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Gestão pública

Participação popular é a chave para cidade menos desigual, diz arquiteto

Carina Martins

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

22/07/2020 11h05

Como paisagem, patrimônio e qualidade de vida se relacionam nas cidades? A costura não só entre esses conceitos mas também sobre como colocá-los a serviço de soluções foi o tema do debate "Paisagem e patrimônio - Qualidade de vida nas cidades", quarta mesa do ciclo Novas Cidades 2021", promovido pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR) e transmitido por Ecoa. O objetivo do ciclo é formular um documento que será entregue aos candidatos a prefeito e vereador nas eleições deste ano.

"A questão particular da paisagem é um tema que, a partir dos anos 2000, ganhou espaço em função da necessidade da mudança de escala", explica o arquiteto urbanista e ex-diretor do IPHAN Andrey Schlee. Isso significa que "a escala de preservação da igreja, do palácio, da residência, do monumento isolado" foram ampliadas para "a necessidade da preservação em uma escala maior, a da paisagem". A paisagem, dentro desse conceito, é uma construção cultural, social, multidimensional feita na interação entre o homem e o ambiente.

"É algo vivo porque tem um substrato social", diz o arquiteto urbanista e deputado federal Edmilson Rodrigues (PSOL-PA). "Temos que fazer um esforço mais do que multi, transdisciplinar, para pensar o território, o uso do território urbano e um tipo de desenvolvimento que contemple a paisagem, o substrato social na sua totalidade. Um tipo de planejamento urbano sensível às diferenças urbanas. Sensível também às desigualdades urbanas, que têm que ser mudadas".

O respeito às diferenças e as diminuições das desigualdades, para Edmilson, são abordados quando planejamento e projeto são feitos com participação popular. "Se o planejamento não for participativo, entrará num caminho tecnicista e você terá coisas lindas a fotografar, mas não terá um retorno ao conjunto da sociedade, um abrigo a toda a população", diz.

Exemplos de obras e projetos urbanos deslocados de sua paisagem foram citados por vários debatedores. Edmilson questionou o abandono de coberturas tradicionais e beirais, fundamentais para sombreamento e proteção da chuva em uma cidade como Belém; Schlee se perguntou como tirar a Barra da Tijuca de Miami e transformar em um bairro carioca; a codeputada e educadora Chirley Pankará (PSOL-SP) lembrou a aldeia vertical dos pankararu no Real Parque, bairro de São Paulo onde não há sequer um metro de chão batido para suas manifestações culturais.

Não faço apologia da ignorância. O saber popular é fundamental. Por isso, a participação popular dará a nós, arquitetos e urbanistas, o insumo fundamental para desenvolver um urbanismo participativo vinculado aos interesses e necessidades da população. Se você me chama pra construir sua casa, como eu não levo em conta a opinião de quem vai morar na casa?

Edmilson Rodrigues, arquiteto e urbanista, deputado federal (PSOL/PA)

"Qualquer administração pública tem a obrigação de costurar esses diferentes espaços que nossas cidades vão reproduzindo ao longo do seu tempo", completa Schlee. Para ele, diante da ausência atual de projeto para o país, o momento pede que os profissionais da área se concentrem e se agrupem a partir de suas entidades, "e se preparem para esse grande desafio de um futuro onde será necessário, sem dúvida, reconstruir um pouco do nosso Brasil".

Para a professora da UnB Luciana Saboia, a paisagem tem que ser reposicionada. "Deixar de ser um cenário, uma relação que você só enxerga, para ser uma relação in sito, que é quando você está dentro dela e passa a ser a paisagem da paisagem", explica. "A partir do momento que a paisagem é espaço, não tem como não trazer as questões de desigualdade e justiça social".

Esse movimento é fundamental para materializar problemas e soluções. "Se você não tiver o território determinado, tudo vira idealização. A igualdade passa a ser uma ideia abstrata. Quando você passa a situar os conflitos e reconhecer essas paisagens começa a pensar na forma da equidade", diz. E, quando se fala em forma, fala-se em projeto. "Projeto da paisagem é a peça-chave na luta contra a desigualdade. E durante muito tempo ficou localizado como algo autoritário. Mas é justamente ele que vai trazer uma noção de política pública. Não de governo, mas de Estado, que supera uma questão imediata e passa a ser um fortalecimento de nossas instituições."

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