uma escolha profissional e uma missão de vida que tem a cura como busca. Filha caçula entre seis irmãos, ela sempre cuidou dos pais. Sua mãe sofria de Alzheimer e neste ano morreu. O pai, com diabetes e insuficiência vascular, teve que amputar primeiro uma perna e depois a outra.

Foram tantos dias acompanhando os dois nos hospitais que Valéria escolheu ser enfermeira. Montar uma central de doações de medicamentos foi o passo seguinte de quem transforma um drama pessoal em um serviço público.

A doação de comprimidos é só uma parte dos objetivos da Remediar, que ainda distribui kits de higiene, empresta cadeiras de rodas e faz assessoria jurídica para quem precisa de medicação cara e precisa acionar o SUS ou algum plano particular para obtê-la, além de uma parceria com psicólogos que atendem online em seus horários vagos para diminuir os males mentais durante a pandemia. Tudo gratuito.

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