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Projeto que viabiliza quartos para profissionais da saúde chega ao Brasil

Técnico de enfermagem Adolfo Casas Ebel no quarto de hotel obtido gratuitamente pelo Rooms Against Covid - Divulgação
Técnico de enfermagem Adolfo Casas Ebel no quarto de hotel obtido gratuitamente pelo Rooms Against Covid Imagem: Divulgação

Antoniele Luciano

Colaboração para Ecoa, de Curitiba (PR)

09/06/2020 04h00

O projeto que viabilizou acomodação temporária a profissionais de saúde que atuam no combate ao coronavírus em Portugal chegou ao Brasil. A iniciativa Rooms Against Covid (Quartos contra Covid) está operando desde maio em Curitiba, no Paraná, e deve ser implantada nas próximas semanas em cidades do interior do estado, além de nas capitais de São Paulo e Amazonas, onde a incidência da doença tem sido maior.

A ideia de trazer o projeto para o país é da economista Nastássia Romanó Leite de Castro, 33, que assistiu ao início da pandemia enquanto ainda estava na França. Ao ter de retornar para Curitiba devido aos desdobramentos da Covid-19, Nastássia começou a pesquisar formas de contribuir com a sociedade em meio à crise sanitária. Foi então que soube que startups portuguesas, incentivadas pelo governo, criaram uma série de projetos apoiados na tecnologia para lidar com problemas provocados pela pandemia. O movimento, chamado Tech for Covid-19, envolveu cinco mil profissionais como engenheiros, cientistas, designers e profissionais de saúde. "Conversando com algumas dessas pessoas, percebi que o Rooms Against Covid é o que tinha mais sinergia com o Brasil. Decidi começar por isso", explica a coordenadora do programa.

Na prática, a iniciativa funciona por meio de uma plataforma, em que interessados em oferecer hospedagem se cadastram e tem as informações cruzadas com os cadastros de profissionais de saúde que desejam usar o serviço para não exporem suas famílias a uma possível contaminação. Uma busca ativa entre as partes é feita, então, para promover o "match" entre elas e, em seguida, a gestão da reserva. Por enquanto, 20 pessoas já se cadastraram no site do Rooms Against Covid. Duas conseguiram acomodação gratuita por pelo menos 14 dias e direito a café da manhã. Já foram obtidas parcerias para 77 acomodações temporárias em dois hotéis e um hostel, sendo 75 com tarifas com descontos que variam de acordo com o perfil dos estabelecimentos.

Para Nastássia, a iniciativa colabora não só com os profissionais de saúde, mas também o setor de hospedagem, que precisa continuar gerando renda. "Temos como ajudar os hotéis a não fecharem e a não demitirem. Mesmo que seja operando com o preço de custo, já vale a pena para eles", observa.

Em Curitiba, os critérios para atendimento dependem da disponibilidade da vaga - gratuita ou a preço de custo. No geral, são analisados o nível de exposição dos profissionais ao coronavírus, a renda deles e a proximidade entre o local de trabalho e o alojamento ofertado.

Apoio governamental

Nastássia Romanó Leite de Castro, coordenadora do Rooms Against Covid, no Brasil: projeto apóia profissionais de saúde e gera renda - Divulgação - Divulgação
Nastássia Romanó Leite de Castro, coordenadora do Rooms Against Covid, no Brasil: projeto apóia profissionais de saúde e gera renda
Imagem: Divulgação

Conforme a coordenadora, como a meta é escalar o projeto nacionalmente, a equipe do Rooms Against Covid está trabalhando para fazer com que mais profissionais de saúde saibam da iniciativa. O mapeamento de demanda foi levado para outras cidades com maior incidência do coronavírus, como São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus, com o intuito de fazer um cadastro de interessados e obter mais parcerias para acomodações. "Se tivermos preenchimento de interessados em outros locais, se torna mais fácil direcionar o projeto para lá", pontua ela, ao assinalar que, além de divulgação, o Rooms Against Covid precisa de parcerias com mais hotéis, pousadas, imobiliárias e entidades governamentais, que possam chancelar a iniciativa, assim como ocorreu em Portugal.

No país europeu, o governo não só ajudou na divulgação do programa, como subsidiou as acomodações. Foram disponibilizados 250 mil euros (R$ 1,3 milhão na cotação atual) apenas para esse projeto, relata o líder do Rooms Against Covid em Portugal, Francisco Varela Civa. Segundo ele, o apelo para que estratégias de enfrentamento ocorressem de maneira uniforme veio do governo. Em uma semana, acordos e protocolos de saúde envolvidos já eram colocados em prática. "Tivemos mais oferta de acomodações do que profissionais interessados e recebemos ajuda do Setor de Turismo de Portugal. Para cada noite, eram pagos 7 euros, além da limpeza, com custo de 3 euros. Os profissionais não precisavam pagar nada", relata.

