PUBLICIDADE
Topo

Ataques virtuais não são ferramenta de justiça social, diz Brené Brown

Brené Brown lançou, em 2019, o livro "A Coragem para Liderar" e fala sobre como não devemos ter medo de errar - Divulgação
Brené Brown lançou, em 2019, o livro "A Coragem para Liderar" e fala sobre como não devemos ter medo de errar Imagem: Divulgação

Fernanda Ezabella

Colaboração para Ecoa, de Los Angeles (EUA)

21/06/2020 04h00

"Você está aqui para acertar, não para estar certa". Este é o mantra da pesquisadora americana Brené Brown, que virou celebridade internacional ao ganhar seu próprio programa na Netflix, no ano passado. Famosa pelos estudos sobre vulnerabilidade e empatia, ela admite que ainda escorrega quando o assunto é racismo, mesmo com 25 anos de trabalho antirracismo.

E, quando isso acontece, ela volta a repetir para si mesma: "Você está aqui para acertar, não para estar certa".

Brown, autora dos best-sellers "A Coragem de ser Imperfeito" e "Eu Achava que Isso Só Acontecia Comigo" (ed. Sextante), participou de um evento online do TED logo quando explodiam os protestos antirracistas e contra violência policial por diversas cidades dos EUA.

A pesquisadora da Universidade de Houston (Texas, EUA) chegou a procurar os organizadores para saber se queriam mesmo ouvir uma "mulher branca de meia-idade" falar sobre o assunto.

"Se você colocar na cabeça: 'ah, quero ser o melhor aliado branco, sei de tudo, sou infalível'. Então seu objetivo é estar certo. Se você entrar na conversa dizendo: 'Oh Deus, vamos lá, isso pode doer, mas estou aqui para entender e fazer a coisa certa'. Esta é a diferença", disse Brown, que está acostumada a ser questionada em suas palestras sobre seu privilégio de ser branca.

Ataques virtuais

Brown, 54, é doutora em trabalho social, escreveu sobre coragem e vulnerabilidade, mas sua grande especialidade são as mecânicas da vergonha e da empatia. Ela explica que envergonhar o próximo, como fazemos em ataques virtuais, não é uma "ferramenta de justiça social" e ajuda a aprofundar a violência.

"Envergonhar o próximo não muda comportamentos. A vergonha move comportamentos perigosos. São 50 anos de estudos dizendo que a vergonha está altamente relacionada à violência, à agressão, à suicidologia, ao bullying, ao vício", disse. "O que precisamos, antes de tudo, é responsabilizar as pessoas."

Não é que ela não sinta vergonha quando escorrega em suas falas sobre racismo. Mas há uma diferença. "Sentir vergonha quando somos responsabilizados por comportamentos racistas não é o mesmo que ser envergonhado por comportamentos racistas", explica.

"Só porque sentimos vergonha quando somos responsabilizados não significa que alguém está nos envergonhando. É nosso trabalho regular e superar a vergonha."

Brené Brown conversa com Helen Walters e Whitney Pennigton Rodgers durante o TED2020 - TED - TED
Brené Brown conversa com Helen Walters e Whitney Pennigton Rodgers durante o TED2020
Imagem: TED

Privilégio da vulnerabilidade

Antes da estreia do programa "Brené Brown: O Poder da Coragem", da Netflix, a pesquisadora havia feito duas palestras no TED que, juntas, já foram vistas mais de 60 milhões de vezes. Ela também apresenta o podcast "Unlocking Us", oferece workshops sobre vulnerabilidade para empresas e lidera uma comunidade online sobre o tema.

"Vulnerabilidade é uma expressão humana essencial, é o berço do amor, da intimidade, da confiança, da criatividade", disse aos ouvintes online do TED. "Mas isso não deveria ser um privilégio. É muito difícil pedir às pessoas para serem vulneráveis quando elas precisam se proteger todos os dias para se manterem vivas."

Brown aparece também em outro programa da Netflix, o filme "Wine Country", dirigido por Amy Poehler, sobre um grupo de amigas que tiram férias juntas numa casa de campo. Quando elas cruzam com a pesquisadora num restaurante, vão correndo atrás dela como se fosse uma celebridade de Hollywood.

Mas os dias de jantar fora ficaram no passado, ao menos por enquanto. Ela contou que manteve 12 semanas de quarentena rigorosa com sua família, em Houston, incluindo seus dois filhos, seu marido pediatra e dois adultos de 80 e poucos anos.

Sem exceção, combinou que todos deveriam se exercitar de alguma forma diariamente, seja com ioga ou alongamento, já que "guardamos medo e ansiedade em nossos corpos", explicou. A família também limitou consumo de notícias e fez um pacto para ser mais gentil e apologético um com os outros. "Podemos ajudar nossos filhos a entender que incertezas fazem parte da vida."

Raiva e frustração com protestos

Para Brown, a pandemia expôs todas as falhas e rachaduras da nossa sociedade. "O vírus não discrimina, mas os americanos discriminam", disse, citando o número desproporcional de negros afetados pelo Covid-19 nos Estados Unidos — o Brasil vê a mesma tendência. Segundo estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-RJ, o coronavírus mata 55% dos negros, contra 38% dos brancos infectados.

"Estamos todos cansados e quebrados. Mas o sistema não está quebrado. O sistema está funcionando exatamente como deveria, privilegiando os brancos sobre os negros."

A pesquisadora disse que os protestos atuais estão, na verdade, lhe causando uma grande frustração e raiva por conta da reação de surpresa que muita gente tem demonstrado. "Estamos vendo um pouquinho da realidade e agindo com surpresa", disse.

"Isso significa que nós nunca paramos para ouvir e honrar as histórias que eles [negros] têm contado sem parar há séculos."

Desigualdade