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Iniciativas que inspiram

"Cesta básica tem papel fundamental, mas é preciso democratizar orgânicos"

Projeto nasceu para ajudar a evitar fome, e má alimentação, na pandemia - Divulgação
Projeto nasceu para ajudar a evitar fome, e má alimentação, na pandemia Imagem: Divulgação

Diana Carvalho

De Ecoa, em São Paulo

07/07/2020 04h00

A ficha de que o coronavírus não se tratava apenas de uma gripezinha caiu rápido para Aziz Camali Constantino. O empreendedor perdeu uma pessoa próxima para a doença bem no início da pandemia no Brasil, que já deixou mais de 65 mil mortos no país.

Buscando uma forma de lidar com o luto sem fechar os olhos para a crise que afetaria ainda mais a vida de brasileiros em situação de vulnerabilidade, Aziz reuniu cinco amigos dispostos a ajudar e a discutir o que poderia ser feito de maneira imediata, com impacto positivo na vida dessas pessoas.

"Criei um grupo de WhatsApp e começamos a pensar de que maneira atuar. Já tinha muita gente, organizações e movimentos focados na parte de saúde com doações de EPIs, álcool em gel, respiradores. Olhando com mais atenção, a gente viu que o buraco central era a alimentação. Sem comida na mesa o que adianta? Não importa saúde, segurança pública, economia. Simplesmente não tem o que fazer. Aí pensamos em atuar no segmento", conta.

A ação começou com um saco de laranjas. Foi de uma dúvida simples, mas complexa em sua resolução, que nascia a estrutura de um projeto focado em levar alimentos frescos e saudáveis para comunidades periféricas. "Surgiu alguém no grupo procurando destinatário para um saco de laranja. Aí deu o start: 'Como a gente faz para doar esse tipo de alimento?"

Projeto Orgânico Solidário - Divulgação - Divulgação
O projeto beneficia famílias com frutas, legumes e verduras, um complemento às cestas básicas convencionais
Imagem: Divulgação

A resposta veio com a criação do Orgânico Solidário. Mais do que uma campanha de arrecadação, o projeto vem se consolidando como um modelo de negócio social que atua em duas frentes: favorecendo o pequeno produtor e levando uma alimentação saudável para pessoas que até então não tinham acesso. Hoje, famílias de 71 comunidades em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, recebem de 15 em 15 dias uma cesta de 6 kg com frutas, legumes e verduras. Ao todo, já foram entregues mais de 19 mil cestas.

"Isso foi possível porque fizemos uma negociação direta com operadores de orgânicos. A preço de mercado, uma cesta sai por R$ 110 a R$ 150. Conseguimos chegar a um valor de R$ 45, que é de subsídio, mas houve um pouco de resistência justamente pelo 'boom' dos orgânicos no começo da pandemia, com todo mundo preocupado em comer bem. Muitos estavam focados em atender essa demanda", diz.

No entanto, manter uma renda contínua com a possibilidade de pagamento à vista fez com o número de parceiros aumentasse a cada mês. Hoje, são 56 produtores cadastrados.

Ação do Orgânico Solidário - Divulgação - Divulgação
Produtores rurais reservam parte de sua colheita para o Orgânico Solidário
Imagem: Divulgação

"Em meio a uma crise, qual produtor não quer receber um valor todo mês, quase no dia seguinte à entrega, e ainda acessar pessoas que nunca tiveram contato com orgânicos? Porque, até então, o cliente era o mercado, não as pessoas que comem". Ainda segundo Aziz, muita gente que doou dinheiro para o projeto também passou a comprar orgânicos pela primeira vez. "Começaram a perguntar em nossas redes sociais como faziam para adquirir uma cesta a preço cheio. Engraçado isso: muita gente precisou doar primeiro para só depois olhar para o próprio armário e refletir: 'Cara, por que eu estou comendo isso?"

