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Como o coronavírus está afetando as comunidades quilombolas

Cartaz na entrada do quilombo Pitimandeua, em Inhangapi (PA) - Malungu/Divulgação
Cartaz na entrada do quilombo Pitimandeua, em Inhangapi (PA) Imagem: Malungu/Divulgação

Beatriz Sanz

De Ecoa, em São Paulo

13/06/2020 04h00

"Eu vou morrer". Foi isso que Cássia Cristina pensou quando soube que o coronavírus tinha chegado a Belo Horizonte. Ciente da situação de vulnerabilidade da comunidade, a líder do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, na zona leste da capital mineira, tomou uma medida drástica e decidiu separar a comunidade.

Foi assim que a matriarca do quilombo, Efigênia Maria da Conceição, e as crianças foram levadas para o terreiro da comunidade que fica em Santa Luzia, na região metropolitana da cidade, para manterem um isolamento preventivo.

Dona Efigênia ficou responsável por ensinar às crianças as tradições do grupo "A melhor forma era garantir toda a nossa continuidade, a partir da minha mãe. Fui orientando sobre a importância de preservar as nossas tradições. Para ela não se sentir sem o que fazer, como teria que fechar o terreiro e ficar mais isolada", contou Cássia.

A preocupação tem raiz em questões históricas, já que os quilombolas são descendentes diretos de pessoas escravizadas que fugiram e se assentaram em comunidades rurais. Para evitar a chegada da Covid-19, muitos têm procurado fechar acessos ou, como fez Cássia, isolar pessoas no grupo de risco.

No Brasil, há cerca de 6 mil localidades quilombolas, segundo estimativa do IBGE. Esses territórios mantêm tradições e festejos que remontam à herança cultural africana e têm valor histórico. Pela primeira vez, a população quilombola será identificada em um Censo, no ano que vem. Enquanto dados oficiais continuam escassos, as comunidades tem usado a união e mobilizado redes de doações para tentar burlar carências históricas como acesso a sistema de saúde e saneamento básico.

Quilombo Aquicaete, no Pará - Malungu/Divulgação - Malungu/Divulgação
Quilombo Aquicaete, no Pará, fechou a entrada para a comunidade
Imagem: Malungu/Divulgação

Precariedade no acesso à saúde

Além dos riscos ao patrimônio humano e cultural, o enfrentamento ao coronavírus passa ainda por dificuldades no acesso a diagnóstico e tratamento, algo recorrente em territórios quilombolas. É o que explica a doutora em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em saúde quilombola, Lucelia Luiz Pereira.

"Comunidades quilombolas se tornam mais vulneráveis à Covid-19 devido, principalmente, às desigualdades raciais e socioeconômicas vivenciadas por este grupo populacional", resume.

Até o momento, o coronavírus já infectou 619 quilombolas em 11 estados, segundo dados publicados em plataforma da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e do Instituto Socioambiental (ISA). A letalidade tem assustado. Desses, 71 morreram (11%).

"Se esse vírus continuar com essa força total, quilombos inteiros serão dizimados", diz a entidade. Vale ressaltar que a média nacional gira em torno de 5%.

Lucelia Luiz Pereira ressalta que "um dos principais problemas nas comunidades se refere às questões higiênico-sanitárias relacionadas às dificuldades de acesso a água tratada, a rede de esgoto, a coleta de lixo".

O cenário pintado por Pereira é semelhante ao que os negros recém-libertos viviam na época da gripe espanhola de 1918, de acordo com o professor e historiador da UERJ, Maurício Barros de Castro.

"Certamente foi uma epidemia devastadora porque a condição que os recém-libertos viviam no Brasil era de extrema insalubridade e condições de higiene que eram muito precárias", conta o especialista em artes e culturas da diáspora africana.

Outra semelhança entre as duas pandemias é a falta de dados nacionais sobre a morte de negros. A Justiça Federal do Rio de Janeiro obrigou os governos a informarem cor e raça das vítimas, mas isso ainda não acontece.

UBS não chega a muitas comunidades

Poucos quilombos dispõem de atenção básica para a saúde. "Existe um acesso desigual ao SUS e [essas populações] sofrem de forma mais intensa com a ausência de atenção e disponibilidade de redes de atenção primária", diz Pereira, que é membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

O acesso a diagnóstico e tratamento adequado acaba sendo precário mesmo para quem consegue atendimento.

