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Elite precisa investir na Amazônia e não só fazer filantropia, diz expert

Queimada na floresta amazônica em Novo Airão (AM) em agosto de 2019 - Márcio Melo /Folhapress
Queimada na floresta amazônica em Novo Airão (AM) em agosto de 2019 Imagem: Márcio Melo /Folhapress

Rodrigo Bertolotto

De Ecoa

09/06/2020 04h01

"O empresariado, a elite acha bonito fazer filantropia na Amazônia, mas não quer arriscar o dinheiro dos acionistas fazendo investimentos produtivos na região. Precisamos mudar essa mentalidade. Há oportunidades imensas lá, e estimular o desenvolvimento é a melhor forma de garantir a floresta em pé." Essa foi uma das análises do professor Ricardo Abramovay (FEA-USP) e especialista em energia e sustentabilidade durante o webinar "Usos da Terra no Mundo Pós-Pandemia", promovido nesta segunda (8) pelas entidades Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e Pacto Global, com transmissão pelo UOL.

O debate virtual discutiu como será o futuro para conciliar a produção de alimentos e a preservação ambiental após o impacto que a Covid-19 trouxe para a sociedade e a economia.

Abramovay apontou que o Brasil tem que repensar seu papel na produção alimentar, especialmente de carne. "Os frigoríficos foram um dos principais vetores de transmissão do novo coronavírus em sete países, incluindo o Brasil. Nós aqui temos muita produção de frangos e suínos, com muita concentração e com animais cada vez mais homogêneos, o que facilita enormemente a dispersão do vírus e demanda muito remédio. Esse modelo, com confinamento para fornecer carne barata, está colocado em xeque", afirmou no seminário virtual o blogueiro do UOL.

O professor Ricardo Abramovay, especialista em energia e sustentabilidade - Divulgação - Divulgação
O professor Ricardo Abramovay, especialista em energia e sustentabilidade
Imagem: Divulgação
Para ele, o país tem que ocupar outra posição. "O Brasil não precisa ampliar a fronteira agrícola. Ele deve estar na fronteira da inovação da bioeconomia, uma área que é uma plataforma de vanguarda, mas que tem pouco pesquisa em floresta tropical porque os avanços estão acontecendo fora daqui", disse o professor.

Abramovay definiu que o produtor agrícola deve ser o "melhor amigo" do indígena. "O índio cuida da floresta que produz a chuva que o agricultor consome, afinal, 90% de nossa agricultura não é irrigada e depende das chuvas", sentenciou.

Outra participante do debate foi Ana Grizzi, advogada especializada em direito ambiental. Ela classificou o sistema de controle e comando ambiental do país como "falido".

"As pessoas e empresas têm resistência a cumprir as normas porque as multas são muito baixas e porque as ações duram de 15 a 20 anos para serem julgadas, quando o infrator já pode nem estar mais na empresa. Fora que, por crimes ambientais, poucas pessoas foram presas, e por pouco tempo. Os gestores querem cumprir suas metas, pensam no curto prazo e não incorporam a variável ambiental se ela não for importante para ele", argumentou Grizzi.

De qualquer forma, ela lembrou que essa mentalidade imediatista está fechando mercados para os produtos brasileiros.

Precisamos entender que sem recursos naturais não há economia

Ana Grizzi, advogada especializada em direito ambiental

Já Joice Ferreira, ecóloga e pesquisadora da Embrapa na Amazônia, apontou que as fazendas agroflorestais são sistemas que precisam de investimentos e financiamentos que só estão à disposição de empresários de maior porte.

"O desafio maior é dar escala para que agroflorestas de assentamentos e de agricultores familiares ganhem importância econômica. Há ferramentas para isso, mas falta integração de políticas locais e nacionais", afirmou Ferreira. Ela lembrou que "não é porque a floresta amazônica é nossa que nós vamos derrubar".

Por seu lado, Juliana Lopes, diretora de sustentabilidade do grupo agrícola Amaggi, enfatizou que o Brasil precisa de um protagonismo na produção alimentar com responsabilidade ambiental.

"O Brasil consegue ampliar ao ano mais de 20% da oferta de alimento com o selo de desmatamento zero, mesmo essa demanda lá fora ficando estagnada. Nosso produtor faz o que é pedido pelo mercado externo, nossa cadeia produtiva também, mas acaba sendo penalizado pelo desmatamento ilegal que mancha nossa imagem lá fora", se queixa.

Ecoa está transmitindo um ciclo de webinares em parceria com o Pacto Global, o braço ONU (Organização das Nações Unidas) para o setor empresarial, com temas ambientais, sociais e econômicos que tentam apontar como será o planeta nos próximos anos.