O sustento do projeto

Hoje, o Orgânico Solidário se mantém com uma rede de doadores fixa, por meio de uma assinatura mensal, e com doações avulsas que podem ser feitas em número de cestas. Por exemplo, doando R$ 45, uma cesta é entregue. Doando R$ 90, duas cestas são entregues, e assim por diante. Quem faz a gestão dos recursos é o Instituto Phi. O projeto envolve ainda a atuação das ONGs Causei e Atados, responsáveis pela curadoria de instituições que organizam e auxiliam na distribuição de cestas.

"Conseguimos ainda parcerias importantes, com a Klabin, que faz a doação de caixas para o armazenamento dos alimentos, e negociamos com o PagSeguro a diminuição quase total das taxas em cima das doações, além de acelerar os recebíveis. Isso ajudou a ter quatro formas de doar: por transferência, boleto, débito e crédito. Se tivéssemos uma taxa alta, isso não seria possível", diz.

Cesta de alimentos do projeto Orgânico Solidário - Divulgação - Divulgação
Cesta de alimentos do projeto Orgânico Solidário
Imagem: Divulgação

Segundo o empreendedor, a ideia agora é criar meios para que o Orgânico Solidário não dependa apenas da arrecadação de recursos. "No Brasil, a filantropia não é vista como uma visão estratégica, as pessoas não estão acostumadas a compartilhar dinheiro. É por isso que a maioria das campanhas de doações são sempre emergenciais, com vida curta", diz.

Uma das formas para que a ação se sustente a partir de uma geração de receita é a criação de um selo orgânico para empresas parceiras, o que pode garantir um percentual de venda. Os cofundadores também estudam a implementação de uma plataforma para conectar produtores a clientes, a partir da demanda de pessoas que se tornaram consumidores de orgânicos após as doações.

"O objetivo do projeto sempre será o de alimentar pessoas. Então, toda e qualquer geração de receita terá como prioridade fortalecer e ampliar esse consumo. É claro que essas novas frentes devem ajudar a subsidiar custos, taxas administrativas e minimamente a ter um funcionário responsável por essa gestão", afirma.

Projeto Orgânico Solidário - Divulgação - Divulgação
O projeto Orgânico Solidário atende famílias de 71 comunidades em SP, RJ e Santa Catarina
Imagem: Divulgação

Alimentação saudável como direito

Para Aziz, o fato de o acesso a alimentos orgânicos estar atrelado apenas a uma parcela privilegiada da população parte da exploração que existe em cima do segmento, com produtos comercializados acima do preço. A solução para desconstruir essa imagem é justamente valorizar cada vez mais a cadeia produtiva, em sua maioria formada por uma produção familiar e local, e conectá-la diretamente ao consumidor final.

"O orgânico é legítimo como causa, mas entrou em lugar muito mais comercial, onde o intermediário acaba explorando um valor para manter sua margem de lucro. Por isso é importante valorizar e fortalecer quem está nas duas pontas do processo", acredita.

Distribuição de alimentos do projeto Orgânico Solidário - Divulgação - Divulgação
David e Bianca, cofundadores do Orgânico Solidário durante a entrega das cestas
Imagem: Divulgação

Com cestas distribuídas em periferias, o Orgânico Solidário não só estimula uma mudança de hábitos alimentares, mas também gera interesse na busca por novas receitas. "Pessoas que antes não tinham acesso a esses alimentos agora compartilham com a gente que os filhos estão buscando receitas no YouTube para fazer leite de inhame, aproveitando cascas para fazer farinha...", conta Aziz, que espera ainda com o projeto potencializar o cultivo de orgânicos dentro das próprias comunidades.

"Não temos nada contra a cesta básica convencional, ela tem um papel social muito importante. Mas entender que uma alimentação parte apenas de arroz, feijão e macarrão é duro. Por isso é importante ampliar esse cultivo, democratizar esse processo e acesso. E aqui não estamos falando de assistencialismo — alimentação é direito básico", finaliza.

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