Zica Pires, liderança no quilombo Santa Rosa dos Pretos, localizado em Itapecuru Mirim, no Maranhão começou a apresentar sintomas da Covid-19 em 27 de abril.

Orientada por uma enfermeira de São Luís, a jovem de 25 anos recebeu receitas para diminuir a febre e amenizar os sintomas, além de um pedido de quarentena por duas semanas.

"No décimo segundo dia, tive uma dor no peito e um pouco de falta de ar, e a enfermeira sugeriu que eu fosse ao médico fazer um raio-X", conta Zica.

O exame diagnosticou uma pneumonia leve, e Zica fez o teste para Covid-19 em um posto de saúde da cidade. O resultado viria pelo telefone. "Até hoje, uma semana depois, não me ligaram. Eu já terminei a quarentena, já terminei de tomar os remédios e já me sinto melhor. Ainda não recuperei o olfato", relata.

O quilombo onde Zica vive abriga de 2 mil pessoas e tem ao menos 20 casos suspeitos, todos com sintomas leves. Nenhum deles diagnosticado.

Racismo compromete atendimento

Além da dificuldade de acesso à rede de saúde, os quilombolas enfrentam ainda outro problema quando conseguem atendimento médico: o racismo.

Anacleta Pires leciona há 30 anos no quilombo Santa Rosa dos Pretos. Mas, ao precisar de atendimento no hospital Adélia Matos Fonseca foi questionada por uma funcionária se sabia assinar o próprio nome.

Sua filha Zica disse já ter ouvido de um médico que "esse povo da roça não sabe lavar o pé direito".

Wendel Marcelino, do quilombo Buriti do Meio, engrossa o coro. "É um racismo [porque] os pacientes que chegam na unidade de emergência não são atendidos da maneira certa", relata.

Lucelia Pereira explica que isso acontece porque "o racismo é um dos determinantes dos processos de saúde e doença, o que torna as comunidades quilombolas mais vulneráveis".

Santa Rosa dos Pretos, comunidade quilombola no Maranhão recebeu doações via financiamento coletivo - Tiago Pereira/Divulgação - Tiago Pereira/Divulgação
Santa Rosa dos Pretos, comunidade quilombola no Maranhão recebeu doações via financiamento coletivo
Imagem: Tiago Pereira/Divulgação

O impacto econômico

A renda do Manzo Ngunzo Kaiango, em Belo Horizonte, por exemplo, é baseada em atividades culturais desenvolvidas pelos moradores e no trabalho doméstico exercido pelas mulheres da comunidade.

Com a proibição de aglomeração e as limitações de mobilidade necessárias para evitar a disseminação do vírus, a renda do quilombo ficou comprometida.

Outra prática comum é o escambo, bastante presente no quilombo Buriti do Meio. Alimentos produzidos na comunidade eram trocados por outros itens de necessidade na cidade, porém a saído do quilombo tem sido evitada.

O caminho foi cadastrar as famílias que tinham os pré-requisitos para receber o auxílio emergencial. Como isso não atende a todos, os quilombos estão recorrendo a doações.

Em Santa Rosa dos Pretos, por exemplo, onde os quilombolas costumavam vender frutas nas estradas para caminhoneiros e viajantes. Um financiamento coletivo ultrapassou a meta de R$ 13,5 mil e conseguiu arrecadar mais do que as cestas básicas previstas para 120 famílias.

No norte de Minas, Wendel Marcelino agregou 39 quilombos de 10 cidades da região e criou o SOS Quilombos do Norte, que recolhe e distribui alimentos, máscaras, sabonetes e outros itens de necessidade básica para a população quilombola.

Saiba como fazer doações para os quilombos:

Conaq
Vakinha para comprar alimentos e itens de higiene

Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango
Banco Sicoob
Titular da conta: Associação de resistência cultural da comunidade quilombola Manzo Ngunzo Kaiango
Agência: 4236
Conta: 14.737.001-9
CNPJ: 07981042/0001-8

SOS Quilombos do Norte
Banco do Brasil
Titular da conta: CONSEP x
Agência: 0494-4
Conta: 26524-1
CNPJ: 13.892.132/0001-17

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