Em 30 dias de acomodação, por exemplo, foram investidos 300 euros por alojamento (o equivalente a R$ 1.683), sendo 210 euros para hospedagem e 90 euros para empresas de limpeza terceirizadas, que seguiam protocolos de desinfecção aprovados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O tempo mínimo de estadia também era de 14 dias e os custos da alimentação não estavam inclusos.

Ao todo, a iniciativa atendeu 754 profissionais da linha de frente no combate ao coronavírus. Foram utilizadas, por meio do programa, mais de 16 mil noites de hospedagem em mais de 870 alojamentos, entre quartos de hotel, hostels e apartamentos de temporada. Com o relaxamento das medidas após o período de quarentena no país, a partir de 12 de junho o projeto não oferecerá mais alojamentos em Portugal. No entanto, segue na Inglaterra, com acomodações concentradas nas regiões de Londres e Bristol. "Em um mês e meio, houve mais de 50 matches por lá. Os voluntários têm contatos com hospitais, que disponibilizam esses alojamentos", comenta Civa.

Ele afirma que o projeto não foi levado para os Estados Unidos devido à falta de voluntários no país.

Acomodação disponibilizada pela Prefeitura de Curitiba: município alugou 100 quartos de hotel para trabalhadores da saúde - Divulgação - Divulgação
Acomodação disponibilizada pela Prefeitura de Curitiba: município alugou 100 quartos de hotel para trabalhadores da saúde
Imagem: Divulgação

Peso no orçamento

No Brasil, a capacidade de pagamento por acomodação entre os profissionais de saúde é um ponto crítico observado pela coordenação do Rooms Against Covid. Seguindo a média salarial desses profissionais, o projeto estima que, caso comprometessem 20% da renda com alojamento durante a pandemia, médicos poderiam pagar por dia somente R$ 70 em acomodação, seguidos de médicos recém-formados (R$50), enfermeiros (R$30) e técnicos em enfermagem (R$ 13), com capacidade de pagamento ainda menor.

Diante do impacto de uma locação no orçamento doméstico, é comum que esses profissionais busquem reorganização de seus espaços familiares, com remanejamento de idosos e crianças, observa a enfermeira Érica Chagas, membro do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP).

"Há pessoas que estão na casa de outros profissionais de saúde que não fazem parte do grupo de risco, pessoas que deixaram os pais, que não veem os filhos há meses. São pessoas muito criativas, que fazem adaptações em seu espaço", diz a conselheira, ao observar que a categoria ainda não tem um piso salarial, o que deixa esses profissionais ainda mais vulneráveis pelo Brasil. Para se ter uma ideia, no interior, a remuneração de um enfermeiro gira em torno de R$ 3 mil, enquanto de um técnico em enfermagem não ultrapassa os R$ 2 mil.

Mesmo assim, os profissionais de saúde têm se mostrado afetados pelos riscos que a pandemia pode causar a eles e às pessoas com quem convivem em casa. Uma sondagem do Coren-SP, realizada em abril, ouviu 5.451 trabalhadores e aponta que 80% dos entrevistados têm medo de atuar em serviços de saúde no cenário da pandemia. Desse público, 40% têm como maior medo levar a contaminação para a família e 10% contaminarem a si próprios. "O medo é uma realidade para profissionais da enfermagem. Enquanto todos estão se isolando, eles são os que mais se aproximam dos pacientes", analisa Érica.

Esse tipo de situação traz impactos negativos ao trabalho dessas pessoas, como insegurança e incertezas relacionadas à ansiedade. No ano passado, uma pesquisa do Coren-SP já havia mostrado a ansiedade como um problema frequente entre 70% dos entrevistados, num universo de 23 mil participantes. "Em uma profissão com sobrecarga emocional grande, ao associar isso à pandemia, sobrecarrega-se muito mais a saúde mental", salienta a conselheira.

Dois meses fora de casa

Esse receio em levar o Covid-19 para dentro de casa fez o técnico em enfermagem Adolfo Casas Ebel, 32 anos, tentar uma vaga de alojamento pelo Rooms Against Covid. Há dois meses, ele decidiu sair temporariamente de casa para preservar a saúde do companheiro, que tem problemas respiratórios e, por causa da pandemia passou a fazer home office. Antes de conseguir uma acomodação gratuita pelo projeto, Ebel estava morando com uma amiga, também profissional de saúde. "Nós não nos víamos. Trabalhávamos em horários diferentes", conta.

O técnico diz que se sente mais tranquilo com relação à família, mas não ao seu trabalho, em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). "Continuo mantendo os mesmos cuidados que tinha antes. Por mais que use equipamentos de segurança, siga instruções, eu não deixo de ter medo, trabalho com receio. Se me sentir muito seguro, posso pular alguma etapa, deixar passar algo", sustenta.

Quem não atende diretamente pacientes suspeitos de Covid-19, mas precisa estar dentro de um hospital também se diz preocupado. A pandemia mexeu tanto com a administradora Caroline da Cruz de Lima, 31, que ela saiu da casa dos pais, ambos idosos e hipertensos. Caroline desenvolveu um plano para lidar com catástrofes no hospital em que atua como gerente de Qualidade e Processos, estando diariamente no complexo. Por isso, entendeu ser mais prudente alugar uma acomodação via Airbnb. "Entendo que o hospital é um local seguro, mas se uma falha ocorrer, posso ir para casa e contaminar alguém", pondera.
Depois de 15 dias, os pais de Caroline foram morar com a irmã dela, em um apartamento na rua de trás da casa da família. Eles se veem todos os dias pela janela.

Protagonismo da limpeza

Proprietária e diretora-executiva do estabelecimento onde o técnico em enfermagem está hospedado, o Hotel Rayon, Marilis Borcath relata que entrou no projeto como forma de se solidarizar com esses profissionais e de manter o negócio funcionando, sem demissões. "Tomamos a decisão de não fechar, pensando na ação social", define. Antes de descobrir o Rooms Against Covid, o estabelecimento de 19 andares e 159 apartamentos já tinha começado a oferecer tarifas a preço de custo e viu na iniciativa trazida ao Brasil uma possibilidade de extensão dessa medida. A hospedagem com direito a café da manhã passou de R$ 330 para R$ 180. Duas acomodações também foram doadas.

Tanto no Hotel Rayon como em outros participantes do Rooms Against Covid o cuidado com a limpeza dos ambientes passou a seguir protocolos preconizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para garantir uma uniformização nos procedimentos, o projeto criou um manual de boas práticas com 36 páginas, revisado e validado pela Fundação de Asseio, Conservação, Serviços Especializados e Facilities (Facop).

O material aborda desde os equipamentos de proteção que profissionais da rede hoteleira devem usar até como higienizar corrimãos e bocais de aparelhos telefônicos, servir refeições e retirar lençóis dos quartos sem risco de espalhar micro-organismos. "Toda equipe de limpeza do hotel precisa estar paramentada com máscaras, luvas, aventais e panos que devem ser descartados após a limpeza de cada ambiente", assinala a enfermeira Letícia Santos, responsável por coordenar a área de limpeza do Rooms Against Covid.

Segundo ela, é muito importante que os estabelecimentos adotem produtos certificados pela Anvisa e que tornem a prática da limpeza protagonista no enfrentamento ao coronavírus. "É preciso entender a diferença entre limpeza, que é a remoção da sujicidade, e a desinfecção, quando usamos produtos para a quebra de um micro-organismo, deixando-o menos nocivo. Não é a mesma coisa de limparmos a nossa casa", observa.

Letícia espera que esses procedimentos sejam incorporados à rotina de estabelecimentos de outras áreas, não somente que recebem profissionais da linha de frente no combate à Covid-19. "A eficácia está na conduta. Temos que ter a postura de que qualquer pessoa pode ser portadora do coronavírus, de forma assintomática", argumenta.

Demanda fora dos critérios

Ainda em Curitiba, dois hotéis, cada um com 50 alojamentos, foram alugados pela Prefeitura para abrigar profissionais de saúde durante a pandemia. Um dos hotéis está sendo destinado a trabalhadores da rede municipal que trabalham no combate ao coronavírus, moram com familiares que estão no grupo de risco e não têm estrutura domiciliar para isolamento. O outro hotel foi destinado para casos de profissionais, da rede municipal e de hospitais da cidade, que testem positivo para a doença.

O investimento previsto é de até R$ 1,5 milhão, sendo que as vagas são pagas pelo município conforme a necessidade de utilização. O valor das diárias varia entre R$ 150 e R$ 165, inclui todas as refeições, lavanderia, roupa de cama e estacionamento. Ambos os hotéis estão fechados para esse uso restrito.

No momento, somente três vagas estão ocupadas - sendo uma delas com caso confirmado de coronavírus. A Prefeitura informou que a baixa ocupação se deve à demanda que atende aos critérios exigidos. Situação semelhante vem ocorrendo com a equipe do complexo do Hospital de Clínicas (HC), da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A Associação Amigos do HC fez uma parceria com o Coritiba Futebol Clube, a fim de usar as instalações do Estádio Couto Pereira, que fica a 550 metros do hospital.

Cerca de 80 profissionais manifestaram interesse para usar o espaço, mas nem todos se encaixaram nos critérios analisados por uma comissão do HC, semelhantes aos da Prefeitura. "Tínhamos a pretensão de oferecer 80 vagas, depois deixamos 40, para manter distanciamento. Tivemos inicialmente 20 funcionários usando. No decorrer do tempo, eles foram se tranquilizando e voltando para casa", conta a chefe da Divisão de Gestão de Cuidados do HC, Elizabeth Bernardino.

Hoje, o alojamento tem em torno de dez profissionais. A procura maior pelo serviço ocorreu entre médicos residentes, fisioterapeutas, enfermeiros e técnicos de enfermagem. O HC tem cerca de 300 profissionais lidando com o enfrentamento da Covid-19.

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