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"Pandemia reverbera grito histórico de movimentos: tudo passa pela moradia"

Carmen Silva, liderança do Movimento Sem Teto do Centro - Ricardo Matsukawa / UOL
Carmen Silva, liderança do Movimento Sem Teto do Centro Imagem: Ricardo Matsukawa / UOL

Carina Martins

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

15/07/2020 04h00

A necessidade de ações urbanas universalizantes mais uma vez conduz o debate entre arquitetos, urbanistas, ativistas e políticos na segunda mesa do ciclo "Novas Cidades 2021", que propõe uma discussão sobre a reestruturação urbana na perspectiva das eleições municipais em tempos de Covid-19.

Embora presente há décadas em discussões sobre urbanismo - até com algumas ações e exemplos práticos - e unanimidade, por exemplo, entre os convidados da mesa desta terça (14), "Como reinventar as cidades no pós-pandemia", a realidade de uma cidade universal ainda é distante.

Uma boa pista de alguns motivos está na fala do ex-diplomata e fundador do Instituto URBEM, Philip Yang: "Temos que convencer a nós mesmos de que a pluralidade de espaços de convívio é uma coisa que a gente tem que conquistar", diz. "Historicamente, todos os espaços acabam se hierarquizando, do ponto de vista de valor, por uma tendência humana e da economia de mercado. Por isso é tão difícil nos opormos. Mas como seres racionais temos que ver: a gente quer isso?".

Com a pandemia, as agruras urbanas, conhecidas no campo das ideias, ganharam as tintas pesadas da realidade. E isso pode dar mais peso a soluções já conhecidas, mas que também não tinham o peso que mereciam.

"Em um ano eleitoral, muitos estão preocupados em criar soluções inovadoras. Não precisa se criar mais nada", afirma Carmen Silva, ativista e liderança do MTSC. "Nós já temos um conjunto de leis e planos de intervenção urbana. Só temos mesmo que executar. E criar um pacto entre todos - sociedade civil, investidores, setor público e movimentos sociais. Pactuar, acima de tudo, que a gente tenha planos de Estado, e não planos de governo".

Para Carmen, uma das consequências da pandemia foi "reverberar o que os movimentos sociais sempre gritaram" - que tudo passa pela moradia. O professor da UFPA José Julio Ferreira Lima concorda. "Habitação é crucial neste momento. A pandemia está revelando alguns aspectos que a gente já conhecia, e talvez não desse a importância devida".

As demandas desveladas pela Covid-19 são tão profundas que surpreenderam até quem tem a experiência de uma vida inteira de trabalho junto a pessoas em situação de vulnerabilidade. Sinal de que a fragmentação é maior ainda do que pensávamos. "Confesso que, através da atuação como movimento social, descobri um mundo totalmente invisível", diz Carmen. A deputada Ângela Amin (PP/SC), faz coro: "Uma nuvem de excluídos apareceu após a aprovação do auxílio emergencial".

Se quisermos, como afirma Yang, encarar, como sociedade, a decisão de abandonar uma organização "em guetos, em cidades separadas, cada vez mais fragmentadas", José Julio acredita que os arquitetos e urbanistas podem ser fundamentais. "Será mediador, propositor e, fundamentalmente, aquele profissional que vai buscar articular o equilíbrio entre o desafio social e as soluções técnicas", afirma. "O sentido de sustentabilidade no pós-pandemia vai ser justamente aplicar as lições que estamos aprendendo."

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