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"É preciso canalizar a raiva para ação e mudança social", diz Bernice King

A reverenda Dr. Bernice King, filha de Martin Luther King Jr., durante discurso no museu National Civil Rights, em 2018, em Memphis - Joe Raedle/Getty Images
A reverenda Dr. Bernice King, filha de Martin Luther King Jr., durante discurso no museu National Civil Rights, em 2018, em Memphis Imagem: Joe Raedle/Getty Images

Fernanda Ezabella

Colaboração para Ecoa, de Los Angeles (EUA)

10/06/2020 04h00

Bernice King tinha idade parecida com a de Gianna Floyd, filha de seis anos de George Floyd, quando seu pai, Martin Luther King Jr., foi assassinado em Memphis, em 1968. Em sua primeira aparição pública, também como aconteceu com Gianna, Bernice surge nos braços de sua mãe no funeral do pai, uma das principais vozes contra segregação racial nos EUA.

"Estou com o coração um pouco pesado porque meu pai também foi assassinado quando eu tinha cinco anos. E ele mudou o mundo. Mas a tragédia é que não ouvimos o que ele estava dizendo como profeta desta nação e agora suas palavras estão reverberando de volta", disse Bernice King, filha mais nova de Martin Luther King Jr. e Coretta Scott King, num evento do TED na semana passada.

"O único caminho a seguir é se nos arrependermos de ser uma nação construída com violência", disse. "Precisamos desconstruir essa fundação e criar uma nova. E essa nova fundação é amor e não-violência."

King participou de uma mesa online com outros três ativistas: o líder do Center for Policing Equity, que trabalha com departamentos de polícia nos EUA, o presidente do Color of Change, um grupo de direitos civis focado em justiça racial, e o diretor executivo da American Civil Liberties Union (ACLU), principal organização de defesa das liberdades civis do país.

Como seu pai, King virou pastora batista e possui alguns de seus maneirismos quando faz seus discursos e sermões. Ela é presidente-executiva do The King Center, fundado por sua mãe logo após a morte do marido, com sede em Atlanta, Geórgia. O centro é dedicado à pesquisa, educação e treinamento nos princípios e métodos da não-violência.

"Uma coisa que precisamos fazer é assegurar que todo mundo, especialmente meus irmãos e irmãs brancas, se envolva no trabalho duro e no trabalho em seus corações contra o racismo", disse a ativista, fazendo um trocadilho com "hard" (duro em inglês) e "heart" (coração). "Ninguém está isento. Especialmente a comunidade branca."

Vácuo moral

Coretta Scott King, mulher de Martin Luther King Jr., com a filha mais nova, Bernice, durante o funeral do marido em 1968 - Moneta Sleet Jr./UPI/Bettmann - Moneta Sleet Jr./UPI/Bettmann
Bernice, aos 5 anos, no colo da mãe, Coretta Scott King, durante o funeral do pai e ativista, Martin Luther King Jr.
Imagem: Moneta Sleet Jr./UPI/Bettmann

A ativista acredita que os protestos que se espalham pelos EUA e pelo mundo, cujo estopim foi o assassinato de George Floyd por um policial branco, são diferentes de outros momentos históricos porque estamos num "vácuo de liderança", algo facilmente visto também no Brasil.

"Não existe uma voz moral no país. A pessoa que ocupa o cargo da Presidência não está liderando no caminho certo. Ele meio que deu vida a certas coisas. E agora, você sabe, ele acendeu o fogo", disse Bernice sobre o presidente americano, Donald Trump.

Ela afirmou que é preciso assegurar que os manifestantes, muitos dos quais são jovens, conectem-se com o trabalho que tem sido feito pelas organizações de defesa civil e justiça racial, como a ACLU e a Color of Change.

"Às vezes, há uma desconexão que intensifica as emoções e te faz sentir desamparado", disse King. "Mas a raiva precisa ser canalizada para a ação e para se criar mudança social e econômica."

Muito além de arrumar a polícia

O psicólogo Phillip Atiba Goff, cofundador do Center for Policing Equity, é especialista na relação entre raça e policiamento nos EUA. Sua organização trabalha com departamentos de polícia em todo o país para conter preconceito racial, inclusive em Mineápolis há cinco anos, de onde veio o policial que matou Floyd ao ajoelhar em seu pescoço por oito minutos.

"Fizemos um progresso pequeno, mas mensurável em Mineápolis. Mas os eventos das últimas semanas não apenas nos levaram de volta ao zero como cavaram um buraco no chão. Agora temos que sair desse buraco", disse Goff no evento.

Sua palestra no ano passado sobre a Center for Policing Equity já foi vista por mais de 2 milhões de pessoas.

Para o ativista, o problema está muito além da reforma da polícia. Ele cita a força dos sindicatos que lutam para proteger agentes criminosos, e a falta de reconhecimento do perigo representado pela supremacia branca, infiltrada em diversas esferas da sociedade.

"O que estamos vendo com os protestos é o vencimento da conta que o país deve aos seus residentes negros", disse Goff, lembrando dos trilhões de dólares que sendo direcionados a corporações em meio à pandemia. "Temos todo o dinheiro do mundo. Precisamos começar a fazer a contabilidade juntos para parar de pagar os juros dessa conta maldita."

Goff explicou que o Center for Policing Equity também trabalha encorajando cidades a tirar dinheiro do orçamento da polícia para investir em comunidades. "Se não tivéssemos tirado recursos públicos das comunidades que mais necessitam, não precisaríamos de polícia em primeiro lugar", disse.