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"Somos uma resistência contra o obscurantismo e o negacionismo", diz reitor

Filósofo e reitor da UFBA, João Carlos Salles lança livro em que narra preocupação com o possível futuro "empreendedor" das grandes universidades públicas - Divulgação
Filósofo e reitor da UFBA, João Carlos Salles lança livro em que narra preocupação com o possível futuro "empreendedor" das grandes universidades públicas Imagem: Divulgação

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

21/07/2020 04h00

O reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), João Carlos Salles, defende que as universidades são instituições com respostas a longo prazo para diminuir a desigualdade cada vez maior na educação, especialmente com as crises do novo coronavírus e do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Para o filósofo, a saída não é fácil: será preciso investir mais diretamente para aumentar a diversidade de alunos em meio aos ataques.

Segundo o professor, é preciso que as políticas de inclusão sejam amparadas por mais assistência estudantil a estudantes empobrecidos, que enfrentam ainda mais limitações tecnológicas e educacionais com a pandemia.

A UFBA mantém sistema de cotas desde 2004, antes de a reserva ser promovida pelo próprio governo federal, e também dá assistência estudantil com transporte, moradia e auxílio. Parte da ajuda, porém, foi ameaçada com cortes de dinheiro e hostilidade do próprio governo.

"Muitos dizem que assistência estudantil não é papel da universidade. Quem diz isso não conhece a universidade no Brasil, com essas circunstâncias tão desiguais, e imagina a universidade como um equipamento abstrato do Vale do Silício", diz.

"A universidade precisa acolher nossa gente, com sua diversidade de cor, de perspectivas, esteja presente a na universidade"

Autonomia lógica

Nos últimos anos, a mesma autonomia dada a todas as universidades brasileiras passou por investidas do governo federal. Próximo a abandonar a pasta, Weintraub também tentou nomear reitores a partir de uma Medida Provisória (MP) rejeitada por Bolsonaro após pressão do Congresso Nacional, de educadores e ativistas da educação.

Professor de Lógica, o filósofo explica que a disciplina busca aferir argumentos válidos, demonstrativos, contra argumentos sofistas, falaciosos, que parecem bons argumentos mas que comportam erros do ponto de vista da razão. "Do ponto de vista da lógica, podemos dizer, de forma consistente, que existem projetos nefastos para a educação brasileira. Há uma coerência no ataque às universidades esposado pela presidência da república", diz.

"Nós subestimamos, ao longo dos anos, que uma voz retrógrada, obscurantista, autoritária, capaz de elogiar a tortura e torturadores, pudesse assumir a presidência da República", diz. "Talvez a existência desse projeto Jair Bolsonaro seja um ponto cego para aqueles que, porventura, tenham tido alguma aspiração democrática".

Para ele, a universidade incomoda por oferecer um contraponto e nega que haja um aparelhamento doutrinário de esquerda nas universidades públicas do país.

"Somos uma resistência contra o obscurantismo e o negacionismo. Por isso, é natural que incomode", diz. "A balbúrdia da juventude que está se formando como cidadã é boa. A balbúrdia da inquietação, a balbúrdia da pesquisa, a balbúrdia séria, responsável e que honra seus argumentos é boa. Pode ser até balbúrdia, mas nunca será barbárie", conclui.

Future-se

Salles tornou-se um dos maiores críticos do "Future-se", único grande programa apresentado pelo Ministério da Educação (MEC) de Bolsonaro. Apresentado pelo ex-ministro da educação Abraham Weintraub em 2019, a proposta tira recursos públicos das universidades federais para promover o financiamento privado, amplia investimentos em colégios militarizados, tira do ensino formal e repassa às famílias os programas de alfabetização e também promete aumentar acesso à internet entre estudantes no país. O projeto está no Congresso Nacional.

Segundo o professor, uma das táticas do Future-se é usar a bandeira do empreendedorismo para desqualificar os resultados a longo prazo e os núcleos de pensamento nas grandes universidades, espaço onde se promoveu "resistência" ao "ministro que mais atacou as universidades federais".

A citação ao Vale do Silício — onde egressos de grandes universidades privadas fazem fortuna no ramo de tecnologia — sobre a construção de uma narrativa de que a universidade deve se tornar um espaço de resultados rápidos a partir da tecnologia é o lema encampado especialmente por universidades privadas por aqui para promover formação em massa e preparo para trabalhar na indústria ou mercado. Vale ressaltar que não há, nos Estados Unidos, o conceito de universidade federal ou estadual como conhecemos.

"Há um estímulo extraordinário da oferta de diplomas como resultado apenas de aulas, às vezes a distância. O ensino desta maneira, inclusive, é um dos caminhos possíveis do resultado da pandemia e é absolutamente indesejável para a vida acadêmica", diz.

"As atividades a distância tem lugar em instituições com boa qualidade de pesquisa, boa qualidade de ensino e extensão. Ou seja: em instituições que tenham uma história de investigação consolidada, não das que vivem apenas de espaço virtual".

Cortes e mais cortes

Na rabeira do "Future-se", houve corte de repasses federais às universidades, que cancelaram pesquisas, bolsas e interferiram na folha de pagamento. Na mesma época, Weintraub afirmou que as universidades promoviam "balbúrdia". A assistência estudantil da UFBA foi mantida, mas o reitor diz que hoje trabalha na penúria e sem capacidade de ampliar os programas.

Parte destes desafios está no livro "Universidade pública e democracia" (Editora Boitempo), lançado em julho com análises de ataques ideológicos, da vida acadêmica de Salles e o atrito entre narrativas para mudar a própria natureza da universidade no Brasil.

A obra mostra que não foi o primeiro conflito de narrativas vivido pelo doutor em filosofia. Na graduação no final dos anos 1970, Salles participou como delegado na criação da União Nacional dos Estudantes (UNE). Enquanto isso, em sala de aula, estudava ao lado de colegas que participam de Batalhões de Choque. Na época, o regime militar dava os primeiros sinais de abertura, mas ele recorda ainda de um "rumor de botas", passeatas e também de "muito gás lacrimogêneo" e inquietação política na vida acadêmica.

Na lista de filósofos que pensam sobre as universidades, gosta de Johann Gottlieb Fichte (1762 - 1814), um dos primeiros reitores da Universidade de Berlim, nos anos de 1810. "Ele tinha um olhar agudo sobre uma instituição capaz de justificar seu direito à existência, com projeto próprio, autônomo e reflexivo", diz